caracolperfumado@yahoo.co.uk

T(r)emores

Cada vez mais me convenço de que não tenho os pés bem assentes na terra. Nunca senti um sismo.

A very neat monster


Certo dia, uma amiga muito amiga disse-me que eu podia ser um Dexter, enquanto me dava a conhecer as virtudes da famosa série de televisão. E essa perceção em vez de me assustar ou horrorizar, agradou-me, deu-me prazer. Há pessoas que nos conhecem tão bem!

Maus prenúncios

— Olha, caracol, vou ser sincera, ...

Feitio

Numa relação, há a pessoa que quer que as coisas funcionem e a pessoa que também quer que as coisas funcionem. Dou-me melhor como a pessoa que também quer que as coisas funcionem.

Pé na tábua



Fast palindrome, by Invisble NME



2009

[já houve aqui um post. Fica o vestígio.]

Post Scriptum

Por insistente pedido da batukada, adiro a uma corrente, antes de acabar de vez. Na foto, o meu olho com defeito. O artista é o Tom Waits. Os títulos são:

1) És homem ou mulher? I Don't Wanna Grow Up
2) Descreve-te: I'm Your Late Night Evening Prostitute
3) O que as pessoas acham de ti? Who Are You?
4) Como descreves o teu último relacionamento? Old Shoes (& Picture Postcards)
5) Descreve o estado actual da tua relação: Two Sisters
6) Onde querias estar agora? Way Down In The Hole
7) O que pensas a respeito do amor? A Sweet Little Bullet From A Pretty Blue Gun
8) Como é a tua vida? Better Off Without A Wife
9) O que pedirias se pudesses ter só um desejo? Christmas Card From A Hooker In Minneapolis
10) Escreve uma frase sábia: I Can't Wait To Get Off Work

Ingenio

[...] le preguntó un estudiante si era poeta, porque le parecía que tenía ingenio para todo.
A lo cual respondió:
Hasta ahora no he sido tan necio ni tan venturoso.
No entiendo eso de necio y venturoso dijo el estudiante.
Y respondió Vidriera:
No he sido tan necio que diese en poeta malo, ni tan venturoso que haya merecido serlo bueno.

Cervantes, «El Licenciado Vidriera», in: Novelas Ejemplares

Introdução

Entre as diversas moléstias significativas da minha velhice, o amor aos livros antigos — a mais dispendiosa — leva-me o dinheiro que me sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de pílulas e tisanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me ilustro com os arcaísmos, arruíno o estômago, e enferrujo o cérebro numa caturrice académica.

Camilo Castelo Branco, A Brasileira de Prazins

Embaras du choix

— Até beber cerveja ficou difícil — queixa-se.
— O preço?
— Não. A variedade. O embaras du choix.
— Mas se você já estava acostumado com uma...
— E as novas que aparecem? Em cada Estado surge uma fábrica, se não surgem duas. Cada qual oferecendo diversas qualidades. Você senta no bar de sua eleição, um velho bar onde até as cadeiras conhecem o seu corpo, a sua maneira de sentar e de beber. Pede uma cervejinha, simplesmente. Não precisa dizer o nome. Aquela que há anos o garçom lhe traz sem necessidade de perguntar, pois há anos você optou por uma das duas marcas tradicionais, e daí não sai. Bem, você pede a cervejinha inominada, e o garçom não se mexe. Fica olhando pra sua cara, à espera de definição. Você olha para cara dele, como quem diz: Quê que há, rapaz? Então ele emite um som: Qual? Você pensa que não ouviu direito, franze a testa, num esforço de captação: qual o quê? Qual a marca, doutor? Temos essa, aquela, aquela outra, mais outra, e outra, e outras mais. . Desfia o rosário, e você de boca aberta: Como? Ele está pensando que eu vou beber elas todas? Acha que sou principiante em busca de aventura? Quer me gozar? Nada disso. O garçom explica, meio encabulado, que a casa dispõe de 12 marcas de cerveja nacional, fora as estrangeiras, sofisticadas, e ele tem ordem de cantar os nomes pra freguesia. Até pra mim, Leovigil? pergunto. Bem, o patrão disse que eu tenho de oferecer as marcas pra todo mundo, as novas cervejas têm de ser promovidas. Não mandou abrir exceção pra ninguém, eu é que, em atenção ao doutor, fiquei calado, esperando a dica... Não quis forçar a barra, desculpe.
— E aí?
— Aí eu disse que não havia o que desculpar, ordens são ordens e eu não sou de infringir regulamentos. Os regulamentos é que infringem a minha paz, freqüentemente. Mas para não dar o braço a torcer, nem me declarar vencido pela competição das cervejas, concluí: Leovigil, traga a de sempre.
— Não quis dizer o nome?
— Não. Minha marca de cerveja — "minha garrafa", digamos assim, pois a individualidade começa pela garrafa — passou a chamar-se "a de sempre". Não gosto de mudar as estruturas sem justa causa, nem me interessa dançar de provador de cerveja, entende?
— Mas que custa experimentar, homem de Deus?
— Só por experimentar, acho frívolo. Os moços, sim, não encontraram ainda sua definição, em matéria de cerveja e de entendimento do mundo. Saltam de uma para outra fruição, tomam pileques de ideologias coloridas, do vermelho ao negro, passando pelo róseo, pelo alaranjado e pelo furta-cor. Mas depois de certa idade, e de certa experiência de bebedor, você já sabe o que quer, ou antes, o que não quer. Principalmente o que não quer. E é isso que os outros querem que você queira. Tá compreendendo?
— Mais ou menos.
— Na verdade, não há muitas espécies de cerveja, no mundo das idéias. Mas os rótulos perturbam. Uns aparecem com mulher nua, insinuando que o gosto é mais capitoso. Bem, até agora não vi rótulo de cerveja mostrando mulher com tudo de fora, mas deve haver. Mulher se oferecendo está em tudo que é produto industrial, por que não estaria nos sistemas de organização social, como bonificação?
— Você está divagando.
— Estou. Divagar é uma forma de transformar pensamentos em nuvem ou em fumaça de cigarro, fazendo com que eles circulem por aí.
— Ou se percam.
— E se percam. Exatamente. 0 importante não é beber cerveja, é ter a ilusão de que nossa cerveja é a única que presta.
Sujeito mais conservador! Ou sábio, quem sabe?

Carlos Drummond de Andrade, «A de Sempre», in: De notícias & não notícias faz-se a crônica

Bum

Um rapaz corre de mota numa estrada secundária. O vento bate-lhe no rosto. O rapaz fecha os olhos e abre os braços, como nos filmes, sentindo-se vivo e em plena comunhão com o universo. Não vê o camião irromper do cruzamento...
... Bum!...
Morre feliz. A felicidade é quase sempre uma irresponsabilidade. Somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos.

José Eduardo Agualusa, Seis aforismos amorais.

Perco-me

— Estás apaixonado, caracol?
— Eu não me apaixono, miúda. Eu perco-me de amores.
[...]
— Andas perdido de amores?
— Vai à merda!

Predicações

Tenho vindo a notar em certas moças que à minha volta fazem as suas vidas com certa inconstância o desenvolvimento de um falar eufemístico quando se referem a mim, estando eu presente. Esse falar eufemístico consubstancia-se no uso de um advérbio que modaliza predicações percebidas como (demasiado) elogiosas: é o «até»:
— Até és giro!
— Até és inteligente!
— Os teus caracóis até têm piada!
— Essa t-shirt até te fica bem!
— Até nem te vestes mal!
— Até fazes bom minete!
Tirando esta última, que acredito que seja dita apenas por simpatia, pois, na verdade, nunca sei o que ando ali a fazer (nunca se surpreendam, rapazes, com a generosidade de uma menina que gosta de vocês), todas as outras frases são claros exemplos de um engraçado retraimento, cujo único resultado é a sensação que dá de que não me querem contar a verdade tal como a veem.

Boas horas

Gosto de me deitar tarde. Muito tarde. O silêncio que experimento na Lisboa das três ou quatro horas da manhã permite-me adormecer ao som da água que ouvia a correr quando em criança me deitava na minha cama algures no Minho.

