Joder

Marcas

Nove horas de uma noite de fim de Verão na Plaza de l'Angel, uma praça barcelonence ali no cruzamento entre a Via Laietana e a Carrer Jaume I. Ia eu, sossegado da vida e a pensar com os meus botones, a caminho de algum sítio da bela localidade catalã, quando ouço de uma de três meninas portuguesas que não merecem descrição e que ali conversavam alegremente a frase «Este é português, definitivamente.» dirigida a mim. À medida que por elas passava, uma das que ouvia a tão convicta outra diz «Portugal» virando-se para mim em jeito de pedido de confirmação. Sorri apenas, seguindo o meu caminho sem nada dizer. Não queria, de maneira nenhuma, dar-lhes a satisfação de pensarem que sou assim tão transparente e, na verdade, nenhuma delas tinha, a meus olhos, argumentos que me pudessem convencer a parar.

Não deixei, no entanto, de ficar intrigado, admirado e preocupado com tamanha certeza na definição da minha origem. Afinal de contas, estava em Espanha,terra de gente mais ou menos como nós. Olhei para mim, de cima a baixo, na tentativa de perceber o que é que me denunciava tão eficazmente. E fiquei na mesma: a t-shirt que trazia vestida era Energie, as calças, Pepe Jeans, os ténis eram Diesel, os óculos, Etro, o sorriso Colgate, o perfume Davidoff e os caracóis Elvive. Nenhum elemento nacional, portanto. Nenhum galo de Barcelos estampado na testa, tudo coisas que se encontram em Lisboa, em Barcelona, em Londres ou em Bielefeld.

Será a forma como ponho as mãos nos bolsos? Será o andar ginguinho? Terei uma aura lusitana?

Ténis

Enquanto espero pela final do US Open, deixo diferentes razões para se gostar de ténis.







Pé na tábua



Fast palindrome, by Invisble NME



Acordar um dia

«Matou-a à machadada porque lhe faltava a coragem para matá-la de desgosto, de vazio e de tempo perdido.»

Assim escreve o Nuno no meu blogue preferido: Acordar um dia.

Não te deixes adormecer, rapaz!



Totós


Na Espanha, os livros «para totós» são «para dummies», o que me leva a pensar que não encontraram equivalente para o termo inglês. Deve ser triste viver num país onde não se pode designar um totó. (Comprei o livro na mesma, claro. Não vou deixar que o léxico se interponha entre mim e «una vida sexual muy placentera».)



11-9

No dia 11 de Setembro foi dia da Catalunha. Parece que é todos os anos na mesma data. Pelas ruas de Barcelona, lá andam os esquerras, a cantar em catalão, a fazer manifestações, a gritar palavras de ordem. Talvez sejam boas pessoas, quem sabe. Mas têm um problema comum a todos os pretensos revolucionários: vestem-se mal e não cheiram muito bem e não dizem coisa com coisa.

Olho para elas, as independentistas, as revolucionárias, e fico com pena. Algumas teriam imensas potencialidades, com um banhinho, uma roupinha nova e algum carinho. Mas enfim, não posso curar o mundo todo, não falo catalão e tenho a praia à espera.

Depois do dia 11, vem o dia 12. Cartazes nas montras das lojas e dos bancos, graffitti em tudo quanto é sítio, mensagens revolucionárias, independentistas, socialistas, «antifeixistes», numa confusão ideológica de quem alardeia sem grande fundo. Fodem tudo, enfm. Ainda por cima, tudo num bairro tão agradável como o Born.

E é ver os empregados das lojas a lavar os vidros, os funcionários da câmara a limpar as paredes. Ingloriamnente.



Quase

O amor entre pessoas feias — sim, pessoas feias, não me enganei — é uma coisa engraçada, quase bonita. Há ali tanta entrega, tanta disponibilidade, tanta libertação, tanta alegria incontida...



Refresh (de profundis)

Quando comecei a escrever aqui, tinha menos de 25 anos, lia, ouvia música e tinha interesse pelas trivialidades mais ou menos importantes que se passavam à minha volta. Enfim, tinha tempo.

Entretanto, o trabalhou desabou por sobre mim. Primeiro, deixei de ter 25 anos, depois deixei de ler e de ouvir música. Deixei até de ter interesse pelas trivialidades mais importantes que se passavam à minha volta. Enfim, deixei de ter tempo.

Comecei a escrever para meninas, ou para mulheres, não sei. Ou a pensar que escrevia, talvez. Afinal, eram (são) a única trivialidade que interessa, que me interessa. Talvez não sejam trivialidades, até. Num dos seus filmes, o Woody Allen dizia ao filho que elas era deus ou, pelo menos, o único indício de que ele exista. Também quero educar assim o meu putativo filho. Enfim, divago. O importante é que existem. Valham-nos elas.

E finalmente, acabei a escrever para não sei quê e deixei de escrever. Não tinha tempo, dizia, sem nunca pensar que «o tempo é nossa invenção».

Estive em Barcelona esta semana. E foi bom, muito bom. Mais do que nunca pus-me agora a pensar, quando, neste muito sossegado aeroporto, me preparo para regressar à vida «como sempre como dantes», em como foi possível ter-me deixado levar tanto pela falta de tempo. E em como vogar contra isso.

Tentarei, pelo menos, ir escrevendo alguma coisa. Sem me esforçar demasiado, claro. Será uma visão sobre o mundo, ou uma falta de visão, não sei. Uma parte de um pequeno mundo projectado, talvez. Não interessa o que venha a ser, na verdade. Será alguma coisa, se conseguir ser mais do que nada.

Teria muita coisa para dizer sobre esta semana, se fosse do tipo de dizer coisas. Direi algumas, talvez. Obviamente, as que não interessam.



2009

[já houve aqui um post. Fica o vestígio.]

Post Scriptum

Por insistente pedido da batukada, adiro a uma corrente, antes de acabar de vez. Na foto, o meu olho com defeito. O artista é o Tom Waits. Os títulos são:

1) És homem ou mulher? I Don't Wanna Grow Up
2) Descreve-te: I'm Your Late Night Evening Prostitute
3) O que as pessoas acham de ti? Who Are You?
4) Como descreves o teu último relacionamento? Old Shoes (& Picture Postcards)
5) Descreve o estado actual da tua relação: Two Sisters
6) Onde querias estar agora? Way Down In The Hole
7) O que pensas a respeito do amor? A Sweet Little Bullet From A Pretty Blue Gun
8) Como é a tua vida? Better Off Without A Wife
9) O que pedirias se pudesses ter só um desejo? Christmas Card From A Hooker In Minneapolis
10) Escreve uma frase sábia: I Can't Wait To Get Off Work

Ingenio

[...] le preguntó un estudiante si era poeta, porque le parecía que tenía ingenio para todo.
A lo cual respondió:
Hasta ahora no he sido tan necio ni tan venturoso.
No entiendo eso de necio y venturoso dijo el estudiante.
Y respondió Vidriera:
No he sido tan necio que diese en poeta malo, ni tan venturoso que haya merecido serlo bueno.

Cervantes, El Licenciado Vidriera, in: Novelas Ejemplares

Introdução

Entre as diversas moléstias significativas da minha velhice, o amor aos livros antigos — a mais dispendiosa — leva-me o dinheiro que me sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de pílulas e tisanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me ilustro com os arcaísmos, arruíno o estômago, e enferrujo o cérebro numa caturrice académica.

Camilo Castelo Branco, A Brasileira de Prazins

Embaras du choix

— Até beber cerveja ficou difícil — queixa-se.
— O preço?
— Não. A variedade. O embaras du choix.
— Mas se você já estava acostumado com uma...
— E as novas que aparecem? Em cada Estado surge uma fábrica, se não surgem duas. Cada qual oferecendo diversas qualidades. Você senta no bar de sua eleição, um velho bar onde até as cadeiras conhecem o seu corpo, a sua maneira de sentar e de beber. Pede uma cervejinha, simplesmente. Não precisa dizer o nome. Aquela que há anos o garçom lhe traz sem necessidade de perguntar, pois há anos você optou por uma das duas marcas tradicionais, e daí não sai. Bem, você pede a cervejinha inominada, e o garçom não se mexe. Fica olhando pra sua cara, à espera de definição. Você olha para cara dele, como quem diz: Quê que há, rapaz? Então ele emite um som: Qual? Você pensa que não ouviu direito, franze a testa, num esforço de captação: qual o quê? Qual a marca, doutor? Temos essa, aquela, aquela outra, mais outra, e outra, e outras mais. . Desfia o rosário, e você de boca aberta: Como? Ele está pensando que eu vou beber elas todas? Acha que sou principiante em busca de aventura? Quer me gozar? Nada disso. O garçom explica, meio encabulado, que a casa dispõe de 12 marcas de cerveja nacional, fora as estrangeiras, sofisticadas, e ele tem ordem de cantar os nomes pra freguesia. Até pra mim, Leovigil? pergunto. Bem, o patrão disse que eu tenho de oferecer as marcas pra todo mundo, as novas cervejas têm de ser promovidas. Não mandou abrir exceção pra ninguém, eu é que, em atenção ao doutor, fiquei calado, esperando a dica... Não quis forçar a barra, desculpe.
— E aí?
— Aí eu disse que não havia o que desculpar, ordens são ordens e eu não sou de infringir regulamentos. Os regulamentos é que infringem a minha paz, freqüentemente. Mas para não dar o braço a torcer, nem me declarar vencido pela competição das cervejas, concluí: Leovigil, traga a de sempre.
— Não quis dizer o nome?
— Não. Minha marca de cerveja — "minha garrafa", digamos assim, pois a individualidade começa pela garrafa — passou a chamar-se "a de sempre". Não gosto de mudar as estruturas sem justa causa, nem me interessa dançar de provador de cerveja, entende?
— Mas que custa experimentar, homem de Deus?
— Só por experimentar, acho frívolo. Os moços, sim, não encontraram ainda sua definição, em matéria de cerveja e de entendimento do mundo. Saltam de uma para outra fruição, tomam pileques de ideologias coloridas, do vermelho ao negro, passando pelo róseo, pelo alaranjado e pelo furta-cor. Mas depois de certa idade, e de certa experiência de bebedor, você já sabe o que quer, ou antes, o que não quer. Principalmente o que não quer. E é isso que os outros querem que você queira. Tá compreendendo?
— Mais ou menos.
— Na verdade, não há muitas espécies de cerveja, no mundo das idéias. Mas os rótulos perturbam. Uns aparecem com mulher nua, insinuando que o gosto é mais capitoso. Bem, até agora não vi rótulo de cerveja mostrando mulher com tudo de fora, mas deve haver. Mulher se oferecendo está em tudo que é produto industrial, por que não estaria nos sistemas de organização social, como bonificação?
— Você está divagando.
— Estou. Divagar é uma forma de transformar pensamentos em nuvem ou em fumaça de cigarro, fazendo com que eles circulem por aí.
— Ou se percam.
— E se percam. Exatamente. 0 importante não é beber cerveja, é ter a ilusão de que nossa cerveja é a única que presta.
Sujeito mais conservador! Ou sábio, quem sabe?

Carlos Drummond de Andrade, A de Sempre, in: De notícias & não notícias faz-se a crônica

Bum

Um rapaz corre de mota numa estrada secundária. O vento bate-lhe no rosto. O rapaz fecha os olhos e abre os braços, como nos filmes, sentindo-se vivo e em plena comunhão com o universo. Não vê o camião irromper do cruzamento...
... Bum!...
Morre feliz. A felicidade é quase sempre uma irresponsabilidade. Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos.

José Eduardo Agualusa, Seis aforismos amorais.

Perco-me

— Estás apaixonado, caracol?
— Eu não me apaixono, miúda. Eu perco-me de amores.
[...]
— Andas perdido de amores?
— Vai à merda!

Predicações

Tenho vindo a notar em certas moças que à minha volta fazem as suas vidas com certa inconstância o desenvolvimento de um falar eufemístico quando se referem a mim, estando eu presente. Esse falar eufemístico consubstancia-se no uso de um advérbio que modaliza predicações vistas como (demasiado) elogiosas: é o "até":
— Até és giro!
— Até és inteligente!
— Os teus caracóis até têm piada!
— Essa t-shirt até te fica bem!
— Até nem te vestes mal!
— Até fazes bom minete!
Tirando esta última, que acredito que seja dita apenas por simpatia, pois, na verdade, nunca sei o que ando ali a fazer (afinal de contas, "até sou giro"; nunca se surpreendam, rapazes, com a generosidade de uma menina que gosta de vocês), todas as outras frases são claros exemplos de um engraçado retraimento, cujo único resultado é a sensação que dá de que não me querem contar a verdade tal como a vêem.

So there's no clash of colours

video
Ken Loach, Kes, 1969

É possível que no futuro eu venha a postar passagens de filmes que me agradam particularmente (ambiguidade premeditada). Pequenos trechos que a meu ver sobrevivam sozinhos fora do filme em que estão inseridos, trechos que, enfim, sejam pequenas curtas-metragens (pleonasmo intencional).
Este que vos apresento agora é uma desses trechos e um bom ponto de partida. Trata-se de uma aula de educação-física ministrada por um professor com peculiaridades num típico dia de nevoeiro numa escola do norte de Inglaterra. Muitos dos actores são mesmo alunos dessa escola e, portanto, actores amadores, o que até ajuda no ambiente geral desta passagem.
O filme, esse, é uma óptima construção de personagens que vivem à volta de um puto que, ignorado pela mãe e pelo irmão e gozado na escola, se dedica à criação de um falcão.

Boas horas

Gosto de me deitar tarde. Muito tarde. O silêncio que experimento na Lisboa das três ou quatro horas da manhã permite-me adormecer ao som da água que ouvia a correr quando em criança me deitava na minha cama algures no Minho.

Combinação frequente

Em aulas de tradução, é frequente falar-se de «colocações». Uma «colocação» é não mais do que uma combinação frequente de palavras. E surgem sempre exemplos como o «módica quantia». Esquecem-se sempre, nestas aulas de tradução, de avisar os alunos que não há maior colocação do que «tradução urgente».

Desvio

Não te metas a pau, não! diz-me moça gentil com um sorriso admoestador.
Talvez fosse importante e viesse a propósito o conselho, mas fiquei a pensar Porque é que ela não disse "Não te ponhas a pau"? , e imediatamente me esqueci do que falávamos.

Imensos mas atrofiados

Ler para quê? Leio pouco. Livros que me distraiam? Estou bastante distraído comigo próprio. Nem bem mesmo os livros que me acrescentam o saber, mas os que me acrescentam a mim. Nós somos imensos mas atrofiados. Importam-me assim os livros que desenvolvam o que sou. Quantas coisas ignoramos que somos, apenas porque o embrião disso se nos não desenvolveu até ser visível. Um livro que me acrescente, não que se me acrescente. O que acumulei é muito. O que fui é muito pouco.

Vergílio Ferreira, Pensar

Poderão estragar-se

Leio no jornal que daqui a uns cinquenta anos o verão em Portugal durará seis meses. Não regozijo demasiado porque daqui a cinquenta anos eu estarei no limiar dos oitenta, mas fico com uma pergunta entalada entre as orelhas: o que será dos chocolates da Ferrero? Passarão os Mon Chéri e os Ferrero Rocher a ser doces de Natal apenas?

Quero que façam aquilo que pretendo

Leio em diversos jornais uma frase do treinador do Sporting, sobre a qual os jornalistas fazem grandes elucubrações mentais, interpetando-a como um aviso ao não sei quem.

Ora bem, corrijam-me se eu estiver enganado, dizer "Quero que façam aquilo que pretendo" não é a mesma coisa que dizer "Quero o que quero", ou seja, a mesma coisa que não dizer nada, ou seja, a mesma coisa que estar calado mas com mais barulho?

Publicidade institucional

Quer, como eu, ser capaz de escrever em conformidade com o novo acordo ortográfico, mas não sabe quais são as palavras que sofrem modificações?
Não quer, como eu, escrever em conformidade com o novo acordo ortográfico, mas receia ter de vir a fazê-lo por motivos profissionais e pecisa de saber o que muda?
Quer, como eu, saber quais as palavras que se alteram com o novo acordo ortográfico, mas ter a possibilidade de procurá-las usando a ortografia que sempre conheceu?

Pois bem, como o novo Vocabulário – as palavras que mudam com o Acordo Ortográfico pode fazer isso e muito mais num abrir e fechar de livro. Só nesta fantástica coleção de 80 folhas de papel organizadas por páginas encontra as cerca de 3900 palavras que mudam com o acordo ortográfico de 1990. Vá já à sua livraria. E, se não tiver uma livraria, vá à dos outros.


Não quer saber de ortografia para nada, mas gosta da capa?
Não quer saber de ortografia para nada nem gosta da capa, mas não se importa, uma vez que na estante só se vê a lombada e, afinal de contas, é mais um livro para a coleção?
Vá! Dirija-se à livraria mais próxima.

E isto é coisa que pode levar um certo tempo

Depois de cuidadosa leitura na horizontal, reparei que tinha o blogue cheio de gralhas. Envergonhadíssimo perante tamanha epifania, escondo-o da vossa vista imediata até terminar a missão de gralhas buster que vou iniciar logo que possa. Não o faço, no entanto, sem vos deixar, não a despropósito, este belo texto de Gabriel Perissé:

Quem mexeu no meu texto?!

Tal como o goleiro no futebol, o revisor, na editora, é aquele que evita o pior (o gol adversário, o erro de digitação, a escorregada gramatical, a incoerência que ninguém percebeu etc.).

No entanto, é também o revisor quem mais sofre com as derrotas de um texto. Ele é o último homem (ou a última mulher) a ler o livro antes da fase de impressão gráfica, quando não há retorno...


Monteiro Lobato dizia que a tarefa do revisor era das mais ingratas. Que o erro ou a falha se escondiam durante o processo de confecção do livro para, depois de tudo pronto, aparecer na primeira página aberta, como um saci danado, pulando, debochando do revisor.


O revisor é um caçador de distracções. Uma de suas maiores alegrias (em que há uma pitada de vaidade) é encontrar deslizes do autor, perceber as gralhas que ninguém viu antes, corrigir detalhes que iam passar despercebidos.


O revisor revisa com amor.

O revisor sai de manhã, caneta em punho, em busca de verbos mal conjugados e vírgulas fugitivas.

O revisor revisa com dor.

O revisor chega em casa, à noite, com o coração cheio de parágrafos amputados e tópicos frasais remendados.

O revisor revisa com ardor.

O revisor enfrenta moinhos de vento que de fato moem o vento de palavras que o vento não leva.

Madrugadas insones, manhãs e tardes quentes, noites chuvosas, o revisor vai pulando as linhas e entrelinhas do texto em busca das ciladas armadas sabe Deus por quem.

O revisor entrega o seu trabalho bem suado e abençoado. Recebe as moedas de prata que são, na verdade, moedas de ouro. Recolhe seus instrumentos de caça, enxuga o rosto, sorri. Sabendo que o autor poderá reclamar de suas intervenções, que poderá referir-se ao revisor, gritando: quem mexeu no meu texto?!

O mérito da frase perfeita é do autor.

O crime do erro cometido será do revisor.

O revisor, porém, não se considera um injustiçado. O revisor vitimista abandonou a profissão no primeiro dia. O verdadeiro revisor, como o goleiro no futebol, sabe que nasceu para ficar ali, na pior posição de todas, para agarrar centenas de bolas difíceis e, talvez, deixar passar a mais fácil de todas.

Oços do ofíssio.

Tá-se bem

Sentado num café calminho, ladeado de casas com meninas danadinhas para a brincadeira, onde não se bebe álcool e se fuma umas coisas melhores que tabaco. Está-se bem em Amesterdão.

Eu vinha do lado do corredor

Fui a Braga de comboio. Ao meu lado, uma menina de seus 27 anos. Talvez 28. Não vou descrevê-la, às vezes os adjetivos precisam de sossego. Direi apenas que era menos feia que bonita. Coisa para não me fazer esquecer o sono que trazia, no entanto. Toda a viagem fomos calados. Eu e ela. Eu a dormir. Ela a... bem, não sei, na verdade. Afinal eu estava a dormir. No Porto, o seu destino, pediu-me licença (eu vinha do lado do corredor), usando a terceira pessoa. Dei-lha, ainda assim. Tirou a mala, pesada, do suporte situado acima das nossas cabeças quando estamos sentados, enquanto eu, em pé, observava esperando (ou esperava observando, não sei muito bem). Com a mala já no chão, olhou para mim, eu ainda em pé. Sorri. Sou um gajo simpático. Disse-me: Continuação de boa viagem. Agradeci, apesar de nunca lhe ter dado a entender que estava a ter uma boa viagem. Sou um gajo educado.

O vigor do sentimento

"Os bons usos ordenam que o homem se declare à mulher que ama, depois que as impressões repetidas de vê-la e ouvi-la hajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe requer primeiro o êxtase, depois as sensaborias tartamudas, ultimamente a declaração, com intervalo de três meses ao êxtase."

Camilo Castelo Branco, A Queda de um Anjo

Pa ella

Tenho estado em Barcelona nos últimos dias. Uma introdução tão curta e simples não promete grande texto, mas não te deixes, cara leitora, enganar pelas iludências. Como bem saberás, as iludências aparudem. Tenho estado em Barcelona, dizia. Bem, tenho estado nos últimos 3 dias, o que não é grande conta nem justificará o uso do pretérito perfeito composto. Mas enfim, tenho estado. E nesses três dias reparei num hábito que sempre se me afigurou estranho e que aqui é levado a níveis quase tão altos como a esganiçada voz da espanhola em idade de procriação. Não é, no entanto, um hábito espanhol, é um hábito sem pátria. Global, se quiseres, linda leitora. É o costume de tirar fotos a prédios conhecidos.
Ainda hoje ia a passar por aquela construção multifálica a que chamam Sagrada Família, e era vê-los, os turistas, de máquina fotográfica em punho, braços esticados, pescoço inclinado, olhos virados para o céu, a tirar fotos ao famoso monumento. Hordas deles, de turistas. Tantos que alguns haveria a tirar fotos à cabeça de outros com certeza, tão juntinhos se encontravam por todos quererem trazer para dentro daquelas caixinhas japonesas a que se convencionou chamar máquinas fotográficas a imagem do prédio inacabado.
Aquilo a que acho piada nisto tudo é que tenho a certeza de que haverá milhares de fotos da Sagrada Família disponíveis na Internet para quem as quiser ver. Milhares de fotos melhores do que as que aqueles tão bem intencionados turistas se apressam a tirar com grande afã. O que é que eles querem afinal? A imagem do monumento no dia em que estiveram à sua frente? Tem de ser aquele sol, porque nunca mais vão estar ali 24, 349847 graus às sete da tarde? A fotografia tem de ter sido tirada com as suas mãos suadas e com resquícios das tapas que acabaram de comer? Não percebo.

Bem, doce leitora, tenho de ir. A paella está pronta. Mas não deseperes, que voltarei. Tal como A Sagrada Família, e ao contrário da paella, este post está inacabado.

As vozes da experiência

Julho de 2008 na vida do caracol:

11 de Julho: Bob Dylan, Passeio Marítimo de Algés
12 de Julho: Neil Young, Passeio Marítimo de Algés
19 de Julho: Leonard Cohen, Passeio Marítimo de Algés
22 de Julho: Tom Waits, KCP, Praga

A cereja no topo do bolo seria a ressurreição do Johnny Cash e uma espécie de tour pascal subsequente que passasse por Lisboa.

Só com um comentário

Antena 1, nove e picos:
Assinalamos a partida do camião com tudo o que a seleção nacional precisa.
Logo a seguir, em direto do local de partida do camião com tudo o que a seleção nacional precisa, um solícito repórter consegue o exclusivo com o camionista:
Como é que vai ser a viagem daqui até Neuchâtel?
Vai ser uma viagem como as outras, só que um pouco diferente.

Comentário: Juro que esta merda é verdade. Eu ouvi.

Nota: post escrito em conformidade com o acordo ortográfico de 1990.

