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Refresh (de profundis)

Quando comecei a escrever aqui, tinha menos de 25 anos, lia, ouvia música e tinha interesse pelas trivialidades mais ou menos importantes que se passavam à minha volta. Enfim, tinha tempo.

Entretanto, o trabalhou desabou por sobre mim. Primeiro, deixei de ter 25 anos, depois deixei de ler e de ouvir música. Deixei até de ter interesse pelas trivialidades mais importantes que se passavam à minha volta. Enfim, deixei de ter tempo.

Comecei a escrever para meninas. Ou para mulheres, não sei. Ou a pensar que escrevia, talvez. Afinal, eram (são) a única trivialidade que interessa. Que me interessa. Talvez não sejam trivialidades, até. Num dos seus filmes, o Woody Allen dizia ao filho que elas eram deus ou, pelo menos, o único indício de que ele exista. Também quero educar assim o meu putativo filho.

Divago. O importante é que existem. Valham-nos elas.

E finalmente, acabei a escrever para não sei quê e deixei de escrever. Não tinha tempo, dizia, sem nunca pensar que «o tempo é nossa invenção» (filósofo Palma).

Estive em Barcelona esta semana. E foi bom, muito bom. Mais do que nunca, penso, neste muito sossegado aeroporto, quando me preparo para regressar à vida «como sempre como dantes» (Camané), em como foi possível ter-me deixado levar tanto pela falta de tempo. E em como vogar contra isso.

Tentarei, pelo menos, ir escrevendo alguma coisa. Sem me esforçar demasiado, claro. Será uma visão sobre o mundo, ou uma falta de visão, não sei. Não interessa o que venha a ser, na verdade. Será alguma coisa, se conseguir ser mais do que nada.

Teria muita coisa para dizer sobre esta semana, se fosse do tipo de dizer coisas. Direi algumas, talvez. Obviamente, as que não interessam.



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