Combinação frequente

Em aulas de tradução, é frequente falar-se de «colocações». Uma «colocação» é não mais do que uma combinação frequente de palavras. E surgem sempre exemplos como o «módica quantia». Esquecem-se sempre, nestas aulas de tradução, de avisar os alunos que não há maior colocação do que «tradução urgente».

Desvio

Não te metas a pau, não! diz-me moça gentil com um sorriso admoestador.
Talvez fosse importante e viesse a propósito o conselho, mas fiquei a pensar Porque é que ela não disse «Não te ponhas a pau»? , e imediatamente me esqueci do que falávamos.

Imensos mas atrofiados

Ler para quê? Leio pouco. Livros que me distraiam? Estou bastante distraído comigo próprio. Nem bem mesmo os livros que me acrescentam o saber, mas os que me acrescentam a mim. Nós somos imensos mas atrofiados. Importam-me assim os livros que desenvolvam o que sou. Quantas coisas ignoramos que somos, apenas porque o embrião disso se nos não desenvolveu até ser visível. Um livro que me acrescente, não que se me acrescente. O que acumulei é muito. O que fui é muito pouco.

Vergílio Ferreira, Pensar

Poderão estragar-se

Leio no jornal que daqui a uns cinquenta anos o verão em Portugal durará seis meses. Não regozijo demasiado porque daqui a cinquenta anos eu estarei no limiar dos oitenta, mas fico com uma pergunta entalada entre as orelhas: o que será dos chocolates da Ferrero? Passarão os Mon Chéri e os Ferrero Rocher a ser doces de Natal apenas?

Publicidade institucional

Quer, como eu, ser capaz de escrever em conformidade com o novo acordo ortográfico, mas não sabe quais são as palavras que sofrem modificações?
Não quer, como eu, escrever em conformidade com o novo acordo ortográfico, mas receia ter de vir a fazê-lo por motivos profissionais e pecisa de saber o que muda?
Quer, como eu, saber quais as palavras que se alteram com o novo acordo ortográfico, mas ter a possibilidade de procurá-las usando a ortografia que sempre conheceu?

Pois bem, como o novo Vocabulário – as palavras que mudam com o Acordo Ortográfico pode fazer isso e muito mais num abrir e fechar de livro. Só nesta fantástica coleção de 80 folhas de papel organizadas por páginas encontra as cerca de 3900 palavras que mudam com o acordo ortográfico de 1990. Vá já à sua livraria. E, se não tiver uma livraria, vá à dos outros.


Não quer saber de ortografia para nada, mas gosta da capa?
Não quer saber de ortografia para nada nem gosta da capa, mas não se importa, uma vez que na estante só se vê a lombada e, afinal de contas, é mais um livro para a coleção?
Vá! Dirija-se à livraria mais próxima.

E isto é coisa que pode levar um certo tempo

Depois de cuidadosa leitura na horizontal, reparei que tinha o blogue cheio de gralhas. Envergonhadíssimo perante tamanha epifania, escondo-o da vossa vista imediata até terminar a missão de gralhas buster que vou iniciar logo que possa. Não o faço, no entanto, sem vos deixar, não a despropósito, este belo texto de Gabriel Perissé:

Quem mexeu no meu texto?!

Tal como o goleiro no futebol, o revisor, na editora, é aquele que evita o pior (o gol adversário, o erro de digitação, a escorregada gramatical, a incoerência que ninguém percebeu etc.).

No entanto, é também o revisor quem mais sofre com as derrotas de um texto. Ele é o último homem (ou a última mulher) a ler o livro antes da fase de impressão gráfica, quando não há retorno...


Monteiro Lobato dizia que a tarefa do revisor era das mais ingratas. Que o erro ou a falha se escondiam durante o processo de confecção do livro para, depois de tudo pronto, aparecer na primeira página aberta, como um saci danado, pulando, debochando do revisor.


O revisor é um caçador de distracções. Uma de suas maiores alegrias (em que há uma pitada de vaidade) é encontrar deslizes do autor, perceber as gralhas que ninguém viu antes, corrigir detalhes que iam passar despercebidos.


O revisor revisa com amor.

O revisor sai de manhã, caneta em punho, em busca de verbos mal conjugados e vírgulas fugitivas.

O revisor revisa com dor.

O revisor chega em casa, à noite, com o coração cheio de parágrafos amputados e tópicos frasais remendados.

O revisor revisa com ardor.

O revisor enfrenta moinhos de vento que de fato moem o vento de palavras que o vento não leva.

Madrugadas insones, manhãs e tardes quentes, noites chuvosas, o revisor vai pulando as linhas e entrelinhas do texto em busca das ciladas armadas sabe Deus por quem.

O revisor entrega o seu trabalho bem suado e abençoado. Recebe as moedas de prata que são, na verdade, moedas de ouro. Recolhe seus instrumentos de caça, enxuga o rosto, sorri. Sabendo que o autor poderá reclamar de suas intervenções, que poderá referir-se ao revisor, gritando: quem mexeu no meu texto?!

O mérito da frase perfeita é do autor.

O crime do erro cometido será do revisor.

O revisor, porém, não se considera um injustiçado. O revisor vitimista abandonou a profissão no primeiro dia. O verdadeiro revisor, como o goleiro no futebol, sabe que nasceu para ficar ali, na pior posição de todas, para agarrar centenas de bolas difíceis e, talvez, deixar passar a mais fácil de todas.

Oços do ofíssio.

Tá-se bem

Sentado num café calminho, ladeado de casas com meninas danadinhas para a brincadeira, onde não se bebe álcool e se fuma umas coisas melhores que tabaco. Está-se bem em Amesterdão.

Eu vinha do lado do corredor

Fui a Braga de comboio. Ao meu lado, uma menina de seus 27 anos. Talvez 28. Não vou descrevê-la, às vezes os adjetivos precisam de sossego. Direi apenas que era menos feia que bonita. Coisa para não me fazer esquecer o sono que trazia, no entanto. Toda a viagem fomos calados. Eu e ela. Eu a dormir. Ela a... bem, não sei, na verdade. Afinal eu estava a dormir. No Porto, o destino dela, pediu-me licença (eu vinha do lado do corredor), usando a terceira pessoa. Dei-lha, ainda assim. Tirou a mala, pesada, do suporte situado acima das nossas cabeças quando estamos sentados, enquanto eu, em pé, observava esperando (ou esperava observando, não sei muito bem). Com a mala já no chão, olhou para mim, eu ainda em pé. Sorri. Sou um gajo simpático. Disse-me: — Continuação de boa viagem. Agradeci, apesar de nunca lhe ter dado a entender que estava a ter uma boa viagem. Sou um gajo educado.

O vigor do sentimento

"Os bons usos ordenam que o homem se declare à mulher que ama, depois que as impressões repetidas de vê-la e ouvi-la hajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe requer primeiro o êxtase, depois as sensaborias tartamudas, ultimamente a declaração, com intervalo de três meses ao êxtase."

Camilo Castelo Branco, A Queda de um Anjo

As vozes da experiência

Julho de 2008 na vida do caracol:

11 de Julho: Bob Dylan, Passeio Marítimo de Algés
12 de Julho: Neil Young, Passeio Marítimo de Algés
19 de Julho: Leonard Cohen, Passeio Marítimo de Algés
22 de Julho: Tom Waits, KCP, Praga

A cereja no topo do bolo seria a ressurreição do Johnny Cash e uma espécie de tour pascal subsequente que passasse por Lisboa.