Benfica

Na época passada vestíamos rosa. Agora vamos ter Flores. Mantém-se um certo padrão. Espero que não se mantenha uma certa classificação.

Mais informo

Neste blogue passar-se-á a escrever em conformidade com o novo acordo ortográfico. O mesmo será dizer que neste blogue passarei a escrever em conformidade com o novo acordo ortográfico. Aliás, todo este post está a ser escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico.
Não significa isto, no entanto, que eu goste do novo acordo ortográfico ou que esteja de acordo com ele. Não concordo com grande parte do acordo novo, mas também já não concordava com uma parte grande do velho. Ainda assim, não consigo deixar de achar piada a todos aqueles que confundem a língua com a ortografia e anunciam descaradamente por aí a morte da língua portuguesa. E discordo ainda mais deles do que do acordo, que dizem ser novo, mas que já tem dezoito anos.
O novo acordo ortográfico é sobretudo chato. Aprendemos a escrever de uma forma e agora vamos ter de conhecer meia dúzia de regras novas. Preguiçoso como sou, isso chateia-me. Por outro lado, parece-me que a haver acordo, este deveria ser muito mais ambicioso: eliminar acentos e hífenes, por exemplo, seria um bom ponto de partida.
Há, porém, uma regra nova de que gosto muito. É a possibilidade de não acentuar a primeira pessoa do plural dos verbos regulares de primeira conjugação no pretérito perfeito. Sendo eu um gajo de Braga, não faço qualquer distinção na pronúncia da palavra passamos nas frases:
"Ontem passamos todo o dia na praia." e "Sempre que nos vemos passamos horas a conversar.". Gosto de saber que não precisarei de fazer esta distinção na escrita, como acontecia até agora. Do ponto de vista da coerência do paradigma verbal faz até mais sentido, uma vez que já não distinguíamos o comemos presente do comemos passado ou o partimos presente do partimos passado.
Bem, muito mais teria eu a dizer sobre este tão famigerado acordo, mas não me apetece, neste momento. Estou com fome e quero ir comer. Saibam, contudo, que todo este post foi escrito em conformidade com o dito cujo.

Batota

Diz-me menina de gesto gracioso e qualidades embaraçosas, em jeito de ameaça: Se não escreveres nada até ao fim-de-semana, deixo de ler o teu blogue.
Deferente para com tão séria intimação da terminante menina, deixo este singelo post de redenção em cima do prazo estipulado.

Caracol as it once was

Lembras-te, minha querida adosinda, de quando o caracol perfumado tinha estremes letras brancas sobre um lindo fundo vermelho que te feria os olhos ainda não protegidos pelos mimosos óculos que usas hoje? Pois bem, encontrei-o aqui, esse caracol. Não era bonito?

Uma simples água morna

"Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo?" dizia Machado de Assis em O Alienista, a propósito da falta de encantos de uma certa D. Evarista, falta de encantos essa descrita assim tão deliciosamente: "D. Evarista não merecia nenhuma desconfiança, tão longe estava de ser atraente ou bonita. Uma simples água-morna."

Divago. Mas a verdade é que me vem aquela frase à cabeça sempre que me vejo por entre as montras de roupa primavera-verão de 2008, tão cheias me parecem de t-shirts, saias, casacos e outros adereços tingidos com essa cor que nos faz saber que os limões estão maduros.

Special One

O José Mourinho é tão bom, tão bom que não precisa de mais do que de viver em Setúbal para que o Vitória local ganhe taças e faça um campeonato em grande.

Canções grandes

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Uma história de futebol

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Oferece-se

Caracol perfumado, intrépido adepto do Benfica (com costela de Bolton Wanderers desde a semana passada e até ao fim da semana presente), oferece-se para treinar equipa profissional de futebol do clube. Promete desbaste significativo de jogadores, discordância sistemática em relação a qualquer palavra balbuciada pelo ainda presidente Luís Filipe Vieira, um discurso arrebatador no balneário e nas entrevistas rápidas e títulos, muitos títulos, a breve trecho, ou seja, para o ano. Exige não mais do que 11 jogadores novos por si indicados (para um plantel de 22), um copo de sumo e uma fatia de pão integral com nutella depois de cada vitória trazidos ao seu gabinete particular por duas das meninas que com os seus pomponzinhos animam os intervalos dos jogos da Luz, um fantoche com o famigerado nível IV do curso de treinadores para usar a braçadeira, o elixir da eterna juventude para dar ao Rui Costa e, obviamente, o passe do comboio para poder ir treinar para o Seixal.

Agremiação III

"Que se lixe o John Wayne, prefiro Clint ou o Van Cleef
Gosto dos meus hérois com um pouco de patife
Sujidade no suor que escorre pela cara
Sarro na roupa ao lado de uma mulher manara
A bela e o monstro dão um par mais do que perfeito
Principamente se ela tiver 90 e tal de peito...
Como a Cláudia ou a Sofia nos anos setenta
Língua afiada, olho aberto e muito pêlo na venta
Mas já que não há cowboys tenho que dizer, infelizmente
Há apenas bons da fita com um ar deprimente,
Porque tanta saúde simplesmente não pode ser saúdavel
Há-de fazer mal à cabeça, é uma verdade inegável
Para mais, dá que desconfiar e um gajo mete-se a pensar
não dá para acreditar - aonde é que viemos parar?
Abaixo os novos hérois, tenho saudade dos cowboys,
Com um sotaque manhoso e bronzeado de mil sóis"

Cowboys, Da weasel

Ainda

Continuo a ser do Benfica. Intrepidamente.

Ainda

Recuperando uma frase que li há muito não sei onde nem a quem, apetece-me dizer "quem ainda fala neste mundo, fala pouco e fala mal".

Agremiação II

"Pregou alguns anos com aplauso dos entendidos e inutilidade dos pecadores. A retórica é a
arte de falar bem; mas os vícios são a arte de viver bem e alegremente."

Camilo Castelo Branco,
A Brasileira de Prazins

Dúzia

Pois bem, adosinda do meu coração, estas são as doze palavras de que me lembrei e que te direi minhas favoritas (a ordem por que aparecem foi cuidadosamente pensada para ser aleatória):
  • miúda — nome genérico das meninas de que gosto realmente;
  • castiça — um grande adjectivo, que vai bem em qualquer tipo de conversa;
  • calipígia — palavra de origem grega que caracteriza educadamente uma parte mais ou menos pudenda, quando na verdade falamos de um todo (de uma toda, para ser mais específico);
  • obnubilar — (fazer) esquecer em beleza;
  • beiços — sobretudo umedecidos (assim mesmo, sem h);
  • agremiação — a melhor maneira de designar um conjunto de indivíduos que se orgnizam com vista a alcançar objectivos comuns; a minha agremiação preferida é, como sabes, o SLB;
  • ventre — uma barriga clássica;
  • escrevinhar — escrever pelo prazer de ser o Cupido das palavras e nada mais;
  • conspícuo — palavra que me soa ao oposto do que significa; coisa que, por muito que tente, não consigo deixar de ser;
  • dentadinha — porque me sugere deleite tímido, volúpia recatada;
  • indulge — porque também de palavras estrangeiras se compõem as minhas preferências; porque se trata de um estranho false friend — quantas vezes usei eu "indulgência" com a semântica inglesa — e porque faço tudo isto to indulge you, my dear adosinda;
  • seio — porque sim; é melhor que pão.
Noutro dia, outras palavras seriam. Como sabes, a minha volatilidade não me permite o compromisso. Nem com tão desafectadas palavras...

Acontece muito

— Era capaz de não ser casual.
— Mas era gracioso e picante.
— Inusitado, mas propositado. Ela é uma maquina de manipulação, no fundo, mas sem ter a noção.
— De facto. Acontece muito.
— Sim, há provas e tudo.
— Irrefutáveis provas. Mas. como pode um humedecer dos beiços ser inocente?
— Não é inocente, mas não implica que se tenha consciência da manipulação. Nem todo o acto não inocente é acto de manipulação.
— Ou não pretende ser.
— Igual.

Agremiação

"A seita dos saudáveis. É uma agremiação como a dos escuteiros, dos desportistas, das testemunhas de Jeová, dos comunistas até há pouco e assim. Não beber, não fumar, evitar a carne e sobretudo as gorduras, dar preferência aos vegetais, comer pouco e várias vezes ao dia mesmo sem apetite, deitar cedo, fazer exercícios, evitar o sedentarismo, vigiar o peso, a tensão arterial... Sim. Mas para que é que eles querem a vida, se não é para a utilizarem? Lembram os que compram roupa mas guardam-na e não a usam. O seu objectivo na vida não é viverem-na mas cifrar a felicidade ao simples facto de a terem. São exemplares à vista — magros, direitos, ginasticados. Mas não tiram proveito disso, excepto o de serem saudáveis à custa de muito martírio. Ou seja, o de poderem gozar a vida na sua maior amplitude, que apenas é poder. A seita dos saudáveis. Vejo-os com frequência na TV. Mas tiro-lhes o som e ficam mais enfermiços."

Vergílio Ferreira, Pensar

Cumplicidades

Enquanto leio pequena entrevista de Manuel Alegre à Visão, apercebo-me de que afinal política e futebol estão intimamente ligados: ambos são "assim mesmo".

Pobre consolo

— Afinal, és apenas humano. diz-lhe ela, em bem-intencionado lenitivo. Ingénua, esquecia-se de que ele tinha paciência limitada para sofismas limitadores das suas limitações.

Orelhas arregaladas

Existo, logo oiço:

— Não foram colocadas questões no sentido interrogativo do termo.
— Que engraçado! Derrogação não faz parte do meu vocabulário activo.

Onde há fumo

De repente toda a Lisboa parece um enorme Bairro Alto. Por onde quer que passe, vejo as pessoas à porta dos cafés, tascas, restaurantes e afins em vez de lá dentro. A fumar.

Não sem desencanto

Sentado, excepcionalmente, a almoçar em grande superfície comercial, dou por mim a ouvir as últimas tendências no que à moda das árvores de Natal diz respeito. Menina de porte bojudo, que afirmara, pouco antes, que os homens só lhe interessavam do pescoço para baixo (frase que registei com interesse, mas não sem desencanto — há coisas que as mulheres só devem dizer baixinho, seja qual for o seu porte), diz que há uma árvore preta muito gira, linda de morrer, na Área. Para descontentamento do seu porta-moedas, esta árvore combina às mil maravilhas com as (caras, diz ela) bolas prateadas que estas tão populares lojas de produtos para a casa disponibilizam aos seus fregueses. A amiga da bojuda menina, cuja voz se fazia ouvir menos distintamente, logo acrescentou que também ela tinha o seu cartão de débito fisgado na negra árvore até ao momento em que o destino — disfarçado de pai natal, digo eu — a colocou perante uma árvore azul, pela qual se apaixonou e na qual as mesmas bolas prateadas (caríssimas) ficam que é um regalo.
Eu, que sou do tempo (e do espaço) em que se usavam árvores sacadas do monte mais próximo, que cheiravam a resina, tinham o tronco castanho e caruma verde, por vezes até pinhas — enfim, eram pinheiros mesmo, pinheiros de verdade —, acho lindo que se discuta cores de árvores de Natal, que se escolha o preto, que se pague euros mil por isso e que se brade sem pudor no meio de praça de restauração de grande superfície comercial tamanho despautério. Até porque, se é de árvores pretas que se faz o Natal 2008, dados os incêndios que agora temos em Novembro, parece-me que não seria muito difícil arranjar uns pinheiros chamuscados na florestazinha mais próxima. Permitiria, pelo menos, que outra árvores crescessem no lugar dessas.
Mas isto sou eu a pensar, sempre optimista e cheio de boas ideias!

Equílibrio

– Queremos sempre ir mais alto, não é, caracol? E não podemos pensar muito na queda ou corremos o risco de não viver a plenitude do que nos vai acontecendo.
– Eu acho que podemos pensar na queda. Se não, não nos equilibramos. O melhor será talvez não olharmos para baixo.

Augúrio

— Hoje não há festa na cidade, caracol? Ou estás com medo da chuva?
— Estou com medo da chuva.
— Esse comodismo vai ser o teu fim.

À volta dos chocolatinhos

— Está bem, caracol. Mas eu só quero as bolas.
— É pena, miúda. Já só me resta um pauzinho.

— Afaga-me o ego!

Impelido por ternos comentários a um post anterior, dou por mim a lembrar-me da expressão que escrevi no título do post presente e a pensar se, colocada assim em forma de acto directivo, haverá alguma forma de se lhe dar uma interpretação literal e, por uma vez, evitar os impérvios caminhos do dizer de carácter sexual de gosto duvidoso.

Expectativas

— Para quando uma análise semiótica profunda aos billboards da Intimissimi, caracol?
— Não sei, pá. Aquele padrão tigresse deixa-me semioticamente infértil.

Abona-me em demasia

É estranhamente elevada a quantidade de vezes que, em lugares mais ou menos públicos, meninas em idade casadoira me dizem adeus sem antes me terem dito olá. Tão estranhamente elevada que me faz pensar porquê. Não tão estranhamente óbvia que me permita o atrevimento de a tal pergunta responder. (Quer dizer, tenho uma teoria, mas abona-me em demasia. Por pudor, coíbo-me de vo-la apresentar.)

Coelho à caçador

Estava triste. Aborrecido. Com tempo nas mãos e sem nada para fazer. Pegou na espingarda, que guardava ao pé da lareira como de objecto de decoração se tratasse, e saiu em busca da animação decorrente do prazer proporcionado pelo tirar de uma vida. (Lembrava-se ainda da sua infância e de como gostava de apanhar moscas e com requintes de perversidade dar-lhes golpes de falta de misericórdia até que do mal-afortunado insecto não restasse senão parte do cadáver.) Regressou, horas depois, orgulhoso, com o ingrediente principal do jantar desse dia. Tinha matado o tempo.

Azul metal

Descendo conhecida calçada de Lisboa, a caminho de tasco onde pudesse ver o Benfica, passo por local em obras, escondidas por vedação azul de metal. Tachado na vedação azul de metal, um pequeno letreiro dizia «afixação de publicidade proibida».
Motivado por tão original letreiro, olho toda a extensão da vedação azul de metal, mas, não sem espanto, vejo apenas metal azul. Não vislumbro sequer resquício de cartaz, de póster, de autocolante. Intrigado, penso onde andarão os senhores da Tabaqueira: uma enorme vedação azul de metal para «afixação de publicidade proibida» e eles não a aproveitam para promover os seus mal-afamados produtos?

Arrebatamento

Leio o meu blogue e penso: "Será que se percebe, nestas desengraçadas linhas com que me descoso, quão boa pessoa sou?" Tremo perante o espectro de resposta e, com arrebatamento, silencio em mim cogitações inoportunas.

Desvio o olhar

Aproveito o facto de ser vizinho do Lux para ir ver o Quinteto do Nélson Cascais nas Jazz Sessions das quartas-feiras. Chego já depois de a actuação ter começado. No meio do burburinho provocado por gente muito faladora, dou por mim a ouvir o que me parece ser uma muito bem engendrada versão de everything means nothing to me do Elliot Smith. Por momentos, esqueço que no dia seguinte tenho de acordar mais cedo do que é caracoleanamente possível. Por breves segundos, desvio o olhar da bela morena de viçosos cabelos ondulados que, ao meu lado, conversa alegremente com alguém de que a minha memória não guardou o traço, enquanto com a mão direita segura um L&M azul e com os seios vivazes espalha incontível volúpia. E penso como é bom saber que estes jazzistas sabem ir buscar as coisas boas que se fazem na pop. O Nelson Cascais fá-lo sem pruridos de pretensão e ainda bem.

Tenho-te por uma pessoa

– Não sei se corresponde totalmente à verdade, mas tenho-te por uma pessoa extremamente independente.
– Não sei se sou independente; sei que tenho medo de não ser livre.

Ventrezinho tonificado

Diz-me, calipígia menina de seios túrgidos enquanto passa os dedos fagueiros pelos meus caracóis, que o uso recorrente que faço do vocativo miúda não é elegante nem particularmente apreciado pela comunidade feminina.
Encosto a cabeça no tonificado ventre da calipígia menina, para aproveitar a sombra proporcionada por tão belamente intumescidos peitos, que os meus caracóis roçam eriçados, e returco que o uso que faço do vocativo miúda é, mais do que recorrente, carinhoso. Explico que a notada recorrência, a existir, se aplica apenas a meia-dúzia de interlocutoras pelas quais tenho estima exacerbada. E termino timidamente: – Acaba por ser uma forma, talvez deselegante, de vestir esse tão mal disfarçado amor de casualidade, alguma distância e um certo charme. Entendes miúda?
Percebo no meio sorriso da calipígia menina que, apesar de desamuada, não estava convencida. E acrescento:
– É, também, uma forma de combater as minhas cada vez mais frequentes instâncias de afasia nominal. Usando tão bem amanhado vocativo não terei de me debater com a hesitação decorrente da inexorável necessidade de procurar o nome da pertinente colucutora na minha decrépita memória.

Selecção vocabular

– Já vais?
– Tenho de ir. Encontramo-nos logo e dialogamos, está bem?

Afecto

– Amo-te – disse ela, convencida de que trazia novidade.
– Ainda bem – respondeu ele com um sorriso fingidor de desafectação.

Composição unitária de interesses

– Olá chabala, estás boa?
– Olá miúdo, eu estou. E tu?
– Também. Tenho pensado em ti, miúda.
– E eu tenho pensado em ti, chabalo.
– Curioso, temos, portanto, vontades contrapostas mas perfeitamente harmonizáveis entre si. Podemos estabelecer uma composição unitária de interesses. O que achas?
– Parece-me bem. E em que consistirá essa composição unitária de interesses, miúdo?
– Num contrato que faça de nós uma entidade única, cara linda.
– Um contrato se calhar é muito, mas um acordo não vinculativo que funda as nossas identidades pode ser, miúdo.
– Um acordo não vinculativo será então, coisinha linda do meu coração.

Dispensar

Com frequência impertinente, perguntam-me , pessoas em geral, se lhes posso dispensar um cigarro. Quando lhes respondo que não fumo, reajem com conspícua surpresa, o que, definitivamente, não consigo compreender. Afinal de contas tenho dentes brancos, uso barba mas o bigode não está amarelado, tenho hálito mentolado e a minha pele está longe de parecer envelhecida.

Não perguntes

– Olá miúda, hoje sonhei contigo.
– Sonhaste comigo?! E em que consistia esse sonho?
– Não perguntes. Embaraças-me.
– Vá lá, diz-me o que é que sonhaste.
– Que te dava beijihos na testa.

Meia palavra

– Da-se!
– O que é isso?
– Foda-se!
– Ah. No que toca a palavrões, meia palavra não basta.
– Acho um pensamento positivo.

Brindes assassinos

Temos agora em Portugal uma instituição que zela pela nossa saúde. Fecha cafés, restaurantes e, agora, cantinas em catadupa. Acabou-nos com os tradicionais galheteiros nos restaurantes e quer que no futuro todo o pão neles servido seja embalado por causa das mãos sujas dos clientes.

É uma instituição que quer fazer de nós uns frageizinhos que sucumbirão perante o mais ténue virusinho. Para isso, tem um director científico cuja máxima é "O radicalismo contra o facilitismo, porque este mata". Pelo andar da carruagem, estaremos, daqui a uns tempos, num restaurante esterilizado, depois de um banho esterilizador, a comer, com pinças esterelizadas, alimentos esterelizados.

Entretanto, acabaram-se os brindes do bolo-rei. O director científico da ASAE (é dessa instituição que falo) justifica à Visão a medida: "tantos dentes se devem ter partido e talvez alguém tenha morrido". Um cientificíssimo argumento, de facto.

Política

Posso, esporadicamente por questões de clareza, dizer sobre o que falo, mas nunca, em caso algum, falarei sobre o que digo.

Tudo

It all boils down to one quotable phrase.

Bright Eyes, de novo

Tripas coração

Vou fazer das tripas coração para não mostrar que estou a desistir.

Tradução muito livre de uma canção dos Bright Eyes

God's Away on Business

Senta-se à minha frente no autocarro senhora antiga, com gesto e movimento de olhar denunciadores de ânsia de iniciar conversa. Imediatamente abro a sacola que trago a tiracolo, alcanço o leitor de mp3, ponho os auscultadores e começo a ouvir God's Away on Business, abafando qualquer propósito, bem intencionado que fosse, de entabular tão circunstancial troca de palavras.

Preconceito

Desconfio, com fervor de efebo apaixonado, da cultura futebolística de toda e qualquer pessoa que use a expressão "meter golo" numa conversa sobre o mais belo jogo.

Encanto

Na mesa ao lado, mesmo no cantinho do café da esquina, duas aprazíveis meninas antecipam nostalgias em conversa de adeus.

Peep Show

Sento-me, num café muito frequentado de uma esquina de Coimbra, mesmo ao lado da máquina do tabaco. Em apenas trinta minutos, assisto a um desfile luxurioso de meninas muito bem vestidinhas e muito bem torneadinhas a pôr moedas no orifício da máquina de tabaco construído para o efeito. Concluo que, num café de uma esquina movimentada da primeira década do século XXI, não há melhor lugar para sentar do que aquele que tem vista para a máquina dispensadora de cigarros.

Herói pós-pós-moderno


Ou, o caracol palindrómico, by Invisible-NME.

Tenho pena

Eu, por outro lado, estou-me completamente nas tintas para o murro que o Scolari deu no número 3 sérvio. Parece-me até que foi uma forma de dar espectáculo depois de um jogo muito descolorido. Acho, no entanto, que era a oportunidade perfeita para despedir um péssimo treinador de futebol, que entre outras coisas muito mal feitas, tem a desfaçatez de pôr o Bruno Alves a jogar na selecção.

Pensava, ingénuo, que, neste mundo corroído por puritanismos bacocos, o pontapé no cú ao Scolari ia mesmo acontecer. Para mim seria quase poético que o despedissem por algo que não tem nada a ver com o desempenho da equipa de futebol. Tenho pena que, por uma vez, tenham atirado o politicamente correcto para canto.

Tenho pena também que venham dizer que, antes de o crucificar, nos devemos lembrar de tudo o que o selecionador fez pela selecção, sendo que esse "tudo" traz implícito um conjunto de coisas boas. Coisas boas que eu sinceramente não vejo, nem nunca vi. O Scolari é dos treinadores mais burros, mais teimosos e mais ceguinhos que eu já vi. É um gajo capaz de insistir em fazer a coisa errada vezes sem conta, não sei se sem se aperceber que essa é a coisa errada. No entanto, Portugal ganhou uns joguitos. E os otários que veêm futebol desde o Euro 2004 pensam que ele tem alguma coisa a ver com isso. A verdade é que não tem. E agora que já não há meios campos construídos pelo Mourinho isso nota-se, enfim.

Reitero. Tinha esperança que, cegos perante a incompetência de Scolari, o despedissem por um murro inoportuno. Tenho pena que não o tenham feito.

Porta-luvas

Há um senhor, cujos cabelos brancos cobrem cada vez menos a cada vez mais luzidia escalpe, que costuma estacionar o seu Mercedes Classe E nos recortes construídos para o efeito em frente do prédio onde moro.

Coisa natural, dirá a cara leitora num assomo de irritação, como tu próprios dizes, caracol, os recortes foram construídos para o efeito.

Não se assanhe, a cara leitora. Deleite-se com esta simplíssima prosa e guarde a sua impaciência para momento menos prazenteiro, que eu ainda não acabei. Antes de sair do seu Mercedes Classe E aparcado nos recortes construídos para o efeito, o encanecido senhor põe, no banco do pendura, uma mica com uma folha A4 que diz, em letras maiúsculas, "Neste veículo não existem objectos de valor". Depois sai e fecha a porta, deixando sempre o porta-luvas aberto e dois a três livros no banco de trás.

Esperará agora, a cara leitora, que eu escrevinhe um comentário sobre tão singular comportamento. Pois bem, com pena, não o vou fazer, uma vez que não sei o que achar disto. Fica o relato desapaixonado de um uso que se me apresenta curioso.