Mais informo

Neste blogue passar-se-á a escrever em conformidade com o novo acordo ortográfico. O mesmo será dizer que neste blogue passarei a escrever em conformidade com o novo acordo ortográfico. Aliás, todo este post está a ser escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico.
Não significa isto, no entanto, que eu goste do novo acordo ortográfico ou que esteja de acordo com ele. Não concordo com grande parte do acordo novo, mas também já não concordava com uma parte grande do velho. Ainda assim, não consigo deixar de achar piada a todos aqueles que confundem a língua com a ortografia e anunciam descaradamente a morte da língua portuguesa. E discordo ainda mais deles do que do acordo, que dizem ser novo, mas que já tem dezoito anos.
O novo acordo ortográfico é sobretudo chato. Aprendemos a escrever de uma forma e agora vamos ter de conhecer meia dúzia de regras novas. Preguiçoso como sou, isso chateia-me. Por outro lado, parece-me que a haver acordo, este deveria ser muito mais ambicioso: eliminar acentos e hífenes, por exemplo, seria um bom ponto de partida.
Há, porém, uma regra nova de que gosto muito. É a possibilidade de não acentuar a primeira pessoa do plural dos verbos regulares de primeira conjugação no pretérito perfeito. Sendo eu um gajo de Braga, não faço qualquer distinção na pronúncia da palavra passamos nas frases: «Ontem passamos todo o dia na praia.» e «Sempre que nos vemos passamos horas a conversar.» Gosto de saber que não precisarei de fazer esta distinção na escrita, como acontecia até agora. Do ponto de vista da coerência do paradigma verbal, faz até mais sentido, uma vez que já não distinguíamos o comemos presente do comemos passado ou o partimos presente do partimos passado.
Bem, muito mais teria eu a dizer sobre este tão famigerado acordo, mas não me apetece, neste momento. Estou com fome e quero ir comer. Saibam, contudo, que todo este post foi escrito em conformidade com o dito cujo.

Batota

Diz-me menina de gesto gracioso e qualidades embaraçosas, em jeito de ameaça: — Se não escreveres nada até ao fim de semana, deixo de ler o teu blogue.
Deferente para com tão séria intimação da terminante menina, deixo este singelo post de redenção em cima do prazo estipulado.

Caracol as it once was

Lembras-te, minha querida adosinda, de quando o caracol perfumado tinha estremes letras brancas sobre um lindo fundo vermelho que te feria os olhos ainda não protegidos pelos mimosos óculos que usas hoje? Pois bem, encontrei-o aqui, esse caracol. Não era bonito?

Uma simples água morna

«Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo?» dizia Machado de Assis em O Alienista, a propósito da falta de encantos de uma certa D. Evarista, falta de encantos descrita assim tão deliciosamente: «D. Evarista não merecia nenhuma desconfiança, tão longe estava de ser atraente ou bonita. Uma simples água-morna.»

Divago. Mas a verdade é que me vem aquela frase à cabeça sempre que me vejo por entre as montras de roupa primavera-verão de 2008, tão cheias me parecem de t-shirts, saias, casacos e outros adereços tingidos com essa cor que nos faz saber que os limões estão maduros.

Oferece-se

Caracol perfumado, intrépido adepto do Benfica (com costela de Bolton Wanderers desde a semana passada e até ao fim da semana presente), oferece-se para treinar equipa profissional de futebol do clube. Promete desbaste significativo de jogadores, discordância sistemática em relação a qualquer palavra balbuciada pelo ainda presidente Luís Filipe Vieira, um discurso arrebatador no balneário e nas entrevistas rápidas e títulos, muitos títulos, a breve trecho, ou seja, para o ano. Exige não mais do que 11 jogadores novos por si indicados (para um plantel de 22), um copo de sumo e uma fatia de pão integral com nutella depois de cada vitória trazidos ao seu gabinete particular por duas das meninas que com os seus pomponzinhos animam os intervalos dos jogos da Luz, um fantoche com o famigerado nível IV do curso de treinadores para usar a braçadeira, o elixir da eterna juventude para dar ao Rui Costa e, obviamente, o passe do comboio para poder ir treinar para o Seixal.

Agremiação III

"Que se lixe o John Wayne, prefiro Clint ou o Van Cleef
Gosto dos meus hérois com um pouco de patife
Sujidade no suor que escorre pela cara
Sarro na roupa ao lado de uma mulher manara
A bela e o monstro dão um par mais do que perfeito
Principamente se ela tiver 90 e tal de peito...
Como a Cláudia ou a Sofia nos anos setenta
Língua afiada, olho aberto e muito pêlo na venta
Mas já que não há cowboys tenho que dizer, infelizmente
Há apenas bons da fita com um ar deprimente,
Porque tanta saúde simplesmente não pode ser saúdavel
Há-de fazer mal à cabeça, é uma verdade inegável
Para mais, dá que desconfiar e um gajo mete-se a pensar
não dá para acreditar - aonde é que viemos parar?
Abaixo os novos hérois, tenho saudade dos cowboys,
Com um sotaque manhoso e bronzeado de mil sóis"

Cowboys, Da weasel

Ainda

Continuo a ser do Benfica. Intrepidamente.

Ainda

Recuperando uma frase que li há muito não sei onde nem a quem, apetece-me dizer «quem ainda fala neste mundo, fala pouco e fala mal».

Agremiação II

«Pregou alguns anos com aplauso dos entendidos e inutilidade dos pecadores. A retórica é a
arte de falar bem; mas os vícios são a arte de viver bem e alegremente.»

Camilo Castelo Branco,
A Brasileira de Prazins

Dúzia

Pois bem, adosinda do meu coração, estas são as doze palavras de que me lembrei e que te direi minhas favoritas (a ordem por que aparecem foi cuidadosamente pensada para ser aleatória):
  • miúda — nome genérico das meninas de que gosto realmente;
  • castiça — um grande adjectivo, que vai bem em qualquer tipo de conversa;
  • calipígia — palavra de origem grega que caracteriza educadamente uma parte mais ou menos pudenda, quando na verdade falamos de um todo (de uma toda, para ser mais específico);
  • obnubilar — (fazer) esquecer em beleza;
  • beiços — sobretudo umedecidos (assim mesmo, sem h);
  • agremiação — a melhor maneira de designar um conjunto de indivíduos que se orgnizam com vista a alcançar objectivos comuns; a minha agremiação preferida é, como sabes, o SLB;
  • ventre — uma barriga clássica;
  • escrevinhar — escrever pelo prazer de ser o Cupido das palavras e nada mais;
  • conspícuo — palavra que me soa ao oposto do que significa; coisa que, por muito que tente, não consigo deixar de ser;
  • dentadinha — porque me sugere deleite tímido, volúpia recatada;
  • indulge — porque também de palavras estrangeiras se compõem as minhas preferências; porque se trata de um estranho false friend — quantas vezes usei eu "indulgência" com a semântica inglesa — e porque faço tudo isto to indulge you, my dear adosinda;
  • seio — porque sim; é melhor que pão.
Noutro dia, outras palavras seriam. Como sabes, a minha volatilidade não me permite o compromisso. Nem com tão desafectadas palavras...

Acontece muito

— Era capaz de não ser casual.
— Mas era gracioso e picante.
— Inusitado, mas propositado. Ela é uma maquina de manipulação, no fundo, mas sem ter a noção.
— De facto. Acontece muito.
— Sim, há provas e tudo.
— Irrefutáveis provas. Mas. como pode um humedecer dos beiços ser inocente?
— Não é inocente, mas não implica que se tenha consciência da manipulação. Nem todo o acto não inocente é acto de manipulação.
— Ou não pretende ser.
— Igual.

Agremiação

"A seita dos saudáveis. É uma agremiação como a dos escuteiros, dos desportistas, das testemunhas de Jeová, dos comunistas até há pouco e assim. Não beber, não fumar, evitar a carne e sobretudo as gorduras, dar preferência aos vegetais, comer pouco e várias vezes ao dia mesmo sem apetite, deitar cedo, fazer exercícios, evitar o sedentarismo, vigiar o peso, a tensão arterial... Sim. Mas para que é que eles querem a vida, se não é para a utilizarem? Lembram os que compram roupa mas guardam-na e não a usam. O seu objectivo na vida não é viverem-na mas cifrar a felicidade ao simples facto de a terem. São exemplares à vista — magros, direitos, ginasticados. Mas não tiram proveito disso, excepto o de serem saudáveis à custa de muito martírio. Ou seja, o de poderem gozar a vida na sua maior amplitude, que apenas é poder. A seita dos saudáveis. Vejo-os com frequência na TV. Mas tiro-lhes o som e ficam mais enfermiços."

Vergílio Ferreira, Pensar

Cumplicidades

Enquanto leio pequena entrevista de Manuel Alegre à Visão, apercebo-me de que afinal política e futebol estão intimamente ligados: ambos são «assim mesmo».

Pobre consolo

— Afinal, és apenas humano. diz-lhe ela, em bem-intencionado lenitivo. Ingénua, esquecia-se de que ele tinha paciência limitada para sofismas limitadores das suas limitações.

Orelhas arregaladas

Existo, logo oiço:

— Não foram colocadas questões no sentido interrogativo do termo.
— Que engraçado! Derrogação não faz parte do meu vocabulário activo.

Onde há fumo

De repente toda a Lisboa parece um enorme Bairro Alto. Por onde quer que passe, vejo as pessoas à porta dos cafés, tascas, restaurantes e afins em vez de lá dentro. A fumar.

Não sem desencanto

Sentado, excepcionalmente, a almoçar em grande superfície comercial, dou por mim a ouvir as últimas tendências no que à moda das árvores de Natal diz respeito. Menina de porte bojudo, que afirmara, pouco antes, que os homens só lhe interessavam do pescoço para baixo (frase que registei com interesse, mas não sem desencanto — há coisas que as mulheres só devem dizer baixinho, seja qual for o seu porte), diz que há uma árvore preta muito gira, linda de morrer, na Área. Para descontentamento do seu porta-moedas, esta árvore combina às mil maravilhas com as (caras, diz ela) bolas prateadas que estas tão populares lojas de produtos para a casa disponibilizam aos seus fregueses. A amiga da bojuda menina, cuja voz se fazia ouvir menos distintamente, logo acrescentou que também ela tinha o seu cartão de débito fisgado na negra árvore até ao momento em que o destino — disfarçado de pai natal, digo eu — a colocou perante uma árvore azul, pela qual se apaixonou e na qual as mesmas bolas prateadas (caríssimas) ficam que é um regalo.
Eu, que sou do tempo (e do espaço) em que se usavam árvores sacadas do monte mais próximo, que cheiravam a resina, tinham o tronco castanho e caruma verde, por vezes até pinhas — enfim, eram pinheiros mesmo, pinheiros de verdade —, acho lindo que se discuta cores de árvores de Natal, que se escolha o preto, que se pague euros mil por isso e que se brade sem pudor no meio de praça de restauração de grande superfície comercial tamanho despautério. Até porque, se é de árvores pretas que se faz o Natal 2008, dados os incêndios que agora temos em Novembro, parece-me que não seria muito difícil arranjar uns pinheiros chamuscados na florestazinha mais próxima. Permitiria, pelo menos, que outra árvores crescessem no lugar dessas.
Mas isto sou eu a pensar, sempre optimista e cheio de boas ideias!

Equílibrio

– Queremos sempre ir mais alto, não é, caracol? E não podemos pensar muito na queda ou corremos o risco de não viver a plenitude do que nos vai acontecendo.
– Eu acho que podemos pensar na queda. Se não, não nos equilibramos. O melhor será talvez não olharmos para baixo.

Augúrio

— Hoje não há festa na cidade, caracol? Ou estás com medo da chuva?
— Estou com medo da chuva.
— Esse comodismo vai ser o teu fim.

À volta dos chocolatinhos

— Está bem, caracol. Mas eu só quero as bolas.
— É pena, miúda. Já só me resta um pauzinho.

— Afaga-me o ego!

Impelido por ternos comentários a um post anterior, dou por mim a lembrar-me da expressão que escrevi no título do post presente e a pensar se, colocada assim em forma de acto directivo, haverá alguma forma de se lhe dar uma interpretação literal e, por uma vez, evitar os impérvios caminhos do dizer de carácter sexual de gosto duvidoso.

Expectativas

— Para quando uma análise semiótica profunda aos billboards da Intimissimi, caracol?
— Não sei, pá. Aquele padrão tigresse deixa-me semioticamente infértil.

Abona-me em demasia

É estranhamente elevada a quantidade de vezes que, em lugares mais ou menos públicos, meninas em idade casadoira me dizem adeus sem antes me terem dito olá. Tão estranhamente elevada que me faz pensar porquê. Não tão estranhamente óbvia que me permita o atrevimento de a tal pergunta responder. (Quer dizer, tenho uma teoria, mas abona-me em demasia. Por pudor, coíbo-me de vo-la apresentar.)

Arrebatamento

Leio o meu blogue e penso: «Será que se percebe, nestas desengraçadas linhas com que me descoso, quão boa pessoa sou?» Tremo perante o espectro de resposta e, com arrebatamento, silencio em mim cogitações inoportunas.

Desvio o olhar

Aproveito o facto de ser vizinho do Lux para ir ver o Quinteto do Nélson Cascais nas Jazz Sessions das quartas-feiras. Chego já depois de a actuação ter começado. No meio do burburinho provocado por gente muito faladora, dou por mim a ouvir o que me parece ser uma muito bem engendrada versão de everything means nothing to me do Elliot Smith. Por momentos, esqueço que no dia seguinte tenho de acordar mais cedo do que é caracoleanamente possível. Por breves segundos, desvio o olhar da bela morena de viçosos cabelos ondulados que, ao meu lado, conversa alegremente com alguém de que a minha memória não guardou o traço, enquanto com a mão direita segura um L&M azul e com os seios vivazes espalha incontível volúpia. E penso como é bom saber que estes jazzistas sabem ir buscar as coisas boas que se fazem na pop. O Nelson Cascais fá-lo sem pruridos de pretensão e ainda bem.

Tenho-te por uma pessoa

– Não sei se corresponde totalmente à verdade, mas tenho-te por uma pessoa extremamente independente.
– Não sei se sou independente; sei que tenho medo de não ser livre.

Ventrezinho tonificado

Diz-me, calipígia menina de seios túrgidos enquanto passa os dedos fagueiros pelos meus caracóis, que o uso recorrente que faço do vocativo miúda não é elegante nem particularmente apreciado pela comunidade feminina.
Encosto a cabeça no tonificado ventre da calipígia menina, para aproveitar a sombra proporcionada por tão belamente intumescidos peitos, que os meus caracóis roçam eriçados, e returco que o uso que faço do vocativo miúda é, mais do que recorrente, carinhoso. Explico que a notada recorrência, a existir, se aplica apenas a meia-dúzia de interlocutoras pelas quais tenho estima exacerbada. E termino timidamente: – Acaba por ser uma forma, talvez deselegante, de vestir esse tão mal disfarçado amor de casualidade, alguma distância e um certo charme. Entendes miúda?
Percebo no meio sorriso da calipígia menina que, apesar de desamuada, não estava convencida. E acrescento:
– É, também, uma forma de combater as minhas cada vez mais frequentes instâncias de afasia nominal. Usando tão bem amanhado vocativo não terei de me debater com a hesitação decorrente da inexorável necessidade de procurar o nome da pertinente colucutora na minha decrépita memória.

Selecção vocabular

– Já vais?
– Tenho de ir. Encontramo-nos logo e dialogamos, está bem?

Afecto

– Amo-te – disse ela, convencida de que trazia novidade.
– Ainda bem – respondeu ele com um sorriso fingidor de desafectação.

Composição unitária de interesses

– Olá chabala, estás boa?
– Olá miúdo, eu estou. E tu?
– Também. Tenho pensado em ti, miúda.
– E eu tenho pensado em ti, chabalo.
– Curioso, temos, portanto, vontades contrapostas mas perfeitamente harmonizáveis entre si. Podemos estabelecer uma composição unitária de interesses. O que achas?
– Parece-me bem. E em que consistirá essa composição unitária de interesses, miúdo?
– Num contrato que faça de nós uma entidade única, cara linda.
– Um contrato se calhar é muito, mas um acordo não vinculativo que funda as nossas identidades pode ser, miúdo.
– Um acordo não vinculativo será então, coisinha linda do meu coração.

Dispensar

Com frequência impertinente, perguntam-me , pessoas em geral, se lhes posso dispensar um cigarro. Quando lhes respondo que não fumo, reajem com conspícua surpresa, o que, definitivamente, não consigo compreender. Afinal de contas tenho dentes brancos, uso barba mas o bigode não está amarelado, tenho hálito mentolado e a minha pele está longe de parecer envelhecida.

Não perguntes

– Olá miúda, hoje sonhei contigo.
– Sonhaste comigo?! E em que consistia esse sonho?
– Não perguntes. Embaraças-me.
– Vá lá, diz-me o que é que sonhaste.
– Que te dava beijihos na testa.

Meia palavra

– Da-se!
– O que é isso?
– Foda-se!
– Ah. No que toca a palavrões, meia palavra não basta.