Teclado arisco

"O Rui Costa é grande", dizia eu, em post laudatório simples, depois dos ignominiosos grunhidos do Joe Berardo sobre o nosso excelso número dez.

Enfim! Foge-me, por vezes, o teclado para o eufemismo.

O Rui Costa não é grande. O Rui Costa é enorme.

Ténis feminino


©


Por razões boas de se ver, domina, esta deleitosa moça, a rubrica "most popular photos" do sítio oficial so US Open.

Ténis feminino


©

Malgrado o decote parco substituído que foi por expletivas lantejoulas Swarovski apresenta beleza donairosa, o vestido vermelho que envolve o esguio corpo de Sharapova nas noites de Nova Iorque. Pena dissonar do semblante cenhoso que a conspícua siberiana apresenta em court.

Intonso, mas cheirosinho

Não obstante o recendente brilho que tão nutritícios produtos lhe emprestam, percebo que é altura de dar um jeito à barba quando começo a lavá-la com champô e amaciador.

Conluios roazes

Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as páginas dos dois livros, preparado para o dissabor de encontrá-los mutilados, defeituosos, com folhas de menos, comidas pelas ratazanas colaboradoras roazes do galicismo na ruína da boa linguagem quinhentista.
Camilo Castelo Branco, A brasileira de Prazins

Preocupam-se hoje os defensores do bom português (estranho conceito) com a morte anunciada da língua pátria, que atribuem a acção conluiada do sms e do inglês. Tempos houve em que outras eram as fontes das agonias que adivinhavam definhamentos lampeiros da língua de Camões.

Gesto que se desaconselha por completo

– Manuel Cajuda num gesto que se desaconselha por completo – diz o relatador da TVI, quando, durante o jogo Benfica - Guimarães, aparece, na televisão, um grande plano do treinador da equipa minhota a fumar.
Eu pensava, ingénuo, que o relatador de um jogo de futebol deveria ser não mais do que o responsável por dizer o nome dos jogadores. Parece, no entanto, que serem responsáveis por dizer o nome dos jogadores não chega a estes profissionais. Já há muito que nos emprenham os ouvidos como se em vez de telespectadores fôssemos ouvintes. Agora, surge este senhor da TVI na origínalíssima função de pregador de virtudes. Numa situação em que basteva dizer "Manuel Cajuda, treinador do Vitória de Guimarães", preferiu fazer comentários morais assaz desnecessários acerca dos gestos de um dos intervenientes no espectáculo, que indirectamente lhe serve de ganha-pão. Eu acho uma pena.
Como telespectador não me interessa aquilo que o senhor ralatador dos jogos transmitidos pela TVI acha que se aconselha ou desaconselha, por completo ou pela metade. Parece-me que perder a oportunidade para estarem calados é o principal atributo destes senhores relatadores que, em gestos que se desaconselham por inteiro, insistem em abrir a boca para dizer mais do que o nome dos jogadores.
Infelizmente tenho de os ouvir. Condenado que estou a ver os jogos em cafés avulsos, não tenho controlo sobre o comando e o seu precioso botão do volume.

Desaventurada inteligência

"A qualidade do Rui Costa fez a diferença. Os seus passes foram muito bons, bons até demais para os seus colegas. Mostrou ser mais inteligente que eles."

Solbakken, treinador do FC Copenhaga, dizendo coisas certas.

Pequena pausa para satisfazer desígnios de promoção pessoal

– Eh pá, caracol, onde é que tu foste desencantar isso?
– Oh, miúda, desiludes-me. Eu não desencanto, eu encanto.

Caracol perfumado, a encantar desde 1979.

Shades of blue

Com assiduidade e vocabulário enfático, dizem-me, imprudentes meninas de musculaturas diversas, traços fisionómicos discrepantes e idades variadas, que tenho olhar encantatório.
Reajo com afectação a tão bem intencionados panegíricos e vou tirando cada vez menos prazer da necessidade inexorável de usar óculos de sol.

P.S. Repare-se na fineza do trocadilho usado no título em língua estrangeira! Espectáculo!

Pequenos luxos

Sentado em provecta cadeira de braços, com as pernas estiradas num futon e almofada sob os rins, aproveito a luz emanada por poste de iluminação pública visionariamente plantado em frente da ampla janela do meu estúdio austero para, com contumácia, ler as primorosas bagatelas de Camilo Castelo Branco.

Principalmente

Amai, rapazes! E, principalmente, amai moças lindas e graciosas; elas dão remédio
ao mal, aroma ao infecto, trocam a morte pela vida... Amai, rapazes!

Dom Casmurro,
Machado de Assis

Epifania

– Obrigou-o a dizer que a amava.
– Ele disse, mas era verdade.

Good night and good bock

Entretém-se a Super Bock a fazer trocadilhos de gosto cada vez mais duvidoso para promover os seus produtos cervejeiros. O último que vi foi uma cerveja reflectida nuns óculos do sol e a inscrição ray-bock. Parece óbvio que os criativos da cerveja da Unicer precisam de ajuda.

Fazendo jus à minha fama altruísta, vou ajudar os pobres coitados. Vejamos:

Para uma imagem desportiva:
– Um atleta calçado com caricas Super Bock com a inscrição: le bock sportif
– Duas garrafas de cerveja, uma à frente a puxar pela outra e a inscrição: ree-bock
– Gente a jogar futebol com as caricas e a inscrição: futebock (este é bom porque se pode usar para o andebock, o basquetebock, o paintbock, etc.)

Aproveitando o cinema:
– Um fotografia com o Arnold Schwarzenegger, de garrafa na mão, em tom ameaçador a dizer: I'll be bock
– O Stallone a lutar com um cerveja em cada mão e a inscrição : bocky II

Aproveitando o passado telenovelístico nacional:
– Algumas actrizes brasileiras, uma garrafa de Super Bock com uma aureola e a inscrição: bock santeiro
– Mais algumas actrizes brasileiras (um pouco mais velhas), uma imagem de um lábio sedento de cerveja e a inscrição: cabockla

Num registo musical:
– Arranjar cinco gajos imberbes e um pouco andróginos, pô-los a cantar uma baladinha à cerveja e chamar-lhes: bockstreet boys
– Se cinco for de mais, arranjar só um a cantar uma musiquinha adolescente e chamar-lhe: new kid from the bock
– A Britney Spears a cantar e a inscrição: em playbock

Tirando partido da sabedoria popular:
– Pôr uma chabala em trajos sugestivos e com uma Super Bock na mão à frente do coliseu e a inscrição: quem tem bock vai a Roma
– Um empregado a levar uma caixa de cervejas para o frigorífico e a colocá-las lá descuidadamente e a inscrição: a bock de caixa

Fazendo algo de cariz sexual:
– Uma imagem só com o gargal da garrafa e os lábios de uma menina a aproximar-se e a inscrição: abockanha aí
– Uma imagem com uma menina de olhar licencioso e um chabalo a sugerir: faz-me um bock

Para o universo estudantil:
– Uma garrafa cujo rótulo tem várias páginas que nos permitem escrever. Na capa a inscrição: bock de notas

Politizando a cena:
– A Joana Amaral Dias a beber uma Super Bock e a inscrição: bock de esquerda
– Um conjunto de garrafas no lugar dos deputados no parlamento a votarem contra e a inscrição: forças de bockeio

E pronto. Espero ter ajudado de alguma forma. Se precisarem de mais é só dizer. Até porque tenho uma ideia para quando inventarem cerveja com mel. Começa assim:

O bock doce é bom é bom é diz o avô e diz o bebé...

Frases desfeitas

Era uma historinha de fazer chorar as pedras da descalça.

Só tu (tentativa e erro)

Estou todo avariado. E só tu me podes consertar.
Estou todo roto. E só tu me podes remendar.
Estou todo contente. E só tu me podes consolar.

Sondemos o que se passa dentro daquele corpo, e desinchemos as bochechas do estilo.

Se isto não é um início perfeito para um livro, então não sei o que é um início perfeito para um livro:

Aflições sudoríferas

Em um frigidíssimo dia de janeiro de 1847, por volta das nove horas da manhã, o Sr. Hermenegildo Fialho Barrosas, brasileiro grado e dos mais gordos da cidade eterna, estava a suar, na rua das Flores, encostado ao balcão da ourivesaria dos Srs. Mourões. As camarinhas aljofravam a brunida testa de Fialho Barrosas, como se a porosa cabeça deste sujeito filtrasse hidraulicamente o estanque de soro recluso no bojo não vulgar do mesmo.
Era o suor respeitável da mortificação; o esponjar das glândulas pela testa, quando as lágrimas golfam dos seus poços, e não bastam já olhos a estancá-las. Era, enfim, a dor que flameja infernos em janeiro, e tira dum homem adiposo e glacial lavaredas, como o Etna as repuxa por entre as neves do seu espinhaço.
Sondemos o que se passa dentro daquele corpo, e desinchemos as bochechas do estilo.
Hermenegildo Fialho tinha recebido, às oito da manhã, no seu escritório de consignações e descontos na
rua das Congostas, um bilhete da ourivesaria Mourão, convidando-o a entrar naquele estabelecimento, quando pudesse, para negócio urgente.
O substantivo “negócio” abalou-o. O adjectivo “urgente” sacudiu-o.


Camilo Castelo Branco, Os brilhantes do brasileiro

Fora do contexto

Sei que tudo isto pode parecer estranho para ti. Que se calhar me apanhaste em mil e uma contradições. Mas é mais ou menos o que sinto e o que vejo. E não me interessa se faz sentido ou não. Interessa-me que existe. Pelo menos na minha cabeça.

Cool and colected

Fiquei contente com a vitória do Federer. Um campeão tem de ter postura de campeão. E postura de campeão significa serenidade, quase desprezo.
O Nadal quer ser campeão e mostra-o. Mostra-o demais. Corre demais. Gesticula demais. Cansa-me vê-lo jogar.
Um campeão não quer ser campeão. Não mostra que quer ser campeão. É-o simplesmente. Um campeão é campeão porque assim acontece. Porque tem de ser. Porque o destino mandou. Porque nasceu para aquilo.
Principalmente quando o campeão é jogador de ténis, um jogo individual e de elite. E sobretudo quando é em Wimbledon.
Há que manter as aparências.

Valham-nos a Joana, a Rita e a Teresinha

É moda, nestas eleições autárquicas intercalares para a Câmara de Lisboa, os candidatos poluírem os seus cartazes com fotografias suas e da sua equipa. Como se uma só não fosse bastante, somos obrigados a levar com quatro, cinco, dez caras feias por cartaz.
Vá lá, ainda vamos tendo os anúncios da netcabo nas paragens de autocarro. Mas não chega. Tenho saudades dos outdoors da Intimissimi e da beleza seráfica de uma Ana Beatriz Barros vestida de singeleza.

Não é amor, mas não deixa de ser um sentimento

Ouvido de passagem, de menina de metro e meio, menos magra que gorda, para rapaz de gesto efeminado:
– Eu era a verdadeira ex-namorada dele. Ela, de certa forma, também era ex-namorada, mas só de curtes. Foi bué de giro.

Particular

– ... mas gosto de ti em particular, caracol.
– Isso quer dizer que gostas de mim em privado ou que gostas mais de mim do que das outras pessoas?
– Qual é que preferes?

SMS

Preciso de 60 minutos do teu dia: 15 para vires até aqui, 25 para conversarmos e 20 para voltares para onde estás. Podes dar-mos, miúda?

Cúmulo

- Caracol, tu tens a mania da pós-modernidade, definitivamente. O preservativo cúmulo e paradigma da sociedade pós-moderna!! Onde é que tu vais desencantar essas coisas, caracol? Não lembra a ninguém.

- Não achas que é, miúda?

- Não sei. Não estou a ver como. Mas se me explicares...

- Pequerruchinha do meu coração, se concordares que pós-modernidade é basicamente a o conjunto de merdas que aconteceram nos finais do século xx e que se prolongam até agora vais ver que faz um certo sentido. Repara que todo este tempo é marcado pela queda das ideologias, de modelos e pela afirmação daquelas tretas engraçadas do "é proibido proibir" e das revoluções sexistas e sexuais dos anos sessenta. Obviamente que, se não há modelos nem ideologias, deixa de haver fidelidade a modelos e ideologias, e , mais tarde, a fidelidade ao que quer que seja. E o que é que acontece? O desnorte, a confusão, a promiscuidade.

E tu sabes que tudo acaba em sexo. A promiscuidade sexual é fixe, mas traz doenças. E nós, seres pós-modernos que queremos continuar a ser, inventámos o preservativo. Assim, enganamos as doenças e podemos prosseguir.

- Que grande treta, caracol.

- Eh eh! Pois é! Claro que nada disto é verdade, mas serve os propósitos da comunicação. Detestaria não ter nada para te dizer.

- Essa tua pseudo-profundidade é que é pós-moderna, caracol!

- Sabes o que seria realmente pós-moderno, miúda?

- O quê?

- Eu e tu aproveitarmos o teu Smart, tão bem estacionadinho ali na sombra daquelas obras, para sairmos daqui. Irmos até ao teu belo loft e cairmos nos beiços um do outro. Eu rasgar-te esse trapos H&M, tu rasgares-me as costas com essas unhas de gel, cairmos na tua caminha Ikea e vivermos felizes para sempre durante vinte e cinco minutos.

- E o pós-moderno preservativo?

- Está aqui.

10

Respeito profundamente, como sempre fiz, a opinião de todos, sobretudo dos adeptos, que são o verdadeiro coração do Clube, relativamente às minhas qualidades desportivas.

O Benfica sempre se construiu de muitas vontades e muitas opiniões. Cresci aprendendo a respeitar as opções, as diferenças e as opiniões alheias.

No entanto, considero-me magoado pela forma como o meu empenho, dedicação, profissionalismo e amor ao Benfica foram postos em causa. Tenho dado sempre, ao longo da minha vida, demonstrações claras e inequívocas da minha disponibilidade para servir o Benfica.

Recordo que, em 1994, tinha eu 22 anos, o Benfica enfrentava uma situação financeira muito delicada. A minha saída para Itália – a transferência mais cara da época – foi solução para a gravíssima crise do Clube.

Tivessem homens providenciais aparecido, nesses tempos difíceis e conturbados, a ajudar o Benfica, e talvez a minha história profissional fosse diferente. Talvez nunca tivesse necessidade de ter deixado o Clube.

Quero que fique bem claro que nada, rigorosamente nada, me demoverá de continuar a a sentir, como sempre senti, orgulho, paixão e honra por defender a camisola e os valores do Sport Lisboa e Benfica.

Aceito o recente pedido de desculpas tornado público pelo Sr. José Manuel Berardo.

Mas, se é verdade que no mercado dos negócios, que o Sr. José Manuel Berardo parece conhecer tão bem, o meu valor futebolístico pode ter um preço, a minha dignidade não tem!

Rui Manuel Costa

Para mim, o Rui Costa é como a Michelle Pfeiffer: nunca será velho de mais



















"Não corre." "É lento." Dizem, com uma falta de imaginação e de inteligência que me enfada.

O Rui Costa é jogador da bola. Não é um velocista. Não é um corredor de fundo nem de meio-fundo. É jogador da bola. Um jogador que "passeia classe". E quem passeia, sabe apreciar o tempo e dar-lhe valor. Não corre sem necessidade. Para se passear classe não é preciso estar sempre a correr, é preciso ter classe.

O Rui Costa é grande.

The Sopranos

Parece que houve muito quem não tivesse gostado do final dos Sopranos. Pois eu acho que foi um bom final. Um muito bom final. E com dois pormenores que me fizeram espevitar as papilas gustativas.

O primeiro acontece quando na visita ao enfermo Sil, Tony se "distrai" a ver uma cena do Little Miss Sunshine: "I won, I won, I won".

O segundo é o fim: The Sopranos acaba com uma música chamada Don't Stop Believin'. As duas últimas palavras desta superlativa série de televisão são precisamente "Don't stop". Eu não diria melhor

Gostar de homens*


















*
©

Actos vigorosos de intimidade

Ele, cabelo desalinhado, barba de oito dias, olha para ela, surpreso.
Ela, cabelo preto, comprido e liso, finge não reparar e tira o pão da prateleira. Quente.
Ele, meio sorriso, dentes brancos, olha para ela, insinuante.
Ela, calças de ganga coçadas, botas castanhas tipo sabrina, finge não notar com um sorrisinho envergonhado e alcança a alface. Viçosa.
Ele, mão esquerda no bolso, casaco de cabedal castanho, olha para ela, convicto.
Ela, nariz fino, olhos redondos curiosos, finge não ver e, com sorriso discreto e faces quentinhas, coloca a manteiga no cesto. Magra.
Ele, carteira na mão esquerda, cartão multibanco na direita, olha para ela, atento.
Ela, saco do Pingo Doce na mão esquerda, puxador da porta na mão direita, finge não ver e sai com os olhos no chão. Cintilante.
Ele, saco do Pingo Doce na mão esquerda, óculos do sol na mão direita, sai e olha para o horizonte, apressado.

Um homem que sabe da poda

"Já delineou a próxima época?
Em termos de organização, sim.
Falta arranjar as marionetas."

Manuel Cajuda, Público, 22 de Maio de 2007

Cinco letras, o regresso

É que, ao enviarem uma sms, basta nos vossos telemóveis, que agora trazem sempre escrita inteligente, digitarem 23456 e terão um beijo com todas as letras. É difícil?

Querem enviar mais do que um beijo? Pois bem, pressionem 234567.

Haverá coisa mais simples e linear?

Languidez no olhar

- Pois, tu gostas é de contrariar, não é?
- Não.

A dentadinha no lóbulo da orelha

- Tiveste saudades minhas?
- Tenho saudades tuas até quando vais ali à casa de banho.

Suor descaindo nas coxas

Deu-lhe um beijo terno. Fora um beijo apaixonado, não seria um beijo mentiroso.

Sol escorrendo nas espaldas

-Só os bonitos podem ser felizes, diz-me graciosa menina com convicção.
Discordo, para o bem da discussão.

Paz

Invade-me a inusitada paz de quem sabe que no próximo domingo o Benfica vai ser campeão.

Incompatibilidades

Tem mais letras o espaço da chatinha Word Verification para cada post do que os próprios posts que escrevo.

FAQ

− Caracol, essas coisas que escreves no blogue, essas conversas, aconteceram mesmo ou são inventadas?
− Chabala, se tudo fosse real não teria piada, se tudo fosse inventado não faria sentido.

Não são antónimos, pois não?

Estar contigo.
e
Estar sem ti.

Por exemplo, na frase “É sempre melhor estar contigo do que estar sem ti.”.
Pensem nisso. Não quero outra coisa que não seja lançar a dúvida nas vossas taxonomizadas cabecinhas.

Correrias...

Passou por mim moto veloz
deixando atrás de si um rasto bruto
de ruído, indiferença, ar inquinado...
Olhei o rapaz que nela ia:
pareceu-me alheio ao mais;
concentrado na sua própria sombra
que lhe fugia...
Desejei que a tivesse
ali
logo alcançado!...

Rui Martins dos Santos

Até amanhã

Cafezinho crepuscular. Jantarinho noite fora. Ele acompanha-a a casa.
− És muito introvertido − diz ela.
Sorriso.

01:08:14

Já não existe na Terra, mas ele persiste em que lugar? Há realmente um lugar próprio para os santos. Deus existe. O universo foi criado por ele e para que serve o universo? Se os homens... se a humanidade desaparecesse, o universo seria inútil. Ou será que ele tem em si próprio uma função sem a existência do homem. Nós... nós queremos imitar Deus e por isso há artistas. Os artistas querem recriar o mundo como se fossem pequenos deuses... e fazem uma série.... um constante repensar sobre a história, sobre a vida, sobre as coisas que se vão passando no mundo. Que a gente crê que se passaram, mas porque acreditamos... sim porque afinal acreditamos na memória. Porque tudo passou... e quem nos garante que isso que imaginamos que passou se passou realmente? A quem devemos perguntar? Este mundo... esta suposição então é uma ilusão. A única coisa verdadeira é a memória, mas a memória é uma invenção. No fundo, a memória... quer dizer no cinema, no cinema a câmara pode fixar o momento, mas esse momento já passou, no fundo o que ele traça é um fantasma desse momento. E já não temos a certeza se esse momento existiu fora da película... ou a película é uma garantia da existência desse momento. Não sei, ou disso sei cada vez menos. Vivemos, afinal, numa dúvida permanente. No entanto vivemos com os pés na terra, comemos, gozamos a vida...

Manoel de Oliveira em Viagem a Lisboa de Wim Wenders

As Holmienses

Em 6 dias apaixonei-me 123 vezes.

Untitled



















Sam Francis, 1968

Ela não

Ele disse-lhe que ela era a única pessoa por quem ele trocaria a solidão naquele momento.
Ela não apreciou.

Variar

Out of reach!!!!! é o cúmulo do narcisismo, caracol.
Eu ia pôr I've got this girl beside me but she's out of reach dos doors tás a ver?, mas decidi ficar com o fim.
Pois, e para variar enganar toda a gente que .

É vida

– Caracolinho, acreditas na vida após a morte?
Não, mas acredito na morte após a vida.

Ouvir muito

– Prefiro, por exemplo, Prince Billy
Sinceramente ainda não me deu para ouvir muito. Chateia-me. Mas é uma questão de me sentar para ouvir.
ouves sentada?
Forma de expressão. Não sejas tão literal, caracol. És mais interessante quando não o és.

Vincos

Também passas os boxers, caracol?
passo o estritamente necessário.
Precisamente, nem os turcos. Há malta que passa os turcos... acho impressionante.
– O que é os turcos?
– As toalhas de banho.
– Ah, era o que faltava. Eu conheço quem passe os lençóis.
– Lençóis justifica-se.
– Ah, tu também passas.
– Eheheheheheh, não gosto de vincos nos lençóis.
Eu compreendo.
Mas turcos... é de morte.
– Há quem não goste de vincos nas toalhas.
Aquilo não faz vincos, é que está!
– Ah.

Abstensim

Eu, caracol perfumado, 412 posts, blogger desde 11 de Abril de 2004, se for votar no referendo sobre a interrupção voluntária da prenhez, voto sim.

Lisboa, 21 de Janeiro de 2007

Um teste que acerta, finalmente

You are .swf     You are flashy, but lack substance.  You like playing, but often you are annoying. Grow up.
Which File Extension are You?

Melhor

- Gostava de saber o que sentes, caracol. Melhor, gostava de saber o que pensas, o que escondes por detrás desse sorriso, porque às vezes duvido que sintas.
- Sinto muito, chabala.

Maturidade

Tenho 27 anos. Comprei a minha primeira caixa de ferramentas. Sou um homem.

Malformação

Acho que devíamos abortar o referendo sobre o aborto e aprovar uma lei mais ambiciosa no Parlamento. Ainda não passaram dez semanas.

Metafísica bastante

Dizem-me:
- Tens escrito pouco, caracol... e poucas vezes.
A verdade é que escrevo como penso: pouco, de facto.

Gente grande

Ela: És muito puto, miúdo.
Ele: Mas gosto de ti como gente grande.

CV

Não gosto de escrever currículos. Nada do que fiz ou venha a fazer merece ser escrito ou notado.

Inocuidades

Caracol sossegado no café, a preocupar-se com o seu próprio negócio. Aproxima-se uma pessoa com ar goticista, vinda de uma mesa pejada de pessoas com ar goticista, pega na mochila do caracol e vira-a ao contrário.
- Não estamos para aturar estas coisas, diz apontando para o símbolo anarquista estampado na mochila.
O caracol sorriu. Não disse nada. Deixou ficar a mochila com o símbolo virado para si. Os únicos símbolos que lhe interesam são o do Benfica e das marcas de roupa que usa. Todos os outros são expletivos.

Tan lines

- Não tens vergonha de estar a fazer topless no meio desta gente toda?
- Não, nem por isso. Achas que tenho razões para ter vergonha?
- Não. Essas mamas ficam-te bem.

Às vezes

- Sentes-te atraído por mim, caracol?
- Às vezes.
- Obrigada.

Razão



Dumb and lazy

Jerry: So you prefer dumb and lazy to religious?
Elaine: Dumb and lazy, I understand.

Seinfeld, The Burning

A naifa

Vão aqui. Ouçam as canções. Do primeiro disco. E do segundo. Comprem o disco. Saquem da net. Mas ouçam. É muito bom.

Physical Graffiti

"Ideally a custard pie should be light and delicate, but still have good body."

Ir(r)a

No Chiado, a caixa multibanco não lhe permite a opção que procurava. No auge da sua ira, ele solta a sua sonora expressão de raiva:

- Que chatice, pá!

But

But when I tell him he hates flatterers,
He says he does, being then most flattered.


Shakespeare

Profundezas da vida

Às vezes o caracol pensa que tem mel. Outras vezes não.

The Sopranos

Carlo "Tommy says the guys can track somebody from the corn in their shit."

Tony "I saw them do that on C.S.I."

The Sopranos, Luxury Lounge

"A selecção de todos nós"

Aparte a desnecessária, grosseira e até insultuosa abrangência da expressão, penso com constância por que nunca dizem "a selecção de nós todos".

... livros para amar

Fui à feira do livro. Comprei um Feast no stande da Olá.

Locais para tudo

À saída de uma casa de banho pública (a dos Armazéns do Chiado), um casal beija-se com língua e fogacidade. À saída de uma casa de banho pública, eu acho estranho.

A obnubilação do tempo

- Sim, sou. Mas isso foi há tanto tempo. Como é que tu ainda te lembras de mim?
- Miúda, és linda. És bonita de mais. E eu sou muito sensível a excessos de beleza.

Praia outra vez, finalmente

"The sun was hot. The sky was blue. The beach was sandy. The cat sat on the mat. The girl's nipples were pert. My money was running out."

Nirpal Singh Dhaliwal, "Tourism"

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
6

- Quem é que te anda a achar um sádico?
- É isso que eu estou a tentar saber.
- Andas com amizades virtuais?
- Com amizades virtuais?!
- Se não sabes quem te acha sádico pensei que te tinham chamado na net isso...
- Nã, eu prefiro as amizades reais.
- Ainda bem, good for U!
- A net não serve para amizades, pá!
- Isso não sei. A minha net é tão lenta que não dá para perceber.
- Pois, o progresso ainda não chegou ao fim do mundo. Contingências…
- Contingências de se ser classe média baixa aburguesado e conformista num país 3º mundista.
- Os outros não digo, mas só és aburguesado e conformista porque queres.
- Não somos todos? Em sério exame de consciência e sem nada dessas patuscadas de o bom senso estar sobrevalorizado? Soa bem mas é só conversa de engate.
- É a única conversa que interessa. Se quiseres fazer um exame sério à consciência, verás isso.
- Não consigo ser tão obcecado com sexo quanto tudo isso. Dei cabo da cabeça a ler calhamaços self-righteous e fiquei com um bichinho.
- Ah, também tens uma noção abrangente de sexo, portanto.
- Hã?! Define noção abrangente de sexo.
- Se começa na conversa de engate...
- Nunca neguei a existência de processos, nem inventei as convenções. Não me ligues, eu perco demasiado do meu tempo a pensar.
- Mas olha que as convenções não devem ser seguidas só por existirem. Antes, devem ser questionadas. Mas não sei a que propósito vem isso.
- Diz quem as não siga sem sofrer consequências. Eu já tentei.
- As consequências existem sempre. Sofrê-las já implica disponibilidade.
- Não estás a fazer sentido, pegas na minha afirmação e reforças o meu argumento. Pensei que estavas a tentar contra-argumentar.
- Pensas demasiado, de facto. Não, só estou a tentar perceber.
- As consequências fazem parte da ritualistica da convenção, certo? Concordamos até aí
qual é o contra-argumento? Esta coisa da dialéctica é chata como o caraças.
- Hum, não quero contra-argumentar. Só me parece é que a não obediência à convenção traz consequências, mas a obediência também. A consequência vem depois do acto. Independentemente da convenção
- Tens toda a razão, é uma pescadinha de rabo na boca.
- Ainda bem que concordas.
- Todas as convenções o são. É assim que se reforçam. Senão seriam actos de vontade individual e não convenções.
- O que não quer dizer que a vontade individual tenha de ir contra as convenções.
- Claro, isso é um a priori. Olha, se precisares de votos nessa tua campanha para ser declarado sádico não contes comigo: falta-te a crueldade inconsequente que vem associada.
- Achas?
- Acho.
- É porque não és gaja.
- Achas que elas sabem o signi.... espera aí em quem é que andaste a dar tau-tau?
- Isso agora…
- Se só elas te podem achar sádico...
- Toda a gente me pode achar sádico. Só elas é que têm razões para isso.

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
5

What you see is not, i repeat, is not what you get.

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
4

Gosto muito de ler o meu blogue. É muito bom.

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
3

- Olha, pra mim o Relaxin' ainda é uma das melhoras coisinhas que o Miles Davis fez.
- Oh caracol! Blasfémia. Como é que podes dizer isso. Fizeram esse disco numa tarde, juntamente com outros. Não podes compará-lo com outros que ele fez e que são muito mais importantes.
- Não posso porquê? Conheces história, mas já ouviste a música. Aquilo é bom, pá. E não interessa se foi feito numa tarde, num dia, num mês ou num ano. Até podia ter sido feito fora do tempo. Não é por isso que é melhor ou pior que os outros. O que importa é o que se ouve. E isso é bom. Muito bom. Eu gosto, pelo menos.

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
2

Ele, meio a sério:
- Amo-te.
Ela, meio a brincar:
- Ganha juízo, caracol.

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
1

Tu disseste: Quero saborear o infinito
Eu
disse: A frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis
Tu disseste: Sentir a aragem que balança os dependurados
Eu disse: É o medo que nos vem acariciar
Tu disseste: Eu também tive medo. muito medo; recusava-me a abrir a janela, a transpor o limiar da porta
Eu disse: Acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala
Tu disseste: Um dia fiquei sem nada. Um mundo inteiro por descobrir
Eu disse: O que é que isso interessa?
Tu disseste: Nada...
Tu disseste: Agora procuro o desígnio da vida; às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon; escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo.
Depois
queimo tudo e prossigo a minha busca.
Eu disse: Eu não faço nada. Fico horas a olhar para uma mancha na parede
Tu disseste: E nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?
Eu disse: Não. A mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada
Tu disseste: E no entanto a mancha alastra e toma conta de ti, liberta-te do corpo. Tu é que não vês
Eu disse: O que é que isso interessa?Tu disseste: Nada...

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
0

Depois de uma sonora e luminosa sequência de silêncios visuais que durou tempo imenso neste blogue, o caracol vai começar uma nova série de coisas. Uma série a sério. Uma série que vai começar no número 0 e prosseguirá no 1, 2 e por aí adiante numa fúria postativa que durará até uma dia (amanhã) se cansar. A esta série nova, e importante, uma vez que é a primeira série a sério deste blogue, vai o caracol chamar “Mas o que é que isso interessa? Nada”. Insere-se, portanto na fase neo-semi-niilista do blogue caracoleano, funcionando, ao mesmo tempo, como elemento de catarse perfumada perante o fim de coisas muitas. Coisas muitas como o inverno e a leveza da alma.
O nome da série é quase integralmente copiado de uma canção dos Mão Morta. E é-o porque a canção é mesmo boa e porque se chama “Tu disseste”.
Não há nada mais importante do que o que tu disseste.

Escrita inteligente

Enlevado em memórias de muito deleitoso corpinho, envio, a menina de gesto suave, uma mensagem a dizer que gostava de a ver mais vezes. O ecrã do telemóvel, na sua saudável ignorância, regista antes "gostava de te ter mais vezes".

Minha linda

- És o único a achar isso, caracol.
- E olha que não é por isso que deixo de ter razão, minha linda.

Far from the madding crowd*

Chego a casa. Não tenho televisão (por opção). Não tenho internet (estou è espera). Não tenho nenhuma rádio sintonizada (por preguiça). E mesmo assim existo.

*Thomas Hardy

Dupla negação

A realidade é a melhor coisa do mundo quando não oiço senão o teu respirar.

Dia

- Queres choco-aros, M.?
- Não estou com défice de chocolate, mas pode ser.

Citemeter

As citações não se medem ao palmos.

"Ter leite não é ser leite"

Diziam, jorrantes comentadores à boca escancarada sobre as defuntas eleições presidenciais, que Cavaco não era um candidato de direita. E davam exemplos de algum esquerdear cavaquista. Eu pergunto, já imaginou o que seria se só desse 7% do carinho aos seus filhos?

Não botei o boletim de voto na urna

Não votei no Cavaco Silva.
Não votei no Manuel Alegre.
Não votei no Mário Soares.
Não votei no Jerónimo de Sousa.
Não votei no Francisco Louçã.
Não votei no Garcia Pereira.
Não votei em branco.
Não votei nulo.
Não votei nas eleições presidenciais.

É preciso dizer

E dizer claramente dito, que o Quim continua a ser o melhor guarda-redes do Benfica.

Flores Partidas














A tristeza suave da linda e singelíssima Sun Green que apaixona um plácido Don Johnston e arrebata infalivelmente o caracol. E é por bocadinhos de filme como este que o caracol vai, de vez em quando, ao cinema.

Proselitismos

Num artigo publicado nojornal Público da passada sexta-feira, Bagão Félix revelava o seu descontentamento pela utilização do hino nacional num anúncio de publicidade. Dizia a certa altura:

"o nosso hino serve agora de guarnição sonora a operações publicitárias. Neste caso concreto, de telecomunicações, amanhã por que não de detergentes, pastilhas elásticas ou preservativos por uma outra entidade ou mesmo por uma multicional?"

O problema é que com estes exemplos - que eu cheguei a pensar poderem ser uma metáfora da sua genuina preocupação pelo desbotamento e pela descartabilidade dos símbolos da pátria, que ele acha que os portugueses não se cansam de foder sem que nada os castigue - Bagão Félix não fez mais do que revelar e toscamente tentar impingir aos leitores uma sua muito estranha escala de valores. E não havia necessidade.

Parece-me bem

"I got busted so I used my one phone call to dedicate a song to you on the radio."

Jens Lekman

Não achar piada é outra coisa

Achar piada não é achar bem. Achar piada não é achar mal. Achar piada é achar piada.

Pouquidade

- Tenho de te dizer uma coisa, caracol, tu não és equilibrado.
- Sim, eu sei. Mas sou perfumado.
- Isso é verdade.Mas perfumado não chega, caracol.

Mas, na verdade,

Gosto de pessoas condescendentes comigo. Fazem-me sentir querido.

Natal

Bacalhau.
Formigos.
Aletria.

De resto, uma tremenda chatice.

Vanishing point

Nude Rider: Is there something I can do for you?

Kowalski: Well, like what?

Nude Rider: Like anything you want.

Kowalski: No, I can't think of anything.

Nude Rider: You don't fancy me?

Kowalski: Oh, yeah, yeah, very much.

Nude Rider: Then why don't we have some fun?

Kowalski: Thanks. Thanks just the same.

Nude Rider: That's ok. Isn't there something you'd like?

Kowalski: Yeah. Yeah, how about a smoke?

Nude Rider: Oh, ok, I'll roll you one.

Kowalski: No no no no. No, a straight one. Yeah.

Nude Rider: Allright.

[ Nude Rider goes into trailer, returns with smokes and a poster of articles
about Kowalski when he was a policeman. ]

Nude Rider: Here, keep the pack.

Kowalski: Thanks.

Nude Rider: You know you haven't changed much.

Kowalski: Hmmm?

Nude Rider: I said you haven't changed much.

Kowalski: Haven't I?

Nude Rider: Here.

Kowalski: (looking at poster) That was a long time ago.

Nude Rider: I know. I pasted it up when it first came out. When I cut it
out, I...

Vanishing Point

Esperança

– Os caracóis são hermafroditas.
– Os meus não.
– Muito bem, folgo em saber que há esperança para uma reprodução dos teus cabelos...

Paradise Lost

"Perceaving where she sat retir'd in sight,
With lowliness Majestic from her seat,
And Grace that won who saw to wish her stay"

John Milton

Paradise in Lost

Apesar de o tempo se esvair

Cada dia acima do chão é um bom dia.

Amor

Ele olhou longos segundos para ela, linda, e, sem nada para lhe dizer, deu-lhe três palmadinhas na coxa, orgulhoso de tão bem feitinha namorada.
Ela, atenta a ver o Benfica, sorriu e fez-lhe uma festinha na cabeça, indulgente e carinhosa.

Sorteio do Mundial de Futebol

Não consigo perceber qual é a graça da Heidi Klum. Conheço pelo menos umas dezassete meninas alemãs muito mais interessantes e muito mais merecedoras de serem as estrelas arquétipo da beleza germânica. E não tenho viajado muito...

Quem joga cada vez melhor é o Petit

Dizer que o Beto é bom jogador só porque, por acaso, marcou um golo a meias ao Manchester United será como dizer que um guarda-redes que sofre uma média de três frangos por jogo é bom porque um dia fez uma grande defesa.

Cruzes non credo

Nunca vi um crucifixo nas escolas que frequentei. Mas, obviamente, os crucifixos não fazem parte da escola. Portugal é um país laico, as escolas são lugares públicos, de todos e para todos, e a mera existência de símbolos religiosos em tais lugares é desagradável pelo que podem representar de constrangimento, e até opressão, em relação a pessoas que não partilham das mesmas crenças. Tirar os crucifixos das escolas é uma atitude boa. Mantê-los não é inocente nem inofensivo. E o "sempre foi assim" não é razão para nada.

Na Itália um Juiz (Luigi Tosti, de 57 anos) decidiu recusar "presidir a uma audiência numa sala de tribunal em que estava afixado um crucifixo". Será demais esta atitude? Ou será antes provocada por anos e anos de intolerância, consciente ou inconsciente (não sei qual é a pior), por parte da maioria?

Foi condenado a sete meses de prisão por "omissão de cumprimento de funções" (pena suspensa). À saída disse:

"Espero que a sentença que me condenou - contra a qual recorrerei - seja o início de um incêndio que acorde as consciências dos súbditos italianos que não tencionem continuar a tolerar a marginalização e a discriminação que parte dos católicos* impõe aos ateus, aos agnósticos, aos judeus, aos islâmicos, aos budistas, aos evangélicos, às testemunhas de Jeová e aos de todas as cores que se identificam com religiões diversas da deles." Mais no DN.

A jornalista do DN disse que estas eram palavras inflamadas. Talvez sejam. Mas uma inflamação é quase sempre provocada. Não será a atitude católica um infalível, constante e sempre presente comburente?

* Não foi por acaso que realcei "parte dos católicos" nas palavras do Juiz. Ele tem o cuidado de não generalizar. E faz bem. Eu, claro, não teria o mesmo cuidado.

Diálogos exteriores:
Mais vezes

– O dia correu bem, miúda.
– O dia correu bem? Então?
– O Benfica ganhou. Com uma sorte do caraças, mas ganhou.
– És fácil de contentar, caracol. Pena que eles não te façam a vontade mais vezes.

25 anos depois da morte do John Lennon

"Paul McCartney and Ringo Starr are the only Beatles in the world."*

*Devendra Banhart

Diálogos exteriores:
Oito do doze

– Olha lá, que dia é hoje?
– Sei lá eu, caracol. É relevante?
– Só queria saber por que é que é feriado, mas se não sabes tudo bem.
– Ah! Imaculada Conceição ou o caraças.
– Certo. Imaculada é porque também era virgem, não é?
– São todas as mesmas. Ou melhor, a mesma.
– Ah, tem múltipla personalidade, portanto.
– Chamemos-lhes alter-egos.

Pendular

A CP tem demasiados trabalhadores com salários de chefia que, na prática, não desempenham essas funções, diz o Tribunal de Contas.

O caracol quando quer ir para Braga e decide aproveitar a comodidade de um comboio tem de pagar €28,5 pelo bilhete de um alfa pendular, uma vez que não há as alternativas mais baratas inter-cidades e inter-regional (que havia há uns anos).

€28,5 que, apesar de serem aquilo a que se convencionou chamar roubo, não chegam para pagar a tantos chefes e, assim, evitar a falência técnica da CP.

Não fosse o facto de estes €28,5 comtemplarem já o desconto dado ao utilizador CP por este ter de levar com umas xaropadas sem pés nem cabeça (que nunca deveriam ter sido resgatadas do esquecimento e da indiferença de que merecidamente usufruiam) da RTP a que chamam Memória bem como por ter apenas a RCP e a RFM como estações de rádio disponíveis nos tão gentilmente cedidos auriculares , e certamente a CP teria uma situação mais estável.

Antífrase

Se ganhar as eleições de Março próximo, Sharon quer que Peres seja o ministro dos Assuntos da Paz.

The new revolution
(ou
We are the lefties, we should be the goodies)

Parece que o voto em Cavaco Silva se está a tornar num voto rebelde. Num voto de afirmação contra o poder instituido e a opressão. Quem pensa que tem dois dedos de testa, pensa também que é politicamente incorrecto votar Cavaco e, por isso, diz-se cavaquista. Com convicção. Tem piada, o voto adolescente no Cavaco.

Ganhem juizo, pá.

Tivera eu uma táctica...

A minha estratégia?! Sobrestimas-me, miúda.

Mas será que o Koeman não vê que o Beto não vale um c******

O Beto foi titular cinco vezes esta época - contra a Académica (0-0), o Gil-Vicente (0-2), o Manchester United (1-2), o Rio-Ave (2-2) e o Braga (2-3). Ou seja, o Benfica não ganhou nenhum jogo com o Beto a titular. Jogar com o Beto é como jogar com dez. Pior, é como jogar contra doze. Mas não é preciso ir tão longe para perceber que o gajo não pode ser jogador do Benfica, basta ver uns cinco muitos de qualquer jogo em que ele esteja presente. Não sabe receber uma bola; não acerta um passe; não corre nem faz cobertura nenhuma a ninguém (ontem o Jorge Luiz estava com certeza todo contente, pois passava por ele como se lá não estivesse ninguém, o que acabou por dar origem a três golos do Braga); sempre que vai lá para a frente, e por melhor que seja a posição para o remate, acaba sempre por executar o famoso pontapé na atmosfera (ontem houve um bom exemplo, em Manchester houve dois) e, na cobertura em bolas paradas toda a gente salta mais alto do que ele.

No ano passado, o Trapatoni levou até ao Natal para perceber que o Paulo Almeida não podia ser titular do Benfica. Espero que o Koeman perceba que o Beto não pode ser titular do Benfica um mesito antes da raposa velha.

****** aralho

Directo

Cheios de boa vontade, os jornalistas da TVI lá foram para a Braga recolher opiniões sobre o Braga - Benfica aos velhotes que diariamente vegetam em frente ao café Vianna. E fizeram-no em directo, os papalvos.

Perguntavam - O que espera do jogo desta tarde, e, crédulos, estariam com certeza à espera de uma resposta do tipo - Espero que seja um bom jogo de futebol entre duas grandes equipas, que ganhe o melhor, e, já agora, que o melhor seja o Braga, tão característica das gentes do Baixo-Douro, que tiram indisfarçável prazer da confusão que intencionalmente fazem entre boa educação e hipocrisia. Mas, - Que o Braga ganhe e mais nada. E que dê uma dúzia a esses begueiros do sul. - foi a resposta mais softcore que conseguiram tão cândidos colectores de opinião. Nada, claro, de que o caracol não estivesse à espera. Mas, também, o caracol é de Braga, conhece a idiossincrática polidez dos velhotes que param à frente do café Vianna e não é um inocente jornalista de Queluz de Baixo.

E contrapor

- Ai é? Queres discutir comigo? Fixe, fixe. Sou gajo para discordar de tudo o que disseres.

"perdeu a vida ao serviço do país, da paz e liberdade"

Morreu ao serviço do país, da paz e da liberdade. Espectáculo. Suponhamos que tamanha torpeza é verdade, e agora? Vai poder usufruir do país, da paz e da liberdade? Adiantou-lhe alguma coisa morrer ao serviço do país, da paz e da liberdade?

Eu espero morrer quando estiver ao serviço de nada, quando estiver ao serviço de mim, ou quando não estiver ao serviço. Não existe o país, a paz, a liberdade, o mundo se eu não existir. Pelo menos para mim.

No Público

Deve ser a primeira vez, mas hoje, 18 de Novembro de 2005, concordo o Vasco Pulido Valente.

Bora mor vamos à Baixa

Vamos, vamos, vamos à baixa.

Tradução livre de uma canção do Neil Young

E o gesto lhano

Os óculos escuros poisados sobre o penteado último modelo.
As mãos brancas, com unhas nutridas por incolor verniz.
Um papel às voltas por entre os dedos.

Homem de palavra com falta de retórica

Cavaco Silva diz que não vai usar retórica. Que não gosta de retórica. Que não vai em retóricas. Que a retórica é má. Mas, quando a Constança pergunta com insistência o que poderia o iminente economista fazer se fosse eleito presidente, logo responde, o professor, que o mais alto magistrado dispõe de uma instrumento muito importante: a palavra.

Ah, a retórica, a retórica. Este homem de palavra não mente, de facto.

Cigarette girl

 
















Josie Maran, a nova menina do NFS.

Mudança de letra

A outra era grande e desengonçada. E eu gosto delas pequeninhas, torneadinhas e elegantes.

Tirando a parte do queijo, parece-me bem


Não Comerei da Alface a Verde Pétala


Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz

E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

Vinicius de Moraes

I won't dance, how could I?

 
I won't dance, don't ask me
I won't dance, don't ask me
I won't dance Madame with you
My heart won't let my feet do things that they should do

You know what, you're lovely you know what, you're so lovely
And you know what you do to me
I'm like an ocean wave that's bumped on the shore
I feel so absolutely stumped on the floor

When you dance, you're charming and you're gentle
Specially when you do the Continental
But this feeling isn't purely mental
For heaven rest us, I'm not asbestos
And that's why I won't dance, why should I?

I won't dance, how could I?
I won't dance, merçi beaucoup

I know that music lead the way to romance
So if I hold you in arms I won't dance

I won't dance, don't ask me
I won't dance, don't ask me
I won't dance, Madame with you
My heart won't let me feet do things that they want to do

You know what, you're so lovely, ring a ding-ding, you're lovely
And you know what you do to me
I'm like an ocean wave that's bumped on the shore
I feel so absolutely stumped on the floor

When you dance, you're charming and you're gentle
Specially when you do the Continental
But this feeling isn't purely mental
For heaven rest us, I'm not asbestos
And that's why I won't dance, I won't dance

I won't dance, merçi beaucoup
I know that music leads the way to romance

So if I hold you in arms I won't dance,
Dance*


* In Ella and Louis again

I won't dance

Hoje quando acordei liguei a televisão. Nesse preciso momento, estava o José Rodrigues dos Santos a dizer que o importante num romance era a história, não as palavras. Que as palavras eram apenas um meio para contar a história. Que há autores experimentalistas que usam a palavra como um fim em si mesmo, mas que não era o seu caso.

Obviamente é difícil acordar com tamanha barbaridade. Obviamente é difícil concordar com tamanha barbaridade. Estava o chabalo a promover um romance que havia escrito, ao que me pareceu para aproveitar a onda de entusiasmo com códigos tipo Dan Brown que por aí grassam, e sai-se com estas palavras.

Como é possível? Haverá pior promoção para um livro?