Brindes assassinos

Temos agora em Portugal uma instituição que zela pela nossa saúde. Fecha cafés, restaurantes e, agora, cantinas em catadupa. Acabou-nos com os tradicionais galheteiros nos restaurantes e quer que no futuro todo o pão neles servido seja embalado por causa das mãos sujas dos clientes.

É uma instituição que quer fazer de nós uns frageizinhos que sucumbirão perante o mais ténue virusinho. Para isso, tem um director científico cuja máxima é "O radicalismo contra o facilitismo, porque este mata". Pelo andar da carruagem, estaremos, daqui a uns tempos, num restaurante esterilizado, depois de um banho esterilizador, a comer, com pinças esterelizadas, alimentos esterelizados.

Entretanto, acabaram-se os brindes do bolo-rei. O director científico da ASAE (é dessa instituição que falo) justifica à Visão a medida: "tantos dentes se devem ter partido e talvez alguém tenha morrido". Um cientificíssimo argumento, de facto.

Política

Posso, esporadicamente por questões de clareza, dizer sobre o que falo, mas nunca, em caso algum, falarei sobre o que digo.

Tudo

It all boils down to one quotable phrase.

Bright Eyes, de novo

Tripas coração

Vou fazer das tripas coração para não mostrar que estou a desistir.

Tradução muito livre de uma canção dos Bright Eyes

God's Away on Business

Senta-se à minha frente no autocarro senhora antiga, com gesto e movimento de olhar denunciadores de ânsia de iniciar conversa. Imediatamente abro a sacola que trago a tiracolo, alcanço o leitor de mp3, ponho os auscultadores e começo a ouvir God's Away on Business, abafando qualquer propósito, bem intencionado que fosse, de entabular tão circunstancial troca de palavras.

Preconceito

Desconfio, com fervor de efebo apaixonado, da cultura futebolística de toda e qualquer pessoa que use a expressão «meter golo» numa conversa sobre o mais belo jogo.

Encanto

Na mesa ao lado, mesmo no cantinho do café da esquina, duas aprazíveis meninas antecipam nostalgias em conversa de adeus.

Peep Show

Sento-me, num café muito frequentado de uma esquina de Coimbra, mesmo ao lado da máquina do tabaco. Em apenas trinta minutos, assisto a um desfile luxurioso de meninas muito bem vestidinhas e muito bem torneadinhas a pôr moedas no orifício da máquina de tabaco construído para o efeito. Concluo que, num café de uma esquina movimentada da primeira década do século XXI, não há melhor lugar para sentar do que aquele que tem vista para a máquina dispensadora de cigarros.

Herói pós-pós-moderno


Ou, o caracol palindrómico, by Invisible-NME.

Porta-luvas

Há um senhor, cujos cabelos brancos cobrem cada vez menos a cada vez mais luzidia escalpe, que costuma estacionar o seu Mercedes Classe E nos recortes construídos para o efeito em frente do prédio onde moro.

– Coisa natural, – dirá a cara leitora num assomo de irritação,  como tu próprios dizes, caracol, os recortes foram construídos para o efeito.

Não se assanhe, a cara leitora. Deleite-se com esta simplíssima prosa e guarde a sua impaciência para momento menos prazenteiro, que eu ainda não acabei. Antes de sair do seu Mercedes Classe E aparcado nos recortes construídos para o efeito, o encanecido senhor põe, no banco do pendura, uma mica com uma folha A4 que diz, em letras maiúsculas, «Neste veículo não existem objectos de valor». Depois sai e fecha a porta, deixando sempre o porta-luvas aberto e dois a três livros no banco de trás.

Esperará agora, a cara leitora, que eu escrevinhe um comentário sobre tão singular comportamento. Pois bem, com pena, não o vou fazer, uma vez que não sei o que achar disto. Fica o relato desapaixonado de um uso que se me apresenta curioso.

Teclado arisco

«O Rui Costa é grande», dizia eu, em post laudatório simples, depois dos ignominiosos grunhidos do Joe Berardo sobre o nosso excelso número dez.

Enfim! Foge-me, por vezes, o teclado para o eufemismo.

O Rui Costa não é grande. O Rui Costa é enorme.

Ténis feminino


©


Por razões boas de se ver, domina, esta deleitosa moça, a rubrica "most popular photos" do sítio oficial so US Open.

Ténis feminino


©

Malgrado o decote parco substituído que foi por expletivas lantejoulas Swarovski apresenta beleza donairosa, o vestido vermelho que envolve o esguio corpo de Sharapova nas noites de Nova Iorque. Pena dissonar do semblante cenhoso que a conspícua siberiana apresenta em court.

Intonso, mas cheirosinho

Não obstante o recendente brilho que tão nutritícios produtos lhe emprestam, percebo que é altura de dar um jeito à barba quando começo a lavá-la com champô e amaciador.

Conluios roazes

Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as páginas dos dois livros, preparado para o dissabor de encontrá-los mutilados, defeituosos, com folhas de menos, comidas pelas ratazanas colaboradoras roazes do galicismo na ruína da boa linguagem quinhentista.
Camilo Castelo Branco, A brasileira de Prazins

Preocupam-se hoje os defensores do bom português (estranho conceito) com a morte anunciada da língua pátria, que atribuem a acção conluiada do sms e do inglês. Tempos houve em que outras eram as fontes das agonias que adivinhavam definhamentos lampeiros da língua de Camões.

Gesto que se desaconselha por completo

– Manuel Cajuda num gesto que se desaconselha por completo – diz o relatador da TVI, quando, durante o jogo Benfica - Guimarães, aparece, na televisão, um grande plano do treinador da equipa minhota a fumar.
Eu pensava, ingénuo, que o relatador de um jogo de futebol deveria ser não mais do que o responsável por dizer o nome dos jogadores. Parece, no entanto, que serem responsáveis por dizer o nome dos jogadores não chega a estes profissionais. Já há muito que nos emprenham os ouvidos como se em vez de telespectadores fôssemos ouvintes. Agora, surge este senhor da TVI na origínalíssima função de pregador de virtudes. Numa situação em que basteva dizer "Manuel Cajuda, treinador do Vitória de Guimarães", preferiu fazer comentários morais assaz desnecessários acerca dos gestos de um dos intervenientes no espectáculo, que indirectamente lhe serve de ganha-pão. Eu acho uma pena.
Como telespectador não me interessa aquilo que o senhor ralatador dos jogos transmitidos pela TVI acha que se aconselha ou desaconselha, por completo ou pela metade. Parece-me que perder a oportunidade para estarem calados é o principal atributo destes senhores relatadores que, em gestos que se desaconselham por inteiro, insistem em abrir a boca para dizer mais do que o nome dos jogadores.
Infelizmente tenho de os ouvir. Condenado que estou a ver os jogos em cafés avulsos, não tenho controlo sobre o comando e o seu precioso botão do volume.

Desaventurada inteligência

«A qualidade do Rui Costa fez a diferença. Os seus passes foram muito bons, bons até demais para os seus colegas. Mostrou ser mais inteligente que eles.»

Solbakken, treinador do FC Copenhaga, dizendo coisas certas.

Pequena pausa para satisfazer desígnios de promoção pessoal

– Eh pá, caracol, onde é que tu foste desencantar isso?
– Oh, miúda, desiludes-me. Eu não desencanto, eu encanto.

Caracol perfumado, a encantar desde 1979.

Shades of blue

Com assiduidade e vocabulário enfático, dizem-me, imprudentes meninas de musculaturas diversas, traços fisionómicos discrepantes e idades variadas, que tenho olhar encantatório.
Reajo com afectação a tão bem intencionados panegíricos e vou tirando cada vez menos prazer da necessidade inexorável de usar óculos de sol.

P.S. Repare-se na fineza do trocadilho usado no título em língua estrangeira! Espectáculo!

Pequenos luxos

Sentado em provecta cadeira de braços, com as pernas estiradas num futon e almofada sob os rins, aproveito a luz emanada por poste de iluminação pública visionariamente plantado em frente da ampla janela do meu estúdio austero para, com contumácia, ler as primorosas bagatelas de Camilo Castelo Branco.

Principalmente

Amai, rapazes! E, principalmente, amai moças lindas e graciosas; elas dão remédio
ao mal, aroma ao infecto, trocam a morte pela vida... Amai, rapazes!

Dom Casmurro,
Machado de Assis

Epifania

– Obrigou-o a dizer que a amava.
– Ele disse, mas era verdade.