Em primeiro lugar, na maior parte dos casos, o meio (ou os meios) é muito mais importante do que o fim (ou os fins).
Depois, eu sei que o rapaz é jornalista e que esta visão das coisas se calhar funciona no jornalismo e talvez seja assim quando se escreve um peça jornalística. Mas quando se escreve um romance as palavras não podem ser só um meio. As palavras são tudo. Ainda por cima vir dizer que apenas para escritores experimentalistas as palavras não passam de um meio para contar uma história. Experimentalistas... por favor! Haja decência. Leia-se os clássicos. Leia-se Machado de Assis, que é mais clássico que os clássicos:

Natividade ainda tinha as formas do tempo anterior à concepção, a mesma flexibilidade, a mesma graça miúda e viva. Conservava o donaire dos trinta. A costureira punha em relevo todos os pensamentos restantes da figura, e ainda lhe emprestava alguns do seu bolsinho. A cintura teimava em não querer engrossar, e os quadris e o colo eram do mesmo estofador antigo.
Há dessas regiões em que o verão se confunde com o outono, como se dá na nossa terra, onde as duas estações só diferem pela temperatura. Nela nem pela temperatura. Maio tinha o calor de janeiro. Ela, aos quarenta anos, era a mesma senhora verde, com a mesmissíma alma azul.*


Segundo a teoria do José Rodrigues, e se apenas a história contasse - não as palavras -, bastava no texto acima dizer que a Natividade era uma cota enxuta em vez de estar para aqui a dizer estas palavras todas, tão bem escolhidinhas e combinadinhas. Mas não, isso não basta. É preciso brincar com as palavras, dar-lhes amor e tratá-las com carinho. Da história, um gajo esquece-se. Do facto de a história estar bem escrita, de frases bonitas, um gajo lembra-se. Por favor, por favor, por favor, cuidado com o que dizem na televisão para programas de adolescentes impressionáveis e inocentes. Não os desgracem. É que depois eles vão ler a Margarida Rebelo Pinto, que num romance escreve quinhentas e cinquenta e sete frases feitas, e oitocentos e trinta e seis lugares comuns, porque acreditam que num romance as palavras não são o mais importante e que é mormal ter trezentos e cinquenta e seis lugares comuns e duzentas e dezassete frases feitas numa mesma página.

Vá lá, não há mal que sempre dure, e o Zé Rodrigues calou-se depressa para dar lugar à bela Rita Pereira (a melhor coisinha que saiu dos Morangos com açucar) que vinha falar das músicas de que gostava. E gostava da Paixão do Rui Veloso porque os pais ouviam muito, da Carta dos Toranja porque a fazia chorar e da Baby Boy da Beyoncé porque adora dançar e a música era muito sensual. Não era só a música, devo dizer. Ela estava muito bonita, de calças de ganga azuis, top rosa e boina a condizer. Barriguinha levemente ao descoberto. E dançava ao som da Beyoncé e chorava ao som dos Toranja. Linda.

Depois passou outra vez para o Zé Rodrigues. Eu desliguei a televisão. E fiquei a pensar: - Pois é Ritinha, gostas de dançar. E faze-lo bem.

*
Machado de Assis, Esaú e Jacó

O problema não é a ausência do Simão

O problema é a presença do Karagounis.

O problema não é a ausência do Simão

O problema é a presenças do João Pereira.

Feridas

Sábado, uma formosa moça que o caracol soía conhecer telefonou ao caracol para que pudessem, os dois, falar. Não era a primeira coisa que o caracol pensava fazer essa tarde, mas, num gesto de boa-vontade contrariada, lá foi ele a casa dela, para que, os dois, pudessem falar. Em chegando lá bateu à porta, entrou, deu-lhe dois beijinhos e começou a ouvi-la. Ela falava, dizia coisas. Falava, dizia coisas. Gritava. Gritava, dizia coisas. O caracol ouvia. E ela falava e dizia coisas. E ela gritava e dizia coisas. Como o caracol não respondesse senão “hum, hum”, ou apenas aquiescesse com um movimento da cabeça, ela falava mais, gritava mais alto. E dizia coisas. Coisas que o caracol já conhecia. Coisas que o caracol já tinha ouvido. Vastas vezes.
Até que, obviamente, se cansou. E se calou. Aproveitando o tão sempre menosprezado silêncio, começou o caracol a falar. A dizer coisas. Outras coisas, coisas diferentes. Não muitas, pois, menos de duas frases completas depois, jazia, doído, na carpete castanha da sala. Furiosa, a formosa menina havia arremessado contra o caracol um gordinho boneco de barro que estava em cima da mesa e era, na altura, a coisa que ela tinha mais à mão.
Sabendo da origem, motivação e até da justeza, de tão instantâneo castigo, o caracol apanhou os cacos do chão, levantou-se, disse-lhe que lhe compraria outro boneco gordinho de barro, deu-lhe um beijo na bochecha molhada e saiu. Era já tarde, foi jantar. E ver o Benfica, que empatou ingloriamente. No Domingo o caracol não saiu de casa, pois tinha um galo vermelho em cima do olho esquerdo.

Qaurta-feira, 19.48h, o caracol corria desesperadamente para o café mais próximo a fim de ver o Benfica – Villareal. No caminho dois pilares. Pequenos. Entre os pilares uma corrente. Daquelas que se põe para não deixar passar carros. Corrente, que o caracol não viu. E, por isso, não evitou. Bateu estrondosamente com a coxa direita nesse emaranhado elado de metal e estatelou-se desamparada e espectacularmente no chão. Felizmente para ele a chuva ainda estava para vir. Levantou-se. Olhou para os cotovelos. Júbilo, o casaco não estava rasgado. As mãos, essas estavam marcadas pelos grãos de areia espalhados vastamente pelo alcatrão. Sentia dores agudas na coxa e joelho direitos. E começou a andar, devagar, em direcção ao café para ver o Benfica. Que perdeu. Ingloriamente.

Lema de vida

Baralhar, baralhar, e voltar a receber.

(a)colher

Loira. Roliça. Cara redonda. Olhos cavados. Claros. Sobrancelhas finas. Cabelo loiro. Natural. Semi-apanhado. Mais ou menos curto. Papinho. Que lhe assentava, por acaso. Os quilos a mais também.

O olhar, meu deus, o olhar. O sorriso, meu deus, o sorriso.

Faces rosadas pelo calor. É engraçado. Nota-se que sofre imenso. Também estão mais de trinta graus.

Ar de alemã. Sem dúvida, alemã. E o que eu gosto de alemãs.

As amigas:
- 2
- loiras, gordas
- sem metade da graça
- ensossas

Veste-se de uma forma muito citadina. Muito à-vontade. Gostava que tivesse um pouco mais de cuidado. Mas nela fica bem, o ar desleixado. De quem não se importa de ser nutrida, de se vestir com a primeira coisa que aparece, de ser bonita.

É linda. E sabe disso. E tenta evitá-lo. E não consegue.

E gosto daquele narizinho. Pequeninho. Empinadinho. Lindinho. Dava-lhe um beijinho.

E fuma. Com estilo. Não estica demasiado os dedos. Nem põe o braço naquela posição de 45 graus tão característica das meninas. Gosto disso.

E põe a colher na boca quando fala ao telefone. Os dentes, os lábios, a língua, a colher.

Entretanto

e com as novas tarifas anunciadas para o próximo mês, o aumento do passe do metro este ano já vai em 11%, sem prejuizo do aumento ordinário previsto para o mês de Janreiro próximo. E ninguém faz nada, nem os governantes nem a massa dominada. O povo é ignorante e o governo é uma piada. E se você não é um ignorante muito bem, então pelamordeDeus venha se expressar também. A voz do povo é a voz de Deus, quem disse isso não fui eu, mas eu acho que quem escreveu essa frase era ateu. Porque esse povo tá sem voz, o povo tá calado. Tá parado esperando Deus batendo palma pro diabo. E enquanto o diabo-rato-porco vai se perpetuando, o povo fica parado debaixo, de quatro bobolhando, bobolhando, se matando, sem dinheiro. Esperando deitado de bruços...
Esperanduquê?

(gabriel o pensador)

Andar de Metro faz-me odiar as pessoas

E eu não gosto de odiar as pessoas.

Uma regra que não admite excepções...

... é uma regra que, na sua génese, está mal pensada.

Atchim?

Com a gripe das aves e o consequente novo plano avícola nacional, que, entre outras coisas, proíbe a comercialização e exposição de aves vivas, uma pergunta me ataca pungente:

- Será que a imponente águia Vitória vai ter de deixar de fazer o seu magestoso voo no magnífico Estádio da Luz antes dos empolgantes jogos do Glorioso Benfica?

Fashion Statement, again

Aquela publicidade da tmn nas camisolas dos jogadores do Benfica é tão feiinha! Havia necessidade de ter aquela porcaria daquele fundo azul tão grande? Parece-me que não, chegavam as três letrinhas na camisola vermelha. Afinal de contas o fundo na camisola do Ricardo não era azul, era preto. E, já agora, que merda de azul é aquele?

Futebolês

Londres, aeroporto de Heathrow, controlo de passaportes. Caracol entrega o seu bilhete de identidade ao Mr. Passport Control officer.
- Mr Cárválio – lê o Mr. Passport Control officer.
- That’s me.
- Are you family with the player from Chelsea? – pergunta o Mr. Passport Control officer fitando o caracol.
- No, not really, no.
- You just share the surname then. – conclui o Mr. Passport Control officer.
- It is a common surname in Portugal.
- But you play football, right? – calcula o Mr. Passport Control officer enquanto verifica os dados no computador.
- Yeah, sometimes I do. Not as often as I used to, though.
- And not as well as he does, isn’t it? – brinca o Mr. Passport Control officer.
-Well…
Devolve o bilhete de identidade ao caracol.
- Oubrigadou, have a good stay here in England. – diz o Mr. Passport Control officer mostrando poliglotismo funcional.
- Cheers, I will.

Eleições autárquicas

Às vezes é preciso que tudo fique na mesma para que tudo fique na mesma.

Há escadas rolantes em caracol?

O pedagogo

Acho imensa graça à forma como o Rui Rio está sempre a dizer aos jornalistas que vai "deixar uma nota de pedagogia". Muito coisa tem este homem para nos ensinar!

Definição

A democracia é um pouco isto, é a institucionalização do conflito.

José Sócrates, primeiro ministro com veia filosófica

Almas triviais

Sónia Locasta
de cuequinha ao ombro
pelo passeio.
De soutien no sexo.
ó lady! lady!
Picasso ao telefone.

Armando da Silva Carvalho

O Sistema Interrogativo

O ódio é uma faca
na bainha

pronta a ser usada.

Porque deixas
que as lágrimas no sangue
te desarmem?

Egito Gonçalves

Para quando Moreira no banco?

Ou, perspectiva positivista,

Para quando Quim a titular?

Easy-listening

Aquele início da "What can I do" do Anthony, faz-me sempre começar a cantarolar o "Deixa-me rir" do Jorge Palma. Por outro lado, só no outro dia enquanto ouvia "Só", e depois de muitos anos de recorrentes escutas do magnífico álbum , reparei que o Jorge Palma acaba o disco a dizer "e foi nessa viagem que percebi que não estou só". Não terá sido por acaso que ele o fez. Terá sido por acaso que só agora reparei.

Machado em seara alheia

Apraz-me registar o destaque que o Machado de Assis vai tendo na blogsfera portuguesa, quer através de nomes de blogues (blog casmurro), quer nos últimos posts do Babugem. Assim continuem e assim outros surjam.

Alice

Fui ver. Parece que é o primeiro filme do Marco Martins. Não pára de me surpreender, a avassaladora tendência para a tristeza e soturnidade das coisas feitas em Portugal. E não deixa de me comover. A certa altura apeteceu-me chorar, mas não fui capaz.

É bom acreditar. Mesmo que sejamos os únicos. Principalmente se formos os únicos.

Golos

Muita gente anda por aí a criticar as opções do selecionador nacional para a muito específica posição de guarda-redes. Dizem que não faz sentido, que eles não jogam nos clubes deles, que devia era convocar o Baía e tretas quejandas. Em defesa do selecionafor devo dizer que a verdade é que quer o Quim, quer o Ricardo não têm sofrido golos.

Embaras du choix

Sou gajo para votar no Manuel Alegre. Quanto às autárquicas, mais uma vez não estarei em Portugal em tempo de eleições. O que é bom, evito a palhaçada e o "embaras du choix". Por outro lado, o que é que o Beto estava ontem a fazer no jogo do Benfica contra o Manchester United? Jogou tão mal, tão mal que até o Gabriel Alves notou que o gajo não estava a dar uma prá caixa. Haja paciência.

Exceptions Make the Rule

...
Understanding this distinction requires an appreciation of Italian concepts of law, which hold sway throughout the thought world of the Vatican. The law, according to such thinking, expresses an ideal. It describes a perfect state of affairs from which many people will inevitably fall short. This view is far removed from the typical Anglo-Saxon approach, which expects the law to dictate what people actually do.


While Italians grumble about lawlessness, fundamentally they believe in subjectivity. Anyone who's tried to negotiate the traffic in Italian cities will appreciate the point. No law, most Italians believe, can capture the infinite complexity of human situations, and it's more important for the law to describe a vision of the ideal community than for it to be rigidly obeyed. Italians have tough laws, but their enforcement is enormously forgiving. Not for nothing was their equivalent of the attorney general's office once known as the Ministry of Justice and Grace.


The British historian Christopher Dawson has described this as the "erotic" spirit of cultures shaped by Roman Catholicism. Catholic cultures are based on the passionate quest for spiritual perfection, Dawson writes, unlike the "bourgeois" culture of the United States, which, shaped by Protestantism and based on practical reason, gives priority to economic concerns. As one senior Vatican official put it to me some time ago, "Law describes the way things would work if men were angels."
...

Mais

A lei expressa um ideal! Olha, se calhar expressa.

Quadro Clínico

Sessão de psicoterapia do caracol:

Perturbação manifesta do pensamento:
- Afrouxamento de associações;
- Incapacidade de filtrar linhas de pensamento (hiper-inclusão);
- Manipulação de conceitos/símbolos desligada da realidade (pensamento ilógico);
- Dificuldade em lidar com o abstracto (pensamento concreto);

evidenciada no discurso:

- Pseudoprofundidade,pobreza conceptual, discurso vago;
- Criação de neologismos;
- Tangencialidade, descarrilamento;
- Desagregação;
- Incoerência.

Professor Doutor M. Xavier

De qualquer das maneiras,

ordinária ou extraordinária, a boa educação sempre foi sobrevalorizada. E a má também.

Dores

"Toda a dor pode suportar-se, toda!...
Mas uma não: é a dor do pensamento"

António Nobre

Às vezes acontece.

Não olhou para o caracol uma única vez com olhos de olhar. Não sem espanto, mas cativado, o caracol não tirou os olhos dela.

Já cá faltava

Era uma moça de dezesseis a dezessete anos, delgada sem magreza, estatura um pouco acima da mediania, talhe elegante e atitudes modestas. A face, de um moreno-pêssego, tinha a mesma imperceptível penugem da fruta de que tirava a cor; naquela ocasião tingiam-na uns longes cor-de-rosa, a princípio mais rubros, natural efeito do abalo. As linhas severas do rosto parecia que as traçara a arte religiosa. Se os cabelos, castanhos como os olhos, em vez de dispostos em duas grossas tranças lhe caíssem espalhadamente sobre os ombros, e se os próprios olhos alçassem as pupilas do céu, disséreis um daqueles anjos adolescentes que traziam a Israel as mensagens do Senhor. Não exigiria a arte maior correcção e harmonia de feições, e a sociedade bem podia contentar-se com a polidez de maneiras e a gravidade do aspecto.”

Machado de Assis, Helena

Jornada 4

He he.

Sara mago

José Saramago diz que apoia o Mário Soares e o Jerónimo de Sousa nas presidenciais. O nosso nobel, que há pouco advogava pelo voto em branco, parece optar agora pelo voto nulo. Interessante padrão.

Algumas (poucas) considerações sobre o Sporting - Benfica

(até àquela puta daquela tão absurda expulsão, porque, obviamente, não vi nem mais um minuto do jogo)

- O Quim é 10 vezes melhor do que o Moreira. O Moreira é um nervoso e precipitado do caralho. Está sempre a sair da baliza desnecessariamente. E não, não é por ser de Braga que digo isto.
- O Carlitos quando souber passar a bola vai ser um jogador do caralho.
- O João Pereira é tão fraco, tão fraco que nem sei que caralho hei-de dizer mais.
- Aquela puta daquela táctica com que o Benfica entrou em campo, e a que os energúmenos comentadores desportivos chama 3-4-3, não passa de um 5-4-1 mas disfarçado e desequiilibrado.
- O Karagounis nunca foi e nunca há-de ser número 10 e, claro, não devia ter jogado já.
- O Geovani joga sempre bem contra o os lagartos. Devia ter jogado ontem.
- Meter o Micoli e mandar o Nuno Gomes para o banco é passar de cavalo para burro.
- Aquela puta daquela expulsão não lembra a ninguém. Como é que é possível expulsar um gajo por uma rasteira inocente numa jogada de meio campo? E depois vêm os comentadores desportivos, o conjunto de pessoas que menos beneficiou da chamada evolução humana, dizer que se aceita porque foi uma entrada ríspida e não sei quê. Aceita-se mas é o caralho. Pensava que o futebol era um jogo para homens de barba rija, mas parece que o querem transformar num jogo para mariquinhas que soçobram perante qualquer contacto físico.
- Gostava de saber o que o Dias da Cunha, peculiar observador de um jogo de futebol, tem a dizer agora sobre estas "paradigmáticas arbitragens".

Long time no see

- Olá caracol, estás bom?
- Olá miúda, eu tou fixe. E tu, como estás?
- Tou boa.
- Pois é, por acaso estás.
- E então caracol, novidades? Já vi que cortaste o cabelo.
- Foi, cortei um bocadito.
- Eu gostava mais dantes, mais comprido.
- Oh, tu e tantas.
- Habituaste-nos mal, caracol...
- Se calhar foi isso. Mas sabes, eu corto o cabelo sempre com a perspectiva de que ele vai crescer.
- Ah, perspectiva optimista.

Confissões absortas

Sempre não. Sabes, eu em tempos tentei falar-lhes dos meus devaneios amorosos, que, não sendo demasiadamente interessantes mexiam muito comigo. Os de agora mexem menos, confesso. Falei-lhes uma vez de certa morena de olhos negros e penetrantes e outra vez de muito famosa loira, de olhos verdes, narizinho empinado e estreito e óbvia prosopopeia. Mas nunca me levaram a sério. Pensaram sempre tratar-se “daquelas manias do caracol” que, como outras, lhe haveriam de passar. Percebi isso. E percebi também que se calhar fiz mal em dizer-lhes estas coisas. Raramente repito o mesmo erro e desisti. Vi que não valia a pena contar-lhes os meus anseios e receios. Por mais sérios que eles fossem.
Não me interpretes mal. Eu amo-as às duas de amor verdadeiro e puro. O que não quer dizer que as tenha de compreender ou que espere que me compreendam ou que esteja à espera da ajuda delas para o que quer que seja. Não. Quer apenas dizer que gosto muito delas. E nem sei porquê. E nem quero saber. Simplesmente contento-me que me tolerem e até sei que gostam pelo menos um bocadinho de mim. E, além disso, aprendi a gostar que a curiosidade delas em relação a mim se esvaia naturalmente nesse mar imenso que são as outras e principais preocupações que as afligem. Aprendi até a jogar com isso. Para minha vantagem.
Tenho de te dizer que às vezes posso ser um bocado inflexível. E, se elas um dia não quiseram saber do que eu lhes dizia pensando ser só mais um capricho meu, hoje nada de mim saberão por mim a não ser que eu veja vantagem nisso. E não gosto menos delas por isso. Espero que não gostem menos de mim também.

Olha, Confissões (adaptado)

- Prometo

, - diz.
Eu acredito.

Dores

Às dores fingidas
Prefere as reais.
Doem muito menos
Ou então muito mais...

O'Neill

Tu la calmes, tu prends ton temps.














- Mais... je suis mariée. Non, je suis mariée. Non... non! Je peux pas. Non, non!


l'auberge espagnole

Quanto tempo dura um "por enquanto"?

Depois de algumas investidas vãs, levei com um "...por enquanto não vai dar..." de uma menina linda, linda, linda. Eu,,, que pensava ser irresistível.

Não me ouves

E depois agradeces às férias, não é?

Cancioneiro dos Açores

Caracol

O Caracol é vadio,
Mas a graça que ele tem:
Come as ervinhas do campo,
Sem ofender a ninguém.

O Caracol é velhaco,
Só quer praticar o mal:
De noite pela calada
Vai às couves do quintal.

A vida do Caracol
É bem triste de levar:
Poisa aqui e poisa ali
Nunca tem onde parar.

A vida do Caracol
É uma vida arrastada;
Anda com a casa às costas,
Onde chega faz a morada.

Ai, ai, Caracol,
Meu doce alimento,
Eu sempre te trago
No meu pensamento.

Whiter shade of bikini




Já fui algumas vezes à praia, este ano. Incompreensivelmente, vi muito poucos biquínis brancos. E isso não me parece bem. Gosto tanto...

Pudor

Haverá coisa mais linda?
Se calhar há, mas o pudor acompanha-a.

A ocasião faz o ladrão

- Eh pá, a verdade é que eu gosto bué aqui da vossa amiga. Espero que não vos importeis que vo-la roube por uns segundos.

O caracol não podia perder a oportunidade de usar tão inusitada contracção de pronomes.

Pausa para reflexão

É por causa destes gajos que precisam de parar para reflectir, que não conseguem pensar em andamento, que Portugal não anda para a frente. Que a Europa não anda para a frente. Parece que me estão a dizer: Bem, nós chegamos até aqui sem pensar. Foi sempre a andar. Mas agora temos de parar. Para pensar. Que isto de fazer duas coisas ao mesmo tempo é muito desgastante. Não sabemos se conseguimos. Ufa

Série 6

The Sopranos vai voltar aos ecrãs estadunidenses em Fevereiro do próximo ano. Espero que não tarde a chegar cá também.

Hoje e sempre

O Alberto João Jardim chama-lhes bastardos, e fá-lo para não lhes chamar filhos da puta. O Fernando Pessoa não lhes chamava sequer filhos da puta, porque não havia puta que os parisse.

Coitados dos jornalistas.

Fora de mim

Ultimamente quando falo, faço-o para não estar calado. Só.

Isto tudo para dizer...

... que não vejo a necessidade de referendo ao Tratado que estabelece um Constituição para a Europa. Assim como assim, uma Constituição sempre foi definida e votada pelos representantes das pessoas no parlamento ou congresso. Representantes eleitos para isso, entre outras coisas. Não me lembro de a Constituição da República Portuguesa ter sido referendada. Não me lembro de as sucessivas revisões constitucionais, inclusive a de 1982 que veio a permitir a entrada na UE por meio da perda de um bocado da nossa soberania, terem sido referendadas. Posso estar cego, ou míope. Se estiver iluminem-me. Mas não vejo onde está a pertinência do referendo.

Não

“A política, antes do combate político, é apenas pedagogia. Ora, não se escolhe o referendo, nem se abre o debate, sem uma pedagogia para que as pessoas saibam do que se está a falar. Se não, as pessoas não vão responder ao texto, vão evidentemente responder ao contexto. Ora, o campo do “sim” nem o tentou. Não explicou o funcionamento das instituições europeias, que não correspondem em nada às nossas. Não explicou o essencial do 448 artigos do texto. Daí um debate confuso, que se instalou logo no tema da Europa social, aberto a todas as demagogias.

Os defensores do “sim” deviam ter explicado que esta Constituição é um quadro, e que o contexto sócial será dado pelas eleições em cada uns dos 25. Se a esquerda ganhar, o conteúdo europeu será mais social, se for a direita, é menos social. Mas não é a Constituição que vai criar esse conteúdo.”

Estas são palavras de Pascal Perrineau, director do Centro de Estudos da Vida Política Francesa, numa entrevista transcrita no jornal Público de ontem sobre a situação política francesa e a mais que certa vitória do não no referendo ao Tratado que estabelece um Constituição para a Europa. São palavras que dificilmente poderiam vir melhor ao encontro daquilo que eu penso.

De facto, é preciso que as pessoas saibam do que se está a falar. É de uma constituição. E, uma constituição não é mais do que um conjunto deleis fundamentais, leis básicas de acordo com os quais um grupo de pessoas concorda que se deve reger. Numa constituição aparecem os direitos, deveres e garantias individuais e a enumeração, função e âmbito de actuação dos diferentes órgãos de poder e consultivos.

Eu sinceramente, não percebo porquê tanta celeuma à volta da ratificação do já famigerado Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa. Estou ainda a formar a minha opinião e a dar uma vista de olhos no tratado, mas ou é impressão minha ou este já tão tristemente celebre documento não acrescenta praticamente nada ao que já estamos a viver.

Em termos de direitos individuais, garante o respeito pela liberdade, democracia, dignidade, igualdade e direitos humanos. Está conforme a Convenção Europeia dos Direitos do Homem e das Liberdade Fundamentais assinada em 1950. Além disso, pretende promover a paz, o desenvolvimento sustentável a justiça e a protecção social. Ou seja, nada de novo e coisas giras.

Por outro lado, não ameaça a soberania dos Estados. Ou pelo menos não a ameaça mais do que até agora. Continua a defender o princípio da subsidiariedade, princípio antigo, que nos diz que a União só actua se tiver de actuar. Para problemas locais, soluções locais.

Diz-nos que continua a haver um Parlamento Europeu, com deputados eleitos sob o princípio da proporcionalidade, que tem poder legislativo e de controlo em relação ás políticas postas em prática pelo órgão executivo: a Comissão Europeia. Que continua a haver um Conselho Europeu que agora vai ter presidente permanente. Que continua a haver um Conselho de Ministros com poder legislativo e orçamental. Que continua a haver um Tribunal de Contas, um Banco Europeu e um Tribunal de Justiça. Diz-nos que inventaram a figura do Ministro dos Negócios Estrangeiros da União.

Diz-nos também que só será aprovado se for ratificado por todos os Estados-membros. Ou seja, a França já pôs o tratado em risco. Por outro lado, diz que se 80% assinarem, o Conselho Europeu tratará da situação. Como não sei, mas assim mais quatro países poderão dizer "não".

Eu até percebo que o apelo do não seja forte. Toda esta situação está a ser mal conduzida pelos políticos responsáveis. É chato porem os cidadãos perante a inevitabilidade do "sim" ao tratado. É estúpido dizerem que não há alternativa. Não se pode pôr a questão: ou o tratado ou anos de atraso. Não é assim que se fazem as coisas. Têm que dar às pessoas a garantia de que as coisas podem ser melhoradas.

Infelizmente não se ouve discussão. Ninguém explica nada a ninguém.. Um gajo vai ao Sítio do Não e tem argumentos como: Se o Pacheco Pereira vota não, se os seus acólitos votam não, eu já decidi: vou votar sim. Não me parece que a discussão assim dê frutos nem que tenha alguma coisa a ver com a Constituição. Tambem já lá vi gente a pedir um Sítio da discussão em vez de um sítio do "sim" ou do "não". Era bom, era. Mas vêm logos uns com o papão das políticas sociais, outros com o do desemprego provocado pela extrema mobilidade, outros com a perda de soberania e outros até com quezílias pessoais.

Mas não é a Constituição que define as políticas a serem seguidas pelos Estados-membros. É a população através do seu voto naqueles que querem para seus governantes. A constituição é só um quadro geral e necessariamente vago. "É a lei máxima, à qual todas as outras leis devem ajustar-se." E as outras leis é que definem muita coisa. Essas é que criam papões.


You know what?



If I was you, I'd go down there and give those boys a drink.
You can't imagine how happy it makes a man to see a woman like you. Just to look at her.
And if one of them should pat your behind, just make believe it's nothing. They earned it.

Once upon a time in the west

E por falar em dobradinha

Mais um autolink e a respectiva receita.

6,83

É menos de 7.

Deixa-me

Quero sonhar contigo
Estou farto de sonhar sozinho

Quem não percebe isto não percebe nada

Assim acaba a crónica do Vasco Pulido Valente da passada sexta feira. Eu curto estas frases liminares, principalmnete quando são escritas por um gajo que percebe de tudo um muito como é o caso deste obsequioso e intrépido comentador. Fico pelo menos a saber que se algum dia quiser perceber um pouco de todas as coisas que ele obviamente percebe terei de começar por perceber que o défice é um sintoma de ingovernabilidade do país e não uma questão económica e financeira, corrigível com medidas de retalho e os "sacrifícios" do costume.

Já que falas em Oscar Wilde

Aqui vai algo que eu próprio não diria melhor:

When I like people immensly I never tell their names to anyone. It is like surrendering a part of them. I have grown to love secrecy. It seems to be the one thing that can make modern life mysterious or marvellous to us. The commonest thing is delightful if one only hides it. When I leave town now I never tell my people where I am going. If I did I should lose all my pleasure.

É uma fala do Basil - que viria a ficar famoso com Fawlty Towers - pintor do retrato do Dorian Gray.

Mas tudo bem, deixem-nas trabalhar

Há agora por aí alguns cafés que começam a contratar empregadas ucranianas. Percebe-se. São eficientes, arrumadas, muito profissionais e já falam português. Algumas são giras, até . O problema é que não sorriem e desviam o olhar.

Polidez

Hoje, já nem quem não me conhece acredita em mim. Devo ter, com certeza, cara de mentiroso. Dizem-me, com alarve frequência, que tenho cara de gozão. E pensam sempre que por detrás do que digo há sempre uma obsequiosa segunda intenção. Mas não é verdade. Praticamente tudo o que digo é imediato. De facto, não dou para mais. Se a minha cara diz o contrário, paciência. Nada posso fazer. E não percebo porque não posso dizer a verdade a rir.

Olhares furtivos

Não é por estarmos em tempo de vacas gordas com a vitória no campeonato e a presença na final da taça que eu me esqueço da humildade e de reconhecer os méritos dos adversário. Ontem, por exemplo, no café-bar-esplanada, quase totalmente preenchido por mulheres e homens benfiquistas, onde vi o jogo, vi, nos meus constantes olhares em volta, que havia cinco gajas boas. Uma estava comigo, outra vestia de azul e branco, as restantes três eram convictas adeptas do Futebol Clube do Porto. E que belas adeptas, deixem-me que lhes diga. Que belas adeptas, de facto.

A gente é campeões, pá

E a gente estamos felizes porque ser primeiro é melhor do que ser segundo.
SLB, SLB,SLB, SLB,SLB, SLB,Glorioso SLB, Glorioso SLB.

Eh pá

- Caracol, achas que existem mulheres inacessíveis?
- Eh pá, sim. Acho que sim. Mas a que propósito vem essa pergunta?
- Dúvidas que eu tenho, caracol. Dúvidas que eu tenho. Mas diz-me lá uma mulher que para ti seja inacessível, a que tu aches que nunca conseguirias chegar.
- Eh pá,... qualquer gaja que esteja a passear o cão será absolutamente inacessível para mim.

Quando falo sério

Nunca ninguém acredita no que eu digo quando falo a sério. Não tenho, por isso, razões para mentir.

Há algum tempo, de facto

Parece-me que ando há algum tempo a jogar ao jogo do gato e do rato com determinada menina de sorriso naomiwattsiano. Só não percebi se, sou o gato ou o rato. Apesar de tudo, acho que é suposto ser o gato.

Hoje é o dia do iogurte

Iogurte que, além de ser fonte de cálcio, proteínas e vitaminas e de ter características probióticas que facilitam o equilíbrio da flora intestinal, pode também ajudar na dramática luta contra o mau hálito.

Ainda por cima, qual caracol perfumado, é agradável e saboroso.

Post ligeiramente (ou seja, de forma apressada) inspirado no folheto do dia do iogurte.

Apetece-me fazer um autolink

Para algo que nem sequer fui eu que escrevi, mas pelo menos transcrevi. Duas palavras no pretérito que rimam com por ti, para ti, sem ti; mas não contigo.

Bola rasteira

A propósito do Benfica – Sporting, acho imensa graça a que se fale por aí, e os jornalistas de desporto não se cansam de dizer asneiras, sobre merecer ganhar o jogo, merecer ganhar o campeonato, jogar para o empate, jogar melhor futebol, sorte do jogo e outras tretas quejandas.

Dizem amiúde e sem qualquer tipo de pejo que o Sporting é a equipa que joga melhor futebol. O Sporting é portanto o digno sucessor da nossa selecção de futebol das vitórias morais, que jogava um futebol bonito comó caralho e depois perdia contra a mais insignificante das equipas. Pensam estes mentecaptos que jogar bem à bola é jogar ao meiinho. Mas não. Para se ser boa equipa de futebol é preciso marcar golos. O Sporting tem um catrefada de jogadores brinca-na-areia, que não correm e pensam que por conseguirem dar mais de dois toques consecutivos na bola são grandes jogadores. Enganam-se. Um meio campo com Custódio, Pedro Brabosa e Rochembak é um meio campo a três velocidades: devagar, devagarinho e parado.

Vejamos o jogo com o Benfica. Vimos um Sporting com muitos passes lateralizados, alguns remates de fora da área, nenhuma ocasião de perigo. O Benfica por seu lado não deixou o Sporting chegar à sua área, e atacou com rapidez. Criou assim duas oportunidades claríssimas de golo e marcou de bola parada. Coisa que vem acontecendo nos últimos jogos e que tem cada vez mais preponderância no futebol moderno.

Vêm depois os entendidos dizer que o Sporting jogou para o empate. Mas não, o Sporting joga sempre assim. A diferença está na equipa adversária. É mais do que claro que se o adversário pressionar um bocadinho, os jogadores do Sporting não fazem a ponta de um corno. Ficam ali perdidos a passar a bola uns para os outros sem saber como avançar no terreno e conseguir rematar. Além disso, são muito permeáveis às investidas das equipas adversárias, que podem sempre contar com um Ricardo aos papéis, uma abébia do Polga, um Rui Jorge nas covas. É claro que quando as coisas correm bem até fazem grandes jogos. Mas é isso mesmo: é preciso que as coisas corram bem. E para que as coisas corram bem é preciso que a equipa adversária os deixe jogar.

O Benfica teve a sorte do jogo? O Benfica jogou melhor, criou mais oportunidades, marcou mais um golo do que o Sporting. Ganhou. Mais nada.

Medir o bem e o mal

O método pós-moderno:

Honestidade intelectual
: 4210 em 0,05''
Desonestidade intelectual: 524 em 0,05''

Fonte: google

- Gira gira é a Karolina, caracol. Posted by Hello

Fagia, fasho, mas vou deixar de fager

Depois do Benfica-Sporting vou-me deixar de onicofagias.

Exercício de preparação


- Ó caracol, a Britney tem bué da celulite.

Sacrilégios

A ler o jornal soube no outro dia que o Napoleão morreu de cancro. A ler o jornal aprendi hoje que o Tutankhamon morreu de gangrena. Com o jornal na mão, já sem ler, penso no que será feito da expressão "descansa em paz".

Houve tempos em que os túmulos eram sagrados. Tempos idos, vejo agora. Volta religião, estás perdoada.

Sem corrimão

Se calhar não ineressa muito, mas estou a ouvir:

É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão,
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Corre-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão.

Camané a cantar "Escada sem corrimão" de David Mourão Ferreira

What's wrong with this picture?

Slogan da publicidade da Tv Guia, da Tv Guia repito, estampada em cartazes nas estações de Metro:

- Maio é mês de Maria.

Há referendos?

Sou contra.

Pinilla resolve

E quando marca golo, em vez de ir festejar com os colegas, vai festejar com as câmaras de televisão. Um artista, de facto, este rapaz!

Exercício de preparação



- Ó caracol, a Britney nem sequer é gira!
- Está bem. E depois?

Bashful "special one"

Challenged on his famous self-proclamation when he arrived in England that he was the "special one" Mourinho said bashfully that he had only said that because he was fresh from winning the European Cup.

"I arrived with my ego up here," he said gesturing a great height with his hand. Asked what had happened to his ego since then, Mourinho admitted: "It's even higher."

"It as a wonderful surprise to see so many people here today"

"Never get so attached to a poem
You forget truth that lacks lyricism"

Joanna Newson, En gallop

Profecias

O Sporting não vai ganhar cinco jogos do campeonato seguidos esta época.

Esmolas

O Sá Pinto confessa que apesar de ser católico ainda não consegue - infelizmente, diz- dar a outra face. Mas pelo que vejo, está sempre pronto para dar o outro punho. Católicos, hein?* Humpf.

*generalização quase-abusiva

"This is an old song...



...
These are old blues
And this is not my tune
But it's mine to use"

Joanna Newson, amanhã no Lux.



fotografia roubada aqui

Jugo impressionista da inevitabilidade

- Foi o nazi! - dizia um chabalo a uma chabala, hoje à entrada da cantina da universidade, numa óbvia referência ao passado de juventude hitleriana do agora Bento XVI, depois de ela lhe ter perguntado quem tinha sido eleito o novo papa. Era um par de chabalos que ostentava aquele ar de andrajoso por opção que distingue os aspirantes a comunistas que têm uma atitude progressiva na subida ao poder da ortodoxia partidária. O rapaz falava com atitude irónica, atitude evidente nas faces pintadas com marcas indeléveis provocadas pelo jugo da inevitabilidade. Uma ironia que se confundia com o júbilo de quem pensa: "Eu já sabia que esta merda ia acontecer. A igreja não seria capaz de perder uma oportunidade de ficar ainda mais um passo atrás do resto da sociedade. Aquela cambada de paneleiros, misóginos e reaccionários habituada às orgias sodomitas praticadas por entre as inescrutáveis paredes do muito promíscuo estado de sítio do Vaticano tinha de escolher um filho da puta de um nazi com a mania da perseguição e com uma ânsia galopante mal disfarçada de impor os seus tão defectivos valores aos demais".

Sorri ao perscrutar tal pensamento do jovem imberbe e não deixei de me lembrar que o próprio Saramago dissera que esta eleição do cardeal Ratzinger para Papa representava o regresso da inquisição ao poder.

Apesar de perceber estes pensamentos e de, no essencial, pensar o mesmo mas com um grau elevado de originalidade, não posso deixar de reparar que revelam uma intolerância cega e preconceituosa muito típica de uma esquerda estereotipada, que agora chamam moderna. Uma intolerância que não é muito diferente das alarvidades de um Abominável César das Neves - que deve ter dado urros de satisfação perante as notícias de hoje - e que é alimentada pela informação avassaladoramente impressionista que nos diz que o ex-cardeal é um gajo ultra-conservador que se dedicoucom afinco a perseguir e calar as vozes menos ortodoxas e mais discordantes dos representantes da igreja, depois de na sua juventude ter pertencido à juventude hitleriana. Informação impressionista mas não mentirosa diga-se, por isso...

Por outro lado, isto é uma cena que não tem tanta importância como a que lhe é atribuida. Interessará sobretudo aos que acreditam em religião, sobretudo aos que acreditam na religião católica, uma vez que aquela treta do ecumenismo já foi chão que deu uvas. O resto de nós continuará a passar ao lado de tão terrenas questões e tenderá a preocupar-se com coisas realmente interessantes.

Se não o resto de nós, pelo menos eu. Até porque a Britney Spears só está grávida agora (e não me parece que tenha sido intervenção divina, apesar de não duvidar que tenham sido momentos divinais) e já vem engordando há uns meses, o Benfica só tem um ponto de vantagem sobre os perseguidores e eu até curtia que fosse campeão e, além disso, a ninfa que eu quero só pra mim e mais ninguém, qual enguia que tento pescar com cuidado e não consigo, provoca-me choques de pânico, desejo e prazer enquanto me escapa por entre os dedos lubrificados pelo suor ansioso da paixão.

Muito preto, aquele fumo

Por onde anda a Greenpeace. Não deveriam esses senhores estar em Roma? Não me cheira que aquele fumo preto faça muito bem ao nosso tão prezado e tão mal defendido meio ambiente. Muitos químicos, muitos químicos. Ainda por cima há a perspectiva de a cena se vir a repetir esta semana.

Ps. Será que ainda ninguém se apercebeu que é um bocado ridículo estar à espera de um determinado fumo do cimo de uma chaminé?

O mundo,

Ou a vida, não sei qual é a diferença, é uma cena cheia de impossibilidades.

L'amusement, solitude

Silence is sexy
Silence is sexy
So sexy

So silence

Silence is sexy
Silence is sexy
So sexy
So sexy
Silence is not sexy at all

L’amusement
Solitude
Die ungesellige Liebe, die fixe Idee, l’idée fixe
Nur ich und ich und ich und Tinitus
Wenn die Musik endlich aufhört
Ganz von selbst

Silence is sexy
Silence is sexy
So sexy
As sexy as death

Silence is sexy
Silence is sexy
So sexy
So sexy
Just your silence is not sexy at all
Just your silence is not sexy at all
Your silence is not sexy at all

Einsturzende Neubauten, Silence is sexy. No CCB a 12 de Abril.

Herald

Silence is the perfectest herald of joy: I were but little happy, if I could say how much.
Shakespeare

No dia 6

Eu quero jantar com as duas. A escolha, se tiver de ser feita, será muito mais fundamentada depois.

Codigo da estrada

Há duas maneiras absolutamente erradas de se encarar as leis. Uma é pensar que as leis são para se quebrar. A outra, não menos má, é pensar que as leis são para se cumprir. O novo código da estrada serve, infelizmente, para pôr a segunda ideia em prática. É a lei independentemente das circunstâncias.

Mas, volto a isto depois. Agora não tenho tempo.

Perto Demais

Actualmente é impossível estarmos em algum lado sem ouvirmos o Damião Arroz a dizer em forma de pugentezinha canção que não consegue desviar os olhos da filha da gaja que sopra, vulgo sopradora. E isso chateia um bocadinho.

Eu compreendo que um jovem rapaz se apaixone pela filha da sua professora de clarinete. Eu compreendo que essa paixão o foda todo e que ele queira, sem conseguir, atirar tudo para trás das costas. Eu compreendo que ele se arme num Nick Drake de trazer por casa, e cante daquela forma tão afectada (vulnerável). Eu até compreendo que haja tanta gente a gostar da canção. Eu também gosto.

Mas preciso que compreendam que a excessiva exposição da canção a torna numa canção pior.

Serve-me, pelo menos, de consolo saber que isto é passageiro e que toda a gente que diz que não consegue deixar de ouvir a canção, só não a consegue deixar de ouvir até encontrar outra nova.

E é assim a maior parte das vezes.

Personalidade

- Uma das coisas mais difíceis de se aprenderem é que nem toda a gente gosta de nós. Mas prefiro que isso se deva à minha personalidade a outras coisas. Não gosto que se deva ao meu aspecto.

- Mas elas nem te conhecem, tolinho.

Fora do contexto

Ui ui, caracol, ando a falhar. As gordas passaram-te ao lado, mas apanhaste as miudinhas que me escaparam.

Promessas vaidosas...

...mas sérias.

- Juro pela minha barba de seis dias que não volto a ser parvo, a mentir-te, a fazer-te chorar.

Olhá bela rima

"Hapiness is a state of mind, I guess."

ReJazz, faixa 4

Esplendor cardinalício

"Cá por mim, quando visito as minhas queridas putas, imploro-lhes que me mostrem a cona endurecida, enrugada e bela, pedindo-lhes que abram as lapelas dos lábios, essas peles fanadas que as adornam e as incendeiam com um esplendor cardinalício, a jogar com o papel das paredes e tão seboso ou ainda mais. Ao acabar a sessão beijo-as a todas na testa, que é o lugar onde os israelitas ungiam os seus reis e onde os padres sujam com cinza os seus paroquianos.
E assim, santificadas, as abandono, pois as minhas obrigações profissionais me reclamam."

Excerto de "A cona das putas", texto contido num livro chamado "Conos" do autor espanhol Juan Manuel de Prada com tradução para português (não muito boa, refira-se) de José Carlos Gonzáles. "Este livro - peça insólita no panorama literário ibérico - para quem entende que literatura e divertimento não devem ser coisas inimigas"* foi-me emprestado por um amigo que tinha a secreta esperança que eu dele falasse aqui. Como gosto de fazer o inesperado, falo mesmo. Até porque, apesar de ter uns laivos de ressaibo, o autor faz umas analogias giras de vez em quando.

*texto da contracapa

Nunca tinha ouvido falar de Sigmund Freud

Em todas as sondagens que se vêem por aí em que se pergunta à pessoas o que é que valorizam, quais são as áreas em que os governos devem investir, qual é a causa da crise económica actual, por que é o desemprego não pára de aumentar, por que é que o Benfica não é campeão há tantos anos, uma das respostas que surge sempre nos lugares cimeiros é a educação. Mas quando se pergunta de onde deve provir a educação - família, escola, estado, religião, todos - as opiniões divergem um pouco mais.

A educação é um ser muito abstracto, causa de e solução para todos os problemas. Algo que todos sabemos que existe mas ninguém sabe ao certo o que é, o que dá azo a muita discussão e a algumas frases interessantes. Apetece-me aqui escrever algumas dessas frases, em inglês porque é assim que me aparecem e porque eu tenho preguiça de traduzir:

"Education is an admirable thing, but it is well to remember from time to time that nothing that is worth knowing can be taught."
Oscar Wilde

”Nothing can be taught: everything can be learnt.”
Provérbio Chinês

"If you think education is expensive, try ignorance."
Derek Bok

"Education is a system of imposed ignorance."
Noam Chomsky

"I have never let my schooling interfere with my education."
Mark Twain

E para acabar em beleza, como se da cereja no topo do bolo se tratasse:

"I was doing it when I was a coloured boy of eight or nine or ten. I had never heard of Sigmund Freud, but hell I was doing it then. I was doing it in my teenage years, when I was running the ghetto street. Now I had never seen me no hint of tits, but it still felt good to me. I was doing it when I arrived in college searching for my degree, but Lord knows that the degrees weren't all I got and that's the way it's supposed to be. I hope that when I have kids of my own, they really don't get shocked, when I tell them that there are things they gotta learn and that can't be found in books."
Gil Scott-Heron, Sex Education: Ghetto Style

A mim, a educação sempre me pareceu sobrevalorizada.

Ditadura do queijo

Parece-me que há uma coisa que irá marcar de forma indelével o fim dos anos noventa do século XX e este início do século XXI. É o primado do queijo. A perseguição do queijo. A omnipresença do queijo.

Um gajo vai a um qualquer sítio para comer e tem que levar com a porcaria do queijo por tabela. Ele é pratos, ele é sandochas, ele é tostas, ele é ciabattas e outros nomes apaneleirados que tal. Olha-se para a composição das sandes, que é uma cena que agora fazem muito, e lá está o mal-cheiroso sempre presente. Tosta de frango? Frango, queijo, tomate, etc. Sandes de atum? Atum, queijo, alface, etc. Sandes de …? …, queijo, etc. Tosta de queijo? Queijo. Tosta de fiambre? Não temos, só de queijo.

É chegado o tempo de alguém dizer chega. E já que mais ninguém o faz, faço-o eu:

- Já chega.

Há vida para além do queijo. Quando vejo pedirem uma tosta de queijo, o que vem é queijo melado dentro de pão estaladiço. Não vejo frango, não vejo fiambre, não vejo atum, não vejo frutos do mar. Por que é que quando se pede uma tosta de frango há-de vir a porcaria do queijo?

Há um ditado que diz: pão pão, queijo queijo. Mas, minhas meninas, minhas meninas, minhas meninas e meus meninos (agora apeteceu-me ser politicamente correcto), isto não quer dizer que eles devam estar sempre juntos. Não. Isto quer dizer que pão é pão e queijo é queijo (é como aquele anúncio da fluxograma, paradigma da publicidade pós-moderna, que diz que "as coisas são o que são e não há volta a dar-lhe"). São duas coisas que estão separadas. Uma vem das searas a outra das vaquinhas. E não há razão para as juntar. Até porque as vacas não se alimentam nas searas, alimentam-se nos prados.

Atenção! Atenção! Aviso à população

Um novo flagelo grassa na blogosfera portuguesa. Cada vez são mais as mulheres que afirmam sem pruridos que têm pila. E ao contrário dos homens, não lhes dão nomes simples, tipo Júnior. Não, optam antes por nomes muito sofisticados.