Good night and good bock

Entretém-se a Super Bock a fazer trocadilhos de gosto cada vez mais duvidoso para promover os seus produtos cervejeiros. O último que vi foi uma cerveja reflectida nuns óculos do sol e a inscrição ray-bock. Parece óbvio que os criativos da cerveja da Unicer precisam de ajuda.

Fazendo jus à minha fama altruísta, vou ajudar os pobres coitados. Vejamos:

Para uma imagem desportiva:
– Um atleta calçado com caricas Super Bock com a inscrição: le bock sportif
– Duas garrafas de cerveja, uma à frente a puxar pela outra e a inscrição: ree-bock
– Gente a jogar futebol com as caricas e a inscrição: futebock (este é bom porque se pode usar para o andebock, o basquetebock, o paintbock, etc.)

Aproveitando o cinema:
– Um fotografia com o Arnold Schwarzenegger, de garrafa na mão, em tom ameaçador a dizer: I'll be bock
– O Stallone a lutar com um cerveja em cada mão e a inscrição : bocky II

Aproveitando o passado telenovelístico nacional:
– Algumas actrizes brasileiras, uma garrafa de Super Bock com uma aureola e a inscrição: bock santeiro
– Mais algumas actrizes brasileiras (um pouco mais velhas), uma imagem de um lábio sedento de cerveja e a inscrição: cabockla

Num registo musical:
– Arranjar cinco gajos imberbes e um pouco andróginos, pô-los a cantar uma baladinha à cerveja e chamar-lhes: bockstreet boys
– Se cinco for de mais, arranjar só um a cantar uma musiquinha adolescente e chamar-lhe: new kid from the bock
– A Britney Spears a cantar e a inscrição: em playbock

Tirando partido da sabedoria popular:
– Pôr uma chabala em trajos sugestivos e com uma Super Bock na mão à frente do coliseu e a inscrição: quem tem bock vai a Roma
– Um empregado a levar uma caixa de cervejas para o frigorífico e a colocá-las lá descuidadamente e a inscrição: a bock de caixa

Fazendo algo de cariz sexual:
– Uma imagem só com o gargal da garrafa e os lábios de uma menina a aproximar-se e a inscrição: abockanha aí
– Uma imagem com uma menina de olhar licencioso e um chabalo a sugerir: faz-me um bock

Para o universo estudantil:
– Uma garrafa cujo rótulo tem várias páginas que nos permitem escrever. Na capa a inscrição: bock de notas

Politizando a cena:
– A Joana Amaral Dias a beber uma Super Bock e a inscrição: bock de esquerda
– Um conjunto de garrafas no lugar dos deputados no parlamento a votarem contra e a inscrição: forças de bockeio

E pronto. Espero ter ajudado de alguma forma. Se precisarem de mais é só dizer. Até porque tenho uma ideia para quando inventarem cerveja com mel. Começa assim:

O bock doce é bom é bom é diz o avô e diz o bebé...

Frases desfeitas

Era uma historinha de fazer chorar as pedras da descalça.

Só tu (tentativa e erro)

Estou todo avariado. E só tu me podes consertar.
Estou todo roto. E só tu me podes remendar.
Estou todo contente. E só tu me podes consolar.

Sondemos o que se passa dentro daquele corpo, e desinchemos as bochechas do estilo.

Se isto não é um início perfeito para um livro, então não sei o que é um início perfeito para um livro:

Aflições sudoríferas

Em um frigidíssimo dia de janeiro de 1847, por volta das nove horas da manhã, o Sr. Hermenegildo Fialho Barrosas, brasileiro grado e dos mais gordos da cidade eterna, estava a suar, na rua das Flores, encostado ao balcão da ourivesaria dos Srs. Mourões. As camarinhas aljofravam a brunida testa de Fialho Barrosas, como se a porosa cabeça deste sujeito filtrasse hidraulicamente o estanque de soro recluso no bojo não vulgar do mesmo.
Era o suor respeitável da mortificação; o esponjar das glândulas pela testa, quando as lágrimas golfam dos seus poços, e não bastam já olhos a estancá-las. Era, enfim, a dor que flameja infernos em janeiro, e tira dum homem adiposo e glacial lavaredas, como o Etna as repuxa por entre as neves do seu espinhaço.
Sondemos o que se passa dentro daquele corpo, e desinchemos as bochechas do estilo.
Hermenegildo Fialho tinha recebido, às oito da manhã, no seu escritório de consignações e descontos na
rua das Congostas, um bilhete da ourivesaria Mourão, convidando-o a entrar naquele estabelecimento, quando pudesse, para negócio urgente.
O substantivo “negócio” abalou-o. O adjectivo “urgente” sacudiu-o.


Camilo Castelo Branco, Os brilhantes do brasileiro

Fora do contexto

Sei que tudo isto pode parecer estranho para ti. Que se calhar me apanhaste em mil e uma contradições. Mas é mais ou menos o que sinto e o que vejo. E não me interessa se faz sentido ou não. Interessa-me que existe. Pelo menos na minha cabeça.

Cool and colected

Fiquei contente com a vitória do Federer. Um campeão tem de ter postura de campeão. E postura de campeão significa serenidade, quase desprezo.
O Nadal quer ser campeão e mostra-o. Mostra-o demais. Corre demais. Gesticula demais. Cansa-me vê-lo jogar.
Um campeão não quer ser campeão. Não mostra que quer ser campeão. É-o simplesmente. Um campeão é campeão porque assim acontece. Porque tem de ser. Porque o destino mandou. Porque nasceu para aquilo.
Principalmente quando o campeão é jogador de ténis, um jogo individual e de elite. E sobretudo quando é em Wimbledon.
Há que manter as aparências.

Valham-nos a Joana, a Rita e a Teresinha

É moda, nestas eleições autárquicas intercalares para a Câmara de Lisboa, os candidatos poluírem os seus cartazes com fotografias suas e da sua equipa. Como se uma só não fosse bastante, somos obrigados a levar com quatro, cinco, dez caras feias por cartaz.
Vá lá, ainda vamos tendo os anúncios da netcabo nas paragens de autocarro. Mas não chega. Tenho saudades dos outdoors da Intimissimi e da beleza seráfica de uma Ana Beatriz Barros vestida de singeleza.

Não é amor, mas não deixa de ser um sentimento

Ouvido de passagem, de menina de metro e meio, menos magra que gorda, para rapaz de gesto efeminado:
– Eu era a verdadeira ex-namorada dele. Ela, de certa forma, também era ex-namorada, mas só de curtes. Foi bué de giro.

Particular

– ... mas gosto de ti em particular, caracol.
– Isso quer dizer que gostas de mim em privado ou que gostas mais de mim do que das outras pessoas?
– Qual é que preferes?

SMS

Preciso de 60 minutos do teu dia: 15 para vires até aqui, 25 para conversarmos e 20 para voltares para onde estás. Podes dar-mos, miúda?

Cúmulo

- Caracol, tu tens a mania da pós-modernidade, definitivamente. O preservativo cúmulo e paradigma da sociedade pós-moderna!! Onde é que tu vais desencantar essas coisas, caracol? Não lembra a ninguém.

- Não achas que é, miúda?

- Não sei. Não estou a ver como. Mas se me explicares...

- Pequerruchinha do meu coração, se concordares que pós-modernidade é basicamente a o conjunto de merdas que aconteceram nos finais do século xx e que se prolongam até agora vais ver que faz um certo sentido. Repara que todo este tempo é marcado pela queda das ideologias, de modelos e pela afirmação daquelas tretas engraçadas do "é proibido proibir" e das revoluções sexistas e sexuais dos anos sessenta. Obviamente que, se não há modelos nem ideologias, deixa de haver fidelidade a modelos e ideologias, e , mais tarde, a fidelidade ao que quer que seja. E o que é que acontece? O desnorte, a confusão, a promiscuidade.

E tu sabes que tudo acaba em sexo. A promiscuidade sexual é fixe, mas traz doenças. E nós, seres pós-modernos que queremos continuar a ser, inventámos o preservativo. Assim, enganamos as doenças e podemos prosseguir.

- Que grande treta, caracol.

- Eh eh! Pois é! Claro que nada disto é verdade, mas serve os propósitos da comunicação. Detestaria não ter nada para te dizer.

- Essa tua pseudo-profundidade é que é pós-moderna, caracol!

- Sabes o que seria realmente pós-moderno, miúda?

- O quê?

- Eu e tu aproveitarmos o teu Smart, tão bem estacionadinho ali na sombra daquelas obras, para sairmos daqui. Irmos até ao teu belo loft e cairmos nos beiços um do outro. Eu rasgar-te esse trapos H&M, tu rasgares-me as costas com essas unhas de gel, cairmos na tua caminha Ikea e vivermos felizes para sempre durante vinte e cinco minutos.

- E o pós-moderno preservativo?

- Está aqui.

10

Respeito profundamente, como sempre fiz, a opinião de todos, sobretudo dos adeptos, que são o verdadeiro coração do Clube, relativamente às minhas qualidades desportivas.

O Benfica sempre se construiu de muitas vontades e muitas opiniões. Cresci aprendendo a respeitar as opções, as diferenças e as opiniões alheias.

No entanto, considero-me magoado pela forma como o meu empenho, dedicação, profissionalismo e amor ao Benfica foram postos em causa. Tenho dado sempre, ao longo da minha vida, demonstrações claras e inequívocas da minha disponibilidade para servir o Benfica.

Recordo que, em 1994, tinha eu 22 anos, o Benfica enfrentava uma situação financeira muito delicada. A minha saída para Itália – a transferência mais cara da época – foi solução para a gravíssima crise do Clube.

Tivessem homens providenciais aparecido, nesses tempos difíceis e conturbados, a ajudar o Benfica, e talvez a minha história profissional fosse diferente. Talvez nunca tivesse necessidade de ter deixado o Clube.

Quero que fique bem claro que nada, rigorosamente nada, me demoverá de continuar a a sentir, como sempre senti, orgulho, paixão e honra por defender a camisola e os valores do Sport Lisboa e Benfica.

Aceito o recente pedido de desculpas tornado público pelo Sr. José Manuel Berardo.

Mas, se é verdade que no mercado dos negócios, que o Sr. José Manuel Berardo parece conhecer tão bem, o meu valor futebolístico pode ter um preço, a minha dignidade não tem!

Rui Manuel Costa

Para mim, o Rui Costa é como a Michelle Pfeiffer: nunca será velho de mais



















"Não corre." "É lento." Dizem, com uma falta de imaginação e de inteligência que me enfada.

O Rui Costa é jogador da bola. Não é um velocista. Não é um corredor de fundo nem de meio-fundo. É jogador da bola. Um jogador que "passeia classe". E quem passeia, sabe apreciar o tempo e dar-lhe valor. Não corre sem necessidade. Para se passear classe não é preciso estar sempre a correr, é preciso ter classe.

O Rui Costa é grande.

The Sopranos

Parece que houve muito quem não tivesse gostado do final dos Sopranos. Pois eu acho que foi um bom final. Um muito bom final. E com dois pormenores que me fizeram espevitar as papilas gustativas.

O primeiro acontece quando na visita ao enfermo Sil, Tony se "distrai" a ver uma cena do Little Miss Sunshine: "I won, I won, I won".

O segundo é o fim: The Sopranos acaba com uma música chamada Don't Stop Believin'. As duas últimas palavras desta superlativa série de televisão são precisamente "Don't stop". Eu não diria melhor

Actos vigorosos de intimidade

Ele, cabelo desalinhado, barba de oito dias, olha para ela, surpreso.
Ela, cabelo preto, comprido e liso, finge não reparar e tira o pão da prateleira. Quente.
Ele, meio sorriso, dentes brancos, olha para ela, insinuante.
Ela, calças de ganga coçadas, botas castanhas tipo sabrina, finge não notar com um sorrisinho envergonhado e alcança a alface. Viçosa.
Ele, mão esquerda no bolso, casaco de cabedal castanho, olha para ela, convicto.
Ela, nariz fino, olhos redondos curiosos, finge não ver e, com sorriso discreto e faces quentinhas, coloca a manteiga no cesto. Magra.
Ele, carteira na mão esquerda, cartão multibanco na direita, olha para ela, atento.
Ela, saco do Pingo Doce na mão esquerda, puxador da porta na mão direita, finge não ver e sai com os olhos no chão. Cintilante.
Ele, saco do Pingo Doce na mão esquerda, óculos do sol na mão direita, sai e olha para o horizonte, apressado.

Um homem que sabe da poda

"Já delineou a próxima época?
Em termos de organização, sim.
Falta arranjar as marionetas."

Manuel Cajuda, Público, 22 de Maio de 2007

Cinco letras, o regresso

É que, ao enviarem uma sms, basta nos vossos telemóveis, que agora trazem sempre escrita inteligente, digitarem 23456 e terão um beijo com todas as letras. É difícil?

Querem enviar mais do que um beijo? Pois bem, pressionem 234567.

Haverá coisa mais simples e linear?

Languidez no olhar

- Pois, tu gostas é de contrariar, não é?
- Não.

A dentadinha no lóbulo da orelha

- Tiveste saudades minhas?
- Tenho saudades tuas até quando vais ali à casa de banho.

Suor descaindo nas coxas

Deu-lhe um beijo terno. Fora um beijo apaixonado, não seria um beijo mentiroso.

Sol escorrendo nas espaldas

-Só os bonitos podem ser felizes, diz-me graciosa menina com convicção.
Discordo, para o bem da discussão.

Paz

Invade-me a inusitada paz de quem sabe que no próximo domingo o Benfica vai ser campeão.

Incompatibilidades

Tem mais letras o espaço da chatinha Word Verification para cada post do que os próprios posts que escrevo.

FAQ

− Caracol, essas coisas que escreves no blogue, essas conversas, aconteceram mesmo ou são inventadas?
− Chabala, se tudo fosse real não teria piada, se tudo fosse inventado não faria sentido.

Não são antónimos, pois não?

Estar contigo.
e
Estar sem ti.

Por exemplo, na frase “É sempre melhor estar contigo do que estar sem ti.”.
Pensem nisso. Não quero outra coisa que não seja lançar a dúvida nas vossas taxonomizadas cabecinhas.

Correrias...

Passou por mim moto veloz
deixando atrás de si um rasto bruto
de ruído, indiferença, ar inquinado...
Olhei o rapaz que nela ia:
pareceu-me alheio ao mais;
concentrado na sua própria sombra
que lhe fugia...
Desejei que a tivesse
ali
logo alcançado!...

Rui Martins dos Santos

Até amanhã

Cafezinho crepuscular. Jantarinho noite fora. Ele acompanha-a a casa.
− És muito introvertido − diz ela.
Sorriso.

01:08:14

Já não existe na Terra, mas ele persiste em que lugar? Há realmente um lugar próprio para os santos. Deus existe. O universo foi criado por ele e para que serve o universo? Se os homens... se a humanidade desaparecesse, o universo seria inútil. Ou será que ele tem em si próprio uma função sem a existência do homem. Nós... nós queremos imitar Deus e por isso há artistas. Os artistas querem recriar o mundo como se fossem pequenos deuses... e fazem uma série.... um constante repensar sobre a história, sobre a vida, sobre as coisas que se vão passando no mundo. Que a gente crê que se passaram, mas porque acreditamos... sim porque afinal acreditamos na memória. Porque tudo passou... e quem nos garante que isso que imaginamos que passou se passou realmente? A quem devemos perguntar? Este mundo... esta suposição então é uma ilusão. A única coisa verdadeira é a memória, mas a memória é uma invenção. No fundo, a memória... quer dizer no cinema, no cinema a câmara pode fixar o momento, mas esse momento já passou, no fundo o que ele traça é um fantasma desse momento. E já não temos a certeza se esse momento existiu fora da película... ou a película é uma garantia da existência desse momento. Não sei, ou disso sei cada vez menos. Vivemos, afinal, numa dúvida permanente. No entanto vivemos com os pés na terra, comemos, gozamos a vida...

Manoel de Oliveira em Viagem a Lisboa de Wim Wenders

As Holmienses

Em 6 dias apaixonei-me 123 vezes.

Untitled



















Sam Francis, 1968

Ela não

Ele disse-lhe que ela era a única pessoa por quem ele trocaria a solidão naquele momento.
Ela não apreciou.