Tenham medo, tenham muito medo.

Pergunta

Será que me sinto mesmo como me sinto?*

*variação livre daquela canção que a Cher cantava quando ainda caminhava

How to disappear completely

"In a little while
I'll be gone
The moment's already passed
Yeah, it's gone"

De longe, a melhor canção dos Radiohead. How to disappear completely, a faixa n.º 4 de Kid A.

E, por favor, não me venham com "ses"

Acho feio e de extremo mau-gosto todo este “espectáculo” encenado à volta do primeiro aniversário dos atentados de Madrid. Estas mortes podiam assinalar-se com muito mais discrição. Parece-me que há - principalmente da parte das autoridades políticas e da comunicação social, mas não só - um aproveitamento sem escrúpulos dos que se salvaram e uma falta de respeito desprezível pelos que morreram e pelas suas famílias.

É preciso que haja tino e que se pense nas pessoas. Este alvoroço todo irrita-me. Por ser desnecessário, por ser leviano, por ter prazos muito definidos e curtos.

but we've never met

Isto é lindo.

I Hope That I Don't Fall in Love with You

Well I hope that I don't fall in love with you
'Cause falling in love just makes me blue,
Well the music plays and you display your heart for me to see,
I had a beer and now I hear you calling out for me
And I hope that I don't fall in love with you.

Well the room is crowded, people everywhere
And I wonder, should I offer you a chair?
Well if you sit down with this old clown, take that frown and break it,
Before the evening's gone away, I think that we could make it,
And I hope that I don't fall in love with you.

Well the night does funny things inside a man
These old tom-cat feelings you don't understand,
Well I turn around to look at you, you light a cigarette,
I wish I had the guts to bum one, but we've never met,
And I hope that I don't fall in love with you.

I can see that you are lonesome just like me, and it being late,
You'd like some some company,
Well I turn around to look at you, and you look back at me,
The guy you're with has up and split, the chair next to you's free,
And I hope that you don't fall in love with me.

Now it's closing time, the music's fading out
Last call for drinks, I’ll have another stout.
Well I turn around to look at you, you're nowhere to be found,
I search the place for your lost face, guess I’ll have another round
And I think that I just fell in love with you.

Tom Waits, faixa número 2 de Closing Time.

"I want you

to notice
when I'm not around."

Creep, Radiohead

Quase-inevitabilidades prováveis

Luís Campos e Cunha disse que a subida dos impostos é “provavelmente quase inevitável”. Curiosa escolha de palavras. Pergunto-me o que quererá dizer.

Futebolês

O Benfica anda a fazer um mal desgraçado ao futebol e aos seus adeptos. Joga mal de mais para ser verdade. E não havia necessidade disso. É que até tem alguns jogadores jeitosos.

A equipa de futebol poderia ser muito mais bem orientada. Falta ali tanta coisa. E nota-se tanto. Aquele treinador tem tanta falta de genica, de flexibilidade, de jogo de cintura que até faz impressão. Há ali tanta previsibilidade.

Antes de cada jogo do Benfica há muitas coisas que podemos ter como certas. Coisas demais.

Sabemos por exemplo que vai apresentar aquele 4-5-1 super rígido e dependente da qualidade nem sempre presente do Simão. Aquele sistema de jogo sempre igual, onde se nota a completa falta de estudo do adversário na eterna esperança de que as coisas corram bem porque se escolheu um 11 que no papel parece ser o melhor que o plantel pode formar. A raposa está velha e não percebe que para ganhar os jogos todos é preciso conhecer os adversários todos, tentar anular os seus pontos fortes e explorar os fracos.

Sabemos que se marcar um golo vai dar o jogo ao adversário à espera de defender tão magro pecúlio, esquecendo que há uma regra básica do futebol que diz que enquanto nós tivermos a bola e a mantivermos o mais possível longe da nossa área não haverá golos na nossa baliza. Não percebe o treinador que se a bola andar sempre a rondar a nossa área a probabilidade de golo será maior. E depois pensa que todos os golos adversários resultam de ingenuidades dos jogadores do Benfica.

Sabemos que por mais mal que o jogo esteja a correr o treinador não fará nenhuma alteração na estrutura da equipa de forma a torná-la mais agressiva e acutilante. Substituirá sempre e em qualquer caso o Geovani pelo João Pereira, O Nuno Assis pelo Bruno Aguiar e o Nuno Gomes pelo Karadas.

Sabemos que o Nuno Gomes é o melhor avançado que o Benfica tem, apesar de ainda não ter aprendido a receber uma bola.

Sabemos que haverá dezenas de pontapés bombeados para o avançado. O que é totalmente inútil quando o avançado não tem ninguém num raio de 30 metros e tem a qualidade técnica de um Karadas.

Sabemos que o Manuel Fernandes vai rematar uma ou duas vezes ao lado, que o Quim vai socar a bola em todos os cantos, cruzamentos e afins. Sabemos que o Geovani vai estar gasto aos sessenta minutos.

Sabemos que o avançado vai andar ali perdido na frente, completamente sozinho e a pensar como curar tamanho isolamento.

Sabemos que o Benfica vai sempre tentar marcar um livre antes de o árbitro apitar. A única ratice (e já gasta) que a velha raposa ensinou ao jogadores.

Sabemos muito mais coisas, mas eu agora não tenho tempo de as escrever todas. E quando digo sabemos, digo sabemos todos os que vemos futebol, inclusive os adversários.

E são demasiadas coisas para se saber. É facilitar muito a vida do adversário. Não admira que o Benfica perca pontos atrás de pontos.

Intimissimi

Desde a semana passada, e devido ao aparecimento da nova e muito bem esgalhada campanha publicitária da intimissimi, caem aqui no meu blogue dezenas de caramelos que vêm do google, yahoo e afins à procura de “intimissimi”, “intimissimi outdoors”, “intimissimi portugal”, intimissimi 2005”, etc. Tudo por causa deste singelo post que escrevi há tempos.

A todos vós, ávidos pesquisadores tenho a dizer que vos compreendo. E vou ajudar-vos. Eu sei o que vós quereis e por isso vou dizer-vos que aquela menina com ar tão perversamente inocente que aparece nos outdoors da campanha de 2005 com aquele conjunto tão branquinho e tão lilasinho e tão cheio de lacinhos é uma manequim brasileira de 22,23 anos chamada Ana Beatriz Barros.

Devo dizer-vos também que apesar do óbvio bom-gosto da campanha, esta está ainda a milhas da protagonizada pela lindíssima Josie Maran aquando do lançamento da colecção outono-inverno 2003.

Mais, informo-vos que se estiverem interessados em comprar a lingerie tão deliciosamente exposta nos supracitados outdoors podem ir às lojas da intimissimi, que começam a abundar em Portugal

Mas antes, deveis saber que a intimissimi faz parte de uma marca maior a que chamam calzedonia. Digamos que intimissimi está para a calzedonia como a yorn está para a vodafone, é uma espécie de filha jovem, bonita, com as faces ainda lisas, decotes mais arrojados e danadinha para a bincadeira. Por isso, pode ser que tenham de recorrer à calzedonia para encontrarem a intimissimi.

Isto sabendo, sabei também que se estiverdes em Braga podeis encontrar uma loja na rua do Souto, uma rua muito central e de fácil acesso e visibilidade. Em Lisboa, tendes a loja à entrada do Atrium Saldanha. Penso que há também uma nos armazéns do Chiado mas não me arrisco a pôr toda a certeza nisso.

Por último deixai-me dar-vos umas dicas para a pesquisa destas coisas. Se calhar, procurar “outddors da intimissimi” ou só “intimissimi” não é suficiente. O que vós quereis é saber o nome da manequim que enverga aqueles farrapos tão bem amanhados. Se calhar, escrever as coisas em português “anuncio intimissimi” também não é lá grande ideia.

Claro que podeis sempre procurar em inglês e, até, obter resultados, mas como deveis calcular, intimissimi e calzedonia são nomes italianos, e é muito possível que seja da Itália que as ideias surjam. Por isso, por que não usar o italiano? Podeis tentar “modella intimissimi 2005”, “campagna publicitaria intimissimi 2005” ou variantes usando calzedonia. Experimentai.

E pronto, se tiverdes perguntas, disponde, mas por ora vos deixo esperando ter sido útil.

And it beats me, but I do not know*

E já ouviram Joanna Newson? Não?! Estão à espera de quê? O álbum chama-se "The milk-eyed mender".

"En Gallop", Joanna Newson

"Salí de los infiernos, pero lo hice cantando''*

Há tempos disse que um dia escreveria aqui todas as letras de todas as canções da Chavela Vargas. Não era uma promessa, era um objectivo. De qualquer das maneiras hoje tenho aqui esta:

EN EL ULTIMO TRAGO

Tómate esta botella conmigo
en el último trago nos vamos
quiero ver a qué sabe tu olvido
sin poner en mis ojos tus manos
esta noche no voy a rogarte
esta noche te vas que de veras
que difícil trata de olvidarte
y que sienta que ya no me quieras

Nada me han enseñado los años
siempre caigo en los mismos errores
otra vez a brindar con extraños
y a llorar por los mismos dolores

Tómate esta botella conmigo
en el último trago me dejas
esperamos que no haya testigos
por si acaso te diera vergüenza
si algún día sin querer tropezamos
no te agaches ni me hables de frente
simplemente la mano nos damos
y después que murmure la gente

Nada me han enseñado los años
siempre caigo en los mismos errores
otra vez a brindar con extraños
y a llorar por los mismos dolores

*Chavela Vargas depois de recuperar de 12 anos de abuso do álcool.

... you will hear my heart, at that second you'll be complete...*

"What makes cancer tenacious?

The moon rules the fluids
Including the inner juices of human beings
That which assimilates and feeds the body
So the crab feeds his astral plane
Assimilating and distributing all he receives
Slowly, until it becomes a part of you"**

*Dj Shadow, high noon

Leitura de hábitos

A distribuição dos jornais gratuitos Metro e Destak veio, sem dúvida, aumentar o arremesso de papéis para os chãos das ruas e de outros locais públicos de Lisboa.

É só fazer as contas

A primeira coisa que disseram no dia de eleições , mesmo antes de poderem mostrar as projecções, foi que a abstensão fora a grande derrotada. Veio a verificar-se que cerca 35% dos eleitores se abstiveram.
Ora, se considerarmos correctos os números do Público, que diz que temos cerca de 8,8 milhões de eleitores, verificaremos que foi 3 milhões e mais uns pózinhos o número de portugueses que não votou. Depois, basta fazer as contas para percebermos que foram pouco mais de 2,5 milhões as pessoas que votaram PS. Ou seja, para uma maioria absoluta basta ter o voto de um quarto dos portugueses.
3 milhões é mais do que 2,5 milhões. A abstenção não foi derrotada.

Esperem, esperem

Assim é que é:

Joaninha aboa aboa...

Eu sou de Braga.

E depois do adeus

Joaninha avoa, avoa...

razão tem o dylan.

Olha que não

Se toda a gente concorda, eu discordo. Não há paciência para unanimidades. Nem, tão-pouco, para unanimismos.

Sim, estou a falar de mim

Às vezes sabe bem ser bem-parecido.

Neologismos

Pois é! Parece que houve uma virança* à esquerda. Que Deus os proteja.

*Ana Drago, jovem bem pensante, deputada e produtora de neologismos.

19 anos

Joana fala assim da sua primeira vez:
- Foi boa.
- Gostaste?
- Gostei.
- Foi difícil?
- Não.

Reportagem da antena 1 sobre a Joana e o João, um jovem casal de namorados de Setúbal que nunca tinha votado antes.

Padrão

Eu tinha dezanove anos. Ela, um biquíni com padrão toalha de mesa de restaurante típico, e um corpo que, em conluio com o sol, lhe perdoava tamanha desfeita. Um corpo que, aliás, não levaria nenhuma ofensa a sério.
Eu tinha um banco de trás espaçoso. Ela, um apartamento na praia e um guarda-sol amarelo.
Eu tinha um futuro à minha frente. Ela, uma face que Machado de Assis não descreveria tão bela.
Eu tinha cinco meses de férias. A ela restavam-lhe cinco dias.
Ela tinha tudo. Ela era tudo.
Por momentos também eu tive. Por momentos fui. Tudo.

Dia de reflexão

Hay gobierno? Soy contra.

Dia de reflexão

Claro que se eu fosse de Santarém, e por razões boas de se ver, não teria qualquer dúvida sobre onde meter a cruzinha.

Dia de reflexão

Chegámos ao ponto em que, à boa maneira Saramaguiana, há cartazes nas ruas a apelar ao voto em branco. Ou seja, parece que já temos o partido do voto em branco. Pelos vistos, em 2005 é muito in votar em branco.
Dizem eles nos cartazes: Não te abstenhas, participa. Vota em Branco.
É um voto de protesto, dizem. Tenho dúvidas. Se quisermos protestar talvez seja melhor optar pela via anarquista e não ir, sequer, depositar o voto na urna.
Ou então, votar partido humanista. Afinal, é o outro lado da política que promete, entre outras coisas muito bonitas, impulsionar a liberdade de pensamento, para além dos limites impostos pelos preconceitos estabelecidos em cada época como verdades absolutas.

Défice

"Depois, descendo para a rua Nova do Almada, contou o caso da Adosinda. Fôra no Silva, havia duas semanas, estando elle a cear com rapazes depois de S. Carlos, que lhes apparecera essa mulher inverosimil, vestida de vermelho, carregando sensatamente nos rr, mettendo rr em todas as palavras, e perguntando pelo snr. virrsconde... Qual virrsconde? Ella não sabia bem. Erra um virrsconde que encontrrárra no Crrolyseu. Senta-se, offerecem-lhe champagne, e D. Adosinda começa a revelar-se um sêr prodigioso. Fallavam de politica, do ministerio e do deficit. D. Adosinda declara logo que conhece muito bem o deficit, e que é um bello rapaz... O deficit bello rapaz - immensa gargalhada! D. Adosinda zanga-se, exclama que já fôra com elle a Cintra, que é um perfeito cavalheiro, e empregado no Banco Inglez... O deficit empregado no Banco Inglez - gritos, uivos, urros! E não cessou esta gargalhada continua, estrondosa, phrenetica, até ás cinco da manhã em que D. Adosinda fôra rifada e sahira ao Telles!... Noite soberba!"

QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. 1.ed. Porto : Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1888. 2v.

Mas quais?

Vejo nos cartazes do CDS que Portugal precisa de convicções. Olho, olho e volto a olhar mas não está lá escrito mais nada. Portugal precisa de convicções, tudo bem, mas quais? É que eu consigo pensar a 1354673894029038323445843545452454 convicções que não fazem falta nenhuma a Portugal.

Leio nos jornais e oiço nas rádios o Paulo Portas a dizer que Portugal precisa de um choque de valores. Continuo a ler, continuo a ouvir, mas o homem muda de assunto. Portugal precisa de um choque de valores, tudo bem, mas quais? É que eu consigo pensar em 4328642319854329807345430987 valores que não fazem falta nenhuma a Portugal.

Parece que o CDS pensa que Portugal não precisa de bons entendedores. Afinal de contas, meia palavra basta.

Se calhar

Convém, se calhar, explicar a ausência.
O caracol pensava ser perfumado. Mas, há não muito tempo começou a ter dúvidas. Todos os dias, o caracol via nas revistas, na televisão, nos outdors:
- A nova fragrância de Calvin Klein.
- Boss, a tua fragrância, as tuas regras.
E outros exemplos mais.
O caracol sabia que estavam a falar de perfumes. Mas não o diziam. E por isso, o caracol ficou com dúvidas. Com dúvidas existenciais.
E tinha tantas dúvidas
que olhando prá televisão
batia ligeiro
o seu coração.
Por isso, parou. Parou para pensar. E perguntava-se:
- Serei eu agora o caracol fragrante?

Claro que isto eram mariquices demais, por isso deixou-se de merdas e aqui está de novo.

Por ora

"Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas carnes, súbito mostradas."

Camões

Getting back

to where I once belonged.

Pausa







































Para inglês ver

Fui à faculdade tomar o pequeno-almoço. Eu curto ir à faculdade tomar o pequeno-almoço. Tem sempre gente com aquele ar de quem ainda está a acordar e quase sempre coisas giras para se ver.

Hoje vi lá, num daqueles quadros para afixar anúncios com pioneses, uma oferta muito peculiar. Tratava-se de um anúncio de um carro usado. E estava em inglês. Rezava mais ou menos assim: For sale: Citroen (sem acento) AX TRE, perfect to travel and to go to the beach. 650 euros.

Tivesse eu dinheiro! Telefonava a quem ideou tão brilhante anúncio e comprava a carripana.

Não é só uma carinha laroca


Esta miúda tem muito que se lhe diga.
Oucam-se os discos. Posted by Hello

I’m only here for this moment

E, se calhar, já é altura de pôr aqui a canção que mais ouço. É do Jeff Buckley. Quer dizer, acho que não é dele. Mas a que eu ouço é ele que canta. E é na voz dele que fica perfeita.

Tem um título perfeito no (des)equilíbrio entre amor, ciúme e desejo. Poderemos amar alguém que not everybody here wants?

Podia ir com dedicatória, mas não vai. Vai mesmo assim.


Everybody here wants you

Twenty-nine pearls in your kiss
A singing smile
Coffee smell and lilac skin
Your flame in me

Twenty-nine pearls in your kiss
A singing smile
Coffee smell and lilac skin
Your flame in me

I’m only here for this moment

I know everybody here wants you
I know everybody here thinks he needs you
I’ll be waiting right here just to show you
How our love will blow it all away

Hmm, such a thing of wonder in this crowd
I’m a stranger in this townYou’re free with me
And our eyes locked in downcast loveI sit here proud
Even now you’re undressed in your dreams with me

Oh, I’m only here for this moment

I know everybody here wants you
I know everybody here thinks he needs you
I’ll be waiting right here just to show you
How our love will blow it all away
I know the tears we cried

Have dried on yesterday
The sea of fools has parted for us
There’s nothing in our way
My love

Don’t you see, don’t you see?
You’re just the torch to put the flame to all our guilt and shame
And I’ll rise like an ember in your name

I know I, I know I
I know everybody here wants you
I know everybody here thinks he needs you
I’ll be waiting right here just to show you
Oh let me show you
That love can rise, rise just like embers

Love can taste like the wine of the ages, oh babe,
And I know they all looks so good from a distance
But I tell you

I’m the oneI know everybody here, well, thinks he needs you
Think he needs youAnd
I’ll be waiting right here just to show you.

Mil e quatro

"Todos trazemos connosco, desde toda a eternidade, o arquétipo da mulher que procuramos na vida. Mas iludimo-nos sempre porque o não conhecemos. Há os que não desistem de o encontrar até à conta máxima que se conhece e que é a dos mil e três. E há os que se conformam com uma aproximação. São os chamados homens felizes."

Vergílio Ferreira, Pensar

Por outro lado

Está a dar um filme com a Michelle Pfeiffer na televisão. Por isso não vou partilhar mais dos meus acutilantes insights com vocês apesar de reconhecer que estou cada vez menos certo de que sou um gajo inteligente.

Sopa e outros caldos

Hoje fui comer uma sopa a um grande espaço comercial. Na mesa adjacente à minha estavam três jovens moçoilas a falar, pasme-se, de vibradores. Uma delas tinha usado um há pouco tempo pela primeira vez e parece que a experiência não tinha sido particularmente entusiasmante. Estavam por isso as outras duas, com ar de entendidas, a explicar-lhe a melhor maneira de o "fazer deslizar", de o "inserir" de forma a que a primeira pudesse realmente "senti-lo". E falavam como se mais ninguém estivesse por perto - estava eu -, sem baixar o tom de voz para além do inteligível, com o à vontade de quem dá uma receita de um arroz de gambas. A conversa das miúdas caiu depois, não sei por que associação de ideias e com o mesmo tom despreocupado e casual, no famigerado tsunami asiático.
Eu fiquei a pensar na abertura destas meninas. A pensar se vivem num estranho e restrito mundo de gente sem complexos e tabus, ou se será já assim o mundo das mulheres modernas e sofisticadas.
Reparei, por outro lado, que nenhuma delas olhou para mim segunda vez depois de me ter vsito passar. Algo terrivelmente raro e pouco natural em meninas em idade casadoira e que é capaz de explicar alguma coisa.

Vá pelos seus dedos

O Paulo Portas quer que o CDS (ainda é PP?) seja, nas próximas eleições, um partido de dois dígitos. Desde que entre esses dois dígitos haja uma vírgula e desde que o primeiro dígito seja menor do que o segundo, por mim tudo bem. Espero, muito sinceramente, que consiga tal desiderato.

Got my mojo working


O espaço onde o ambiente, luminoso, intimista, sedutor e prazenteiro conhece a música, selvática, pura, provocante, de beleza intemporal. O espaço onde os dois se envolvem num cadenciado tsunami de emoções e ideias que devasta e desafia todas as convenções estéticas, espirituais e intelectuais.

Posted by Hello

Era uma vez um lindo dia

Sem mais.

O caracol também subscreve

Por baixo.

Lembro-me por exemplo

Tenho muita pena que neste final do ano se fale em tops de música, de concertos, de filmes, de muita treta, e não se dedique um espaço, mesmo que pequeno, a um gajo chamado Devendra Banhart. Um gajo que esteve em Portugal no Festival para Gente Sentada a dar um fantástico concerto regado com moscatel e vinho do porto. Um concerto pleno de boa música, de muito humor, de público entusiasta. Um concerto a que poucos assistiram e de que poucos falam. Poucos mas bons, diga-se. (Lembro-me, por exemplo, de um chabala lindíssima com um cabelo loiro e singelo rabo de cavalo. Com olhos verdes e casaco de malha a condizer. Com as mãos constantemente nos bolsos (estava frio) e sorriso ladino.) Um concerto que proporcionou a todos os poucos que assistiram "A real good time, good time, a good time"*.
E eu tive pena que mais gente não tivesse aparecido. Porque estamos a falar de um gajo que lançou há não muito tempo uma pérola chamada "Rejoicing in the Hands". Um compêndio de bom gosto musical, de originalidade, de não ter medo de arriscar, de fazer o que lhe apetece, e de, ainda assim, reconhecer e integrar o passado. Porque estamos a falar de um gajo que já este ano lançou outro grande álbum "Niño Rojo". Álbum, onde mais uma vez a crística figura usa a sua muito singular voz para fazer canções cheias de ternura, humor e homenagem à música e ao folk em particular.
Mas ninguém diz nada. São tops cheios de pretensiosismo, de imediatismo, dos franz ferdinands e scissor sisters da vida. Pois, se calhar o folk não está na moda. Se calhar o Devendra é muito pouco convencional. Se calhar haverá pessoas que acham que aquilo é um gajo que com uma voz ridícula a tentar emular os seus predecessores. Se calhar o nome é difícil de pronunciar. E tudo isto é uma pena. Porque, definitavamente, vale a pena ouvir Devendra Banhart. E, definitivamente, os seus discos cabem em qualquer antologia, por mais pequena que seja, da música feita em 2004.
*Devendra Banhart, This Beard Is For Siobhán, em Rejoicing in the Hands

De mis lábios está brotando sangre

Um dia qualquer transcrevo aqui todas as letras de todas as canções cantadas pela Chavela Vargas. Não vai ser hoje. Pena tenho de não poder transcrever a interpretação.

No me digas que no lloraste algunas noches que estuve lejos

Se me hizo facil

borrar de mi memoria*. E a verdade é que estou de férias e nao faço nem mais um C com 6 asteriscos em 2004.

*Chavela Vargas

E o Benfica vai a prolongamento com o Oliveirense na Luz

Por muito que me custe vou ter de dar razão ao Aníbal. Está, de facto, desinteressante a vida política nacional. Muito maus actores, são eles todos. Agora vem o Santana dizer que, sobretudo, tem muito amor a Portugal. Mal ele sabe que o amor tolda as vistas.