Variar

Out of reach!!!!! é o cúmulo do narcisismo, caracol.
Eu ia pôr I've got this girl beside me but she's out of reach dos doors tás a ver?, mas decidi ficar com o fim.
Pois, e para variar enganar toda a gente que .

É vida

– Caracolinho, acreditas na vida após a morte?
Não, mas acredito na morte após a vida.

Ouvir muito

– Prefiro, por exemplo, Prince Billy
Sinceramente ainda não me deu para ouvir muito. Chateia-me. Mas é uma questão de me sentar para ouvir.
ouves sentada?
Forma de expressão. Não sejas tão literal, caracol. És mais interessante quando não o és.

Vincos

Também passas os boxers, caracol?
passo o estritamente necessário.
Precisamente, nem os turcos. Há malta que passa os turcos... acho impressionante.
– O que é os turcos?
– As toalhas de banho.
– Ah, era o que faltava. Eu conheço quem passe os lençóis.
– Lençóis justifica-se.
– Ah, tu também passas.
– Eheheheheheh, não gosto de vincos nos lençóis.
Eu compreendo.
Mas turcos... é de morte.
– Há quem não goste de vincos nas toalhas.
Aquilo não faz vincos, é que está!
– Ah.

Abstensim

Eu, caracol perfumado, 412 posts, blogger desde 11 de Abril de 2004, se for votar no referendo sobre a interrupção voluntária da prenhez, voto sim.

Lisboa, 21 de Janeiro de 2007

Um teste que acerta, finalmente

You are .swf     You are flashy, but lack substance.  You like playing, but often you are annoying. Grow up.
Which File Extension are You?

Melhor

- Gostava de saber o que sentes, caracol. Melhor, gostava de saber o que pensas, o que escondes por detrás desse sorriso, porque às vezes duvido que sintas.
- Sinto muito, chabala.

Maturidade

Tenho 27 anos. Comprei a minha primeira caixa de ferramentas. Sou um homem.

Malformação

Acho que devíamos abortar o referendo sobre o aborto e aprovar uma lei mais ambiciosa no Parlamento. Ainda não passaram dez semanas.

Metafísica bastante

Dizem-me:
- Tens escrito pouco, caracol... e poucas vezes.
A verdade é que escrevo como penso: pouco, de facto.

Gente grande

Ela: És muito puto, miúdo.
Ele: Mas gosto de ti como gente grande.

CV

Não gosto de escrever currículos. Nada do que fiz ou venha a fazer merece ser escrito ou notado.

Inocuidades

Caracol sossegado no café, a preocupar-se com o seu próprio negócio. Aproxima-se uma pessoa com ar goticista, vinda de uma mesa pejada de pessoas com ar goticista, pega na mochila do caracol e vira-a ao contrário.
- Não estamos para aturar estas coisas, diz apontando para o símbolo anarquista estampado na mochila.
O caracol sorriu. Não disse nada. Deixou ficar a mochila com o símbolo virado para si. Os únicos símbolos que lhe interesam são o do Benfica e das marcas de roupa que usa. Todos os outros são expletivos.

Tan lines

- Não tens vergonha de estar a fazer topless no meio desta gente toda?
- Não, nem por isso. Achas que tenho razões para ter vergonha?
- Não. Essas mamas ficam-te bem.

Às vezes

- Sentes-te atraído por mim, caracol?
- Às vezes.
- Obrigada.

Dumb and lazy

Jerry: So you prefer dumb and lazy to religious?
Elaine: Dumb and lazy, I understand.

Seinfeld, The Burning

A naifa

Vão aqui. Ouçam as canções. Do primeiro disco. E do segundo. Comprem o disco. Saquem da net. Mas ouçam. É muito bom.

Physical Graffiti

"Ideally a custard pie should be light and delicate, but still have good body."

Ir(r)a

No Chiado, a caixa multibanco não lhe permite a opção que procurava. No auge da sua ira, ele solta a sua sonora expressão de raiva:

- Que chatice, pá!

But

But when I tell him he hates flatterers,
He says he does, being then most flattered.


Shakespeare

Profundezas da vida

Às vezes o caracol pensa que tem mel. Outras vezes não.

The Sopranos

Carlo "Tommy says the guys can track somebody from the corn in their shit."

Tony "I saw them do that on C.S.I."

The Sopranos, Luxury Lounge

"A selecção de todos nós"

Aparte a desnecessária, grosseira e até insultuosa abrangência da expressão, penso com constância por que nunca dizem "a selecção de nós todos".

... livros para amar

Fui à feira do livro. Comprei um Feast no stande da Olá.

Locais para tudo

À saída de uma casa de banho pública (a dos Armazéns do Chiado), um casal beija-se com língua e fogacidade. À saída de uma casa de banho pública, eu acho estranho.

A obnubilação do tempo

- Sim, sou. Mas isso foi há tanto tempo. Como é que tu ainda te lembras de mim?
- Miúda, és linda. És bonita de mais. E eu sou muito sensível a excessos de beleza.

Praia outra vez, finalmente

"The sun was hot. The sky was blue. The beach was sandy. The cat sat on the mat. The girl's nipples were pert. My money was running out."

Nirpal Singh Dhaliwal, "Tourism"

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
6

- Quem é que te anda a achar um sádico?
- É isso que eu estou a tentar saber.
- Andas com amizades virtuais?
- Com amizades virtuais?!
- Se não sabes quem te acha sádico pensei que te tinham chamado na net isso...
- Nã, eu prefiro as amizades reais.
- Ainda bem, good for U!
- A net não serve para amizades, pá!
- Isso não sei. A minha net é tão lenta que não dá para perceber.
- Pois, o progresso ainda não chegou ao fim do mundo. Contingências…
- Contingências de se ser classe média baixa aburguesado e conformista num país 3º mundista.
- Os outros não digo, mas só és aburguesado e conformista porque queres.
- Não somos todos? Em sério exame de consciência e sem nada dessas patuscadas de o bom senso estar sobrevalorizado? Soa bem mas é só conversa de engate.
- É a única conversa que interessa. Se quiseres fazer um exame sério à consciência, verás isso.
- Não consigo ser tão obcecado com sexo quanto tudo isso. Dei cabo da cabeça a ler calhamaços self-righteous e fiquei com um bichinho.
- Ah, também tens uma noção abrangente de sexo, portanto.
- Hã?! Define noção abrangente de sexo.
- Se começa na conversa de engate...
- Nunca neguei a existência de processos, nem inventei as convenções. Não me ligues, eu perco demasiado do meu tempo a pensar.
- Mas olha que as convenções não devem ser seguidas só por existirem. Antes, devem ser questionadas. Mas não sei a que propósito vem isso.
- Diz quem as não siga sem sofrer consequências. Eu já tentei.
- As consequências existem sempre. Sofrê-las já implica disponibilidade.
- Não estás a fazer sentido, pegas na minha afirmação e reforças o meu argumento. Pensei que estavas a tentar contra-argumentar.
- Pensas demasiado, de facto. Não, só estou a tentar perceber.
- As consequências fazem parte da ritualistica da convenção, certo? Concordamos até aí
qual é o contra-argumento? Esta coisa da dialéctica é chata como o caraças.
- Hum, não quero contra-argumentar. Só me parece é que a não obediência à convenção traz consequências, mas a obediência também. A consequência vem depois do acto. Independentemente da convenção
- Tens toda a razão, é uma pescadinha de rabo na boca.
- Ainda bem que concordas.
- Todas as convenções o são. É assim que se reforçam. Senão seriam actos de vontade individual e não convenções.
- O que não quer dizer que a vontade individual tenha de ir contra as convenções.
- Claro, isso é um a priori. Olha, se precisares de votos nessa tua campanha para ser declarado sádico não contes comigo: falta-te a crueldade inconsequente que vem associada.
- Achas?
- Acho.
- É porque não és gaja.
- Achas que elas sabem o signi.... espera aí em quem é que andaste a dar tau-tau?
- Isso agora…
- Se só elas te podem achar sádico...
- Toda a gente me pode achar sádico. Só elas é que têm razões para isso.

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
5

What you see is not, i repeat, is not what you get.

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
4

Gosto muito de ler o meu blogue. É muito bom.

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
3

- Olha, pra mim o Relaxin' ainda é uma das melhoras