Untitled post

Que bem empregue tempo

Hoje fui à cinemateca depois do trabalho tomar um cafezinho. Que bem empregue tempo. Ao entrar na sala das escadinhas que sobem para o bar dou de caras com a Michelle Pfeiffer. Linda. Uau.
Era uma fotografia. Mas fiquei contente na mesma.

A ouvir com insistência

E já com saudades do próximo episódio.

Woke up this morning

You woke up this morning
Got yourself a gun,
Mama always said you'd be
The Chosen One.

She said: You're one in a million
You've got to burn to shine,
But you were born under a bad sign,
With a blue moon in your eyes.

You woke up this morning
All the love has gone,
Your Papa never told you
About right and wrong.

But you're looking good, baby,
I believe you're feeling fine, (shame about it),
Born under a bad sign
With a blue moon in your eyes.

You woke up this morning
The world turned upside down,
Thing's ain't been the same
Since the Blues walked into town.

But you're one in a million
You've got that shotgun shine.
Born under a bad sign,
With a blue moon in your eyes.

When you woke up this morning everything you had was
gone. By half past ten your head was going ding-dong.
Ringing like a bell from your head down to your toes,
like a voice telling you there was something you should
know. Last night you were flying but today you're so low
- ain't it times like these that make you wonder if
you'll ever know the meaning of things as they appear to
the others; wives, mothers, fathers, sisters and
brothers. Don't you wish you didn't function, wish you
didn't think beyond the next paycheck and the next little
drink' Well you do so make up your mind to go on, 'cos
when you woke up this morning everything you had was gone.

When you woke up this morning,
When you woke up this morning,
When you woke up this morning,
Mama said you'd be the Chosen One.

When you woke up this morning,
When you woke up this morning,
When you woke up this morning,
You got yourself a gun.


Alabama 3

Oh

Vou mas é ver os Sopranos.

Amor com humor se paga

Há tempos, tempos longínquos, enviei à mais bela das moças uma sms que dizia:

Atirei c'o pau ó gato-to
Mas o gato-to não morreu-eu-eu
Dona Chica-ca admirou-se-se
C'o berro, c'o berro c'o gato deu
Miaaau!

Não passaram dois minutos até que a tão graciosa menina respondesse:

Sentada na chaminé-é-é
Veio uma pulga-ga
Mordeu-me o pé-é-é
Ou ela chora-ra
Ou ela grita-ta
Ou vai-te embora-ra
Pulga maldita-ta.

Além de linda, era esperta, a miúda. E tinha piada, muita piada!

What type of lover are you

Também eu decidi fazer um teste destes

Feeling Dangerous?
Dangerous

What Type of Lover Are You?

Futuro

Sorriu para mim como que dizendo olá. Com os olhos dizia:

- Já sei que não tiras os olhos de mim, miúdo. Mas descansa, também eu reparei em ti.

Tu és minha

Eu dizia nunca me hei-de apaixonar
E trazia o coração fechado sete chaves
Porque sabia que do amor à saudade
O caminho está gasto de ser tão pisado

Mas um dia ao ver-te passar
Perdi a esperança com um só olhar

Por isso quero-te dizer
Que aconteça o que acontecer
Tu és minha
E que mesmo sem te ver
Estejas com quem estiveres
Sem mim vives sozinha

Eu só queria andar de flor em flor
Sem nunca fazer promessas de amor
E dizia com uma certa vaidade
Que o homem é filho da liberdade

Mas um dia ao ver-te passar
Perdi a voz com um só olhar

O destino ninguém sabe
É esse o nosso maior fado
Mas eu fui abençoado
Nasci para viver a teu lado

Ovelha Negra, por este andar ainda acabo a morrer em Lisboa

O maior desejo da boca é o beijo*

As repostas:

as letras que compõem esta palavra variam tanto quanto o idioma em que a pronuncias. Cinco letras serão para ti...mas o que são essas cinco letras se não está presente o calor dos lábios que beijam?
Poderás escrever o teu beijo de tal forma que ao olhar todas essas letras sinta o sabor dos teus lábios?...
miúda zita

*Zeca Baleiro, Bandeira


Tão querido

Eu sou um querido. Ou, pelo menos, é o que me dizem meninas bonitas e meninas não-bonitas, meninas em idade casadoira e meninas em idade divorciadora. Houve tempos em que eu achava graça a ser querido. Tempos idos. Gostavam de mim, pensava eu. E não me enganava. Gostavam, de facto. Tal como gostam do seu querido ursinho de pelúcia. Ursinho que, pelo menos, ia para a cama com elas e as acompanhava no sono.

Hoje, não gosto muito quando dizem que eu sou um querido. Melhor, não me importo que as meninas não-bonitas mo digam. Mas chateia-me quando as que são giras ou bonitas ou lindas ou simplesmente boas boas boas o fazem. E chateia-me porque sei que, se o fizerem, o mais certo é eu ficar com imensa raiva do abominável ursinho de pelúcia.

Tentando alcançar assim a verdade tão mal contada, perguntei a uma amiga se seria bom ou mau ser querido. Disse-me ela que, de facto, a linha entre ser querido e um chato do caraças é muito ténue, mas que em princípio ser querido não é mau. É uma cena fixe.

Sabendo eu que não ser mau não é o mesmo que ser bom e não querendo correr o risco de poder ser chato, disse-lhe com convicção que iria deixar de ser querido nem que para isso tivesse de ser frio e cruel.

Ela, com um sorriso terno e sincero, retorquiu fatalmente:

- Ó caracol, mas tu és querido, o que é que se há-de fazer.

O Cristo do Supermercado

"É Natal! Tempo de consumo!
são chegados os dias de comprar!
Cristo vai nascer mais aconchegado
no presépio de Moisés & Companhia
erguido ao canto do supermercado:
entre aviões, comboios e metralhadoras,
soldados, blindados, foguetões,
bonecos que falam, que choram e que andam,
e brinquedos de pilhas - pilhas de brinquedos!
Não terá frio: o ar está aquecido
e vestirá seu confortável "baby-grow".
Beberá leite puro, garantido
(tratado em multinacional),
por biberão esterilizado,
mantido à temperatura ideal.

Passar-lhe-ão em frente multidões:
uns sem vê-lo, outros só para olhá-lo,
alguns apreçando-o, para comprá-lo.
E tantos ficarão em casa, ainda este ano,
a sonhar: - Talvez para o ano,
se tudo correr bem.
Trinta moedas chegarão,
ou será mais?...
Com esta inflação!...

Não fazem falta as estrelas
para guiar os homens até ali...
Milhares de luzes acendem e apagam
em ritmo alucinante!
As letras de "néon" escrevem, multicolores,
as mensagens do tempo de Natal
e de consumo:
"Conheça o amor em colchão Alfa!"...
"Tenha fé - ganhará, no Totobeta, uma fortuna!"...
"Não precisa de caridade -
compre a crédito, se Eureka é o seu banco!"...
"Quer gozar a alegria dete mundo?
Veja dois filmes de Charlot pelo preço de um!"...
"A pureza está na água da mesa Delta!"...
"Você será mais bela que a beleza
com creme de limpeza Miú!"...
Não falta, sequer, a vitória sobre a morte:
"Soro Ómega, segredo da eterna juventude!"...
Nem tudo o que é preciso para ser senhor do mundo:
"onde quer que vá, do Alaska à Antárctida,
a Agência Ró pode servi-lo!"...

Também não fazem falta os sinos,
a anunciar aos homens ele virá...
Pobre bronze dos sinos de tão nobre catedral,
com menos de cem decibéis por badalada,
ao pé das colunas sonoras, gigantecas,
com que a electrónica atordoa os ares!...
Tocam agora a "Noite Silenciosa, Noite Branca",
no meio daquele ruído infernal!
(Fá-lo-iam, ainda que a noite fosse quente e tropical!)
Em suas casas,
as pessoas ouvirão mais canções de paz,
porque as guerras pararam por um dia...
Um dia - o tempo necessário
para cumprir o mandamento: "Comprarás"!

É Natal!
Há multidões nas ruas,
que se acotovelam, se chocam e empurram,
com milhares de embrulhos coloridos,
de coloridas fotas a enfeitá-los.
Como os embrulhos mudaram as pessoas!
Todas viraram comunicativas,
alegres e sensíveis,
ao pensarem nas prendas que vão dar,
cheias de amor talhado por medida:
desse amor evidente, tilintante,
bem disposto e embalado
que inspira o Cristo do Supermercado!

Para festejar o cristo dos presentes,
as famílias - todas as famílias -
vão imolar o seu cordeiro
na mesa-altar de cada templo-lar.
Para ser exacto não se trata de cordeiro:
será peru, para uns: para outros, simples frango;
para outros, ainda, resto de galinha
retirado da mesa dos demais.
Se for peru, porém, a festa é de rigor:
recheado, regado com espumante,
será trinchado e mastigado~
com apetite de quem passou um ano
a devorar coisas banais e indiferentes,
à espera do Natal!

... ... ... "

Rui Martins dos Santos, O Cristo do Supermercado & Outros Poemas


Voltaram

Já estava com saudades dos outdoors da intimissimi.

Fórmulas

"A minha forma de fazer política" é, geralmente, uma introdução tosca para uma proposição mentirosa.

Spread the love vibration*

ah, ah*

*Josh Rouse

Escadas rolantes

No outro dia ia a subir as escadas rolantes do metro do Saldanha e reparei que havia uma certa falta de consciência social das pessoas. E reparei porque, nos países onde há consciência social, as escadas rolantes têm espaço para as pessoas que andam e para as pessoas que ficam paradas. Nas escadas rolantes dos países com consciência social, as pessoas que querem ficar paradas e seguir "coasting" encostam-se à direita, ao passo que as pessoas que querem progredir mais rapidamente seguem pela esquerda. Nas escadas rolantes como na vida...

Pastilhas

Hoje em "The Independent"

"The Government has spent £60,000 to find out why people chew gum and why they spit it on to the pavement, with a view to working out how to persuade them not to."

Fiquei em casa

Queria ver os Sopranos. Não deu. Ninguém me avisou. Pus-me a reler umas coisas. E a ouvir Re:Jazz e Chavela Vargas e Devendra Banhart e Tom Waits e Nouvelle Vague e Gil Scott Heron e Parliament e Clara Nunes e Jeff Buckley e as Doce. Bem bom.

e mais... e melhor

“a linha curva é a lei da graça feminil. Mendonça o sentiu, contemplando o busto de Helena e a casta ondulação da espádua e do seio, cobertos pela cassa fina do vestido. A moça estava um pouco inclinada. Do lugar em que ficava, Mendonça via-lhe o perfil correcto e pensativo, a curva mole do braço, e a ponta indiscreta e curiosa do sapatinho raso que ela trazia. A atitude convinha à beleza melancólica de Helena. O rapaz olhava para ela sem movimento nem voz.”
Machado de Assis

"Mas Deus nos livre de penetrar no Santuário de tão peregrinas inteligências"*

E já que estou em maré de citações, aqui ficam mais algumas frases que registei enquanto lia umas coisas sobre a língua.

"Sendo a língua o veículo de ideias, quando não for bebida na veia mais límpida, mais cristalina, mais estreme, não verterá estreme, cristalino, límpido o pensamento de quem a utiliza"
Rui Barbosa


"A palavra opera sobre a ideia, ou disfarçando-a ou acentuando-a."
Eça de Queirós


"O estilo é uma permanente criação pessoal.(...) Ver com os seus próprios olhos, sentir com os seus próprios sentidos deverá ser a divisa de todo o aprendiz de redacção"
Rodrigues Lapa


"Hipótese sem valor morfológico, não pode figurar como postulado. Semanticamente admite-a quem se deixa fascinar pela nebulosidade metafísica ou quem ao estudo estrictamente científico prefere a estrada batida da indolência intelectual"
Said Ali

* Said Ali

The Ultimate in Decadence*

"Fumar é coisa cheia de rusticidade e natureza. Essa transformação de uma erva seca em fumo odorizante vivo, fertilizante, não é desprovida de significado."**

*Plágio escandaloso da descrição do mais caro cocktail do Cinco Lounge, novo bar no Bairro Alto.
**Alguém o disse. Não fui eu. Não sei quem foi. Mas fica registado.

"O bem defende-se mal"

Foi então que Vlad disse aquilo:

"A verdade é improvável."

Sorriu num relâmpago. "A mentira", explicou, "está por toda a parte. A própria natureza mente. O que é a camuflagem, por exemplo, senão uma mentira? O camaleão disfarça-se de folha para iludir a pobre borboleta. Mente-lhe dizendo, 'fica tranquila, minha querida, não vês que sou apenas uma folha muito verde ondulando ao vento?' - e depois atira-lhe a língua, a uma velocidade de seiscentos e vinte e cinco centímetros por segundo, e come-a".

Ahasverus ficou em silêncio, atordoado pela revelação e pelo distante fulgor do mar. (Sim, e igualmente pelo medo). Lembrou-se de Ricardo Reis:

"Abomino a mentira porque é uma inexactidão."

O outro reconheceu imediatamente as palavras do poeta português. Considerou-as um instante, medindo-lhes a luz e o sabor:
"Também a verdade costuma ser ambígua. Se fosse exacta não seria humana"

Ganhava animação à medida que falava: "Existem dezenas de profissões nas quais saber mentir é uma virtude. Estou a pensar nos diplomatas, nos estadistas, nos advogados, nos actores, nos escritores, nos jogadores de póquer. Indica-me agora uma profissão, uma única, que não se socorra nunca da mentira, e na qual um homem que apenas diga a verdade seja efectivamente apreciado?"

Ahasverus sentiu-se encurralado. O bem defende-se mal. Um dia vira na televisão um jogador de basquetebol, um tipo ingénuo, a queixar-se dos jornalistas:
"Às vezes eles escrevem aquilo que eu disse, e não aquilo que eu queria dizer."

José Eduardo Agualusa

Azul

Não sei como imaginas o céu, mas para mim é algo parecido com uma sessão de yoga permanente.
E isso não é bonito.

Mensagens

Às vezes pergunto-me o que leva a que as mesmas pessoas, nas mesmas circunstâncias e perante a mesma (falta) de urgência de resposta mandem umas vezes mensagens de e-mail e outras vezes mensagens de telemóvel.
Pergunto-me, mas nunca me respondo.

Voltas

Dizem-me com insistência, e um certo fastio, que o mundo não gira à minha volta. Nunca percebi por que mo dizem, mas, já agora, pergunto:

- Então anda à volta de quem?

Jesus Christ Superstar

Não. Eu não sou Jesus.
Não. Eu não sou Cristo.
Esse gajo nem sequer usava óculos.

Likes

"She likes to touch my curly hair
While she teases me with her eyes.
I want to seat her on an easy-chair
And feel my ears between her thighs."

Edward Oaken, Curly We Stand

Sem mais nem porquê

Só queria dizer que o blogue não é o que sou nem ,necessariamente, o que penso. É apenas o que me apetece dizer de vez em quando. Mais nada.

Julie Delpy

E agora estou a ouvir o álbum Julie Delpy da Julie Delpy, a chabala do Before Night Falls, e estou a gostar.

"She was fifteen when I first saw her"

"I fell in love watching her play tennis the first week of term. She was really just a little thing but she had such grace and fight and she gave a little 'uh' every time she hit the ball. Dear Jesus."

My Life as a Fake, Peter Carey

Pinto da Costa, José Veiga, Dias da Cunha,o Sistema, o Caso Marcelo, as Eleições Americanas, o Congresso do PSD, Arafat, Tudo Aquilo Que Vocês Sabem

Kramer: I think I´m onto something. I think I found your stuff. You know the Englishman who lives down the hall?
Jerry: Yeah.
Kramer: The last couple days he's been acting very strange. I think he's avoiding me.
Jerry: Hard to imagine.
Kramer: Yeah, get this. I just got off the elevator with him and I tested him. I tested him. Like I... this is what I said to him. Like I was like this, (CASUALLY PICKING HIS NAILS TO DEMONSTRATE) "Oh, by the way, I know about the stuff." You know, very casual so he's going to take me into his confidence.
Jerry: Right.
Elaine: So, what did he say?
Kramer: "What stuff?"
Jerry: Oooohhhh. Case closed.
Kramer: You don't understand. You see, he swallowed. See, the guy, he swallowed. Oh, he was nervous about something. Now I'm going to go over there, I'm gonna borrow some tea. You know, if I don't get back in five minutes, maybe you better call the police.
The Robbery, in The Seinfeld Scripts

Das questões, bem entendido

Dizem-me, com ar provocador, que tenho uma maneira esperta de fugir às questões: negando a sua existência (das questões, bem entendido).

Pronto. Está bem. E depois? Não estou a ver o problema.

É uma das minhas conclusões brilhantes, com as quais nunca concordas e que perdem o brilho no momento em que as lês

ou, E tu sempre foste sonhador antes mesmo de dizeres ser anarquista.

- Eu sou um romântico, anarquista, sonhador, com tendências voyeurísticas em relação ao mainstream?
- Por acaso, agora que falas nisso, é verdade. Principalmente a última parte.
- As tendências?
- Sim, com tendências voyeurísticas em relação ao mainstream. Definitivamente.
- Ah, a primeira parte não?
- Anarquista, acho que não. Romântico, incurável.
- Romântico sec XIX, não com a acepção lamechas de hoje.
- Sim, é essa mesma. Definiste-te bem, fora o anárquico. Pode ser até que queiras ser anarquista, mas ainda não conseguiste.
- Então mudavas…
- O anarquista.
- E punhas…
- Em vez de anarquista punha incessante.
- Incessante é que não para.
- Não é só isso.
- Então?
- É mais no sentido de constantemente à procura de, incessante na procura de.
- Hum, hum, sou, portanto, inquieto. Procuro algo.
- Só não sei o quê.
- Nem eu.
- Pois dá para reparar.

Reclames

"Seja infiel, use first". É esta a frase que aparece agora nos autocarros a anunciar um nova marca de pensos higiénicos. Neste reclame (palavra que o Houaiss considera obsoleta mas que era o nome que dávamos aos anúncios de publicidade há uns tempos), eu, que até percebo o que é que o cu tem a ver com as calças, não estou a ver a relação entre a frase e o produto. Alguém me explica?

Helpless, like a rich man's child*

Há uns tempos li uma entrevista da Joan Baez. A Joan Baez é uma cantora folk conhecida pelo seu activismo político, por fazer o favor de desafinar nos concertos que fazia com o Bob Dylan (ouçam “Bob Dylan Live 1975” - talvez o melhor disco ao vivo do Bob essencialmente pelo grande conjunto de canções, que inclui as melhores versões de sempre de “Sara” e “Hurricane”- e quando chegarem a um dos clássicos dyleanos “Blowin’ in the wind” perceberão o que quero dizer) e por, durante algum tempo ter sido a própria Mrs Dylan. Foi por estas duas últimas razões que eu li aquele conjunto de perguntas e respostas.

A última pergunta era sobre o Bob Dylan. E o que dizia a senhora? Dizia que não o conhecia , que nunca o conhecera, que cria que nunca ninguém o tinha conhecido nem o iria conhecer.

Não foi totalmente surpreendente a resposta. Elas (generalização quase-abusiva) gostam de saber, de conhecer, de perguntar e, por mais prolixa que for a resposta, vão sempre dizer que não nos conhecem, que precisam de saber mais. Esquecem-se muitas vezes que se calhar não há mais nada para saber. Que o facto de não se ter nada a esconder não quer dizer que se tenha alguma coisa a revelar.

O que me surpreendeu foi a resignação e a soberba patentes na resposta. Resposta que faz do autor de "Blonde on Blonde" aquilo que toda a gente pensa que ele é, mas ainda com mais obstinação. Não faz o que não quer, e isso nota-se nos seu discos e nas grandes canções que fez nos anos 60 e 70 (ouça-se, por exemplo, o "Live 1966" ou "Blood on the tracks").

Eu, que já gostava das canções do Bob Dylan, passei a ouvi-las com mais assiduidade.

* Bob Dylan, Temporary Like Achilles, in Blonde on Blonde

Como se dá a sequência das vivências psicóticas?

Estava a ler umas coisas sobre esquizofrenia e fiquei a saber que existiam vários subtipos clínicos.Temos a esquizofrenia Paranóide, que ocorre tardiamente (por volta dos trinta) com predomínio do quadro delirante e alucinatório. Por sua vez, a Desorganizada (hebefrénica), ocorre precocemente e caracteriza-se pelos afectos incongruentes, embotados ou inadequados e pela perturbação das associações, gerando discurso incoerente. Já a Catatónica distingue-se pelo estupor, excitação, negativismo, mutismo, posturas patológicas, rigidez, flexibilidade cérea e obediência automática. A minha preferida é a Indiferenciada, que, pasme-se, não tem critérios específicos de classificação. Por último, temos a esquizofrenia Residual, que não apresenta actividade produtiva significativa, sendo que predominam os sintomas negativos a lentificação, o embotamento afectivo, a passividade a pobreza do discurso e a hipobulia.

Para aqueles que não sabem, informo que a esquizofrenia é uma doença mental crónica, que se inicia na idade adulta jovem e que constitui o maior desafio terapêutico em psiquiatria.

Chocolate é bom

- A felicidade não existe, mas existem momentos, palavras, gestos bem mais importantes do que a felicidade constante, plena e chata que se procura.
- Treta. Isso é daquelas frases que saem nos papelinhos dos chocolates.
- Chocolate é bom.
- Então com banana…

Bíblia manuscrita

E o nosso Presidente lá vai andando com a cabeça entre as orelhas, contente por poder aparecer na televisão a fazer porcarias sem significado e que não interessam a ninguém.

Cinco letras

Há dias, em conversa e perante a minha irritabilidade latente, dizia-me a batukada que o que eu precisava era de um grande beijo na boca. Com muita língua.
Não retorqui.

Tendo já tratado a tão mal disfarçada irritabilidade, lembrei-me desta conversa para introduzir a minha defesa do beijo por extenso. Se calhar, depois de lerem o texto alguns dirão que esta não é a melhor introdução para aquilo que eu vou escrever a seguir. Mas é isso mesmo: “eu vou escrever a seguir”. Eu escrevo, logo eu decido qual é a introdução. Se é a melhor ou não, a mais adequada ou não, isso é uma questão totalmente diferente.

Vamos ao beijo por extenso, que é o que realmente interessa. É que há uma coisa que me corrói por dentro, que me deixa inexplicavelmente suspenso na mais pura incompreensão, num sentimento de incompletude inultrapassável. É o beijo abreviado.

É um facto que, hoje, escrevemos mensagens escritas a torto e a direito e e-mails todos os dias. Que participamos em conversas em messengers e chats que nos exigem que sejamos breves e rápidos. Mas, para quê truncar um beijo? O que é um bj, ou um bjo, ou um bjnho? E o que é que são jokas e jinhos? Não ficará melhor um beijo com todas as letras?

Um beijo é um beijo, mas não só. Se lhe tirarmos as letras, tiramos-lhe a ternura, a fofura, o amor, a humidade, o calor, a amizade, o arrepio. Não abreviemos o beijo!

Há tanta coisa para abreviar É o qd, o fac e o spr. É o fds e o fdp. São muitas e muitas palavras. É todo um texto. Mas, por que não deixar 2 segundos, 3 segundos, um minuto para escrever um beijo com cinco letras. Cinco letrinhas apenas.

Para mim é importante. Desculpem a maçada.

Bom tempo Mau tempo

Não gosto nada que me tentem endoutrinar. Nem no que ao tempo diz respeito. Ouço constantemente nos telejornais, no rádio e outros que tais os jornalistas a dizer 'hoje vai estar bom tempo' ou 'hoje vai estar mau tempo' como se isso fosse alguma informação. O que é que é bom tempo, caralho? Faz sol dizem que é bom tempo. Um bocadinho de chuva já é mau tempo. Ora, não me venham dizer que 40 graus à sombra é melhor do que a chuvinha que tem caído nos últimos dias. Porque não é. Aos jornalistas, metereologistas e afins cabe dizer se vai fazer sol, se vai chover, se vai haver nuvens ou vento. Se isso é bom ou mau deixem estar que eu decido. Se têm opiniões que as guardem para eles.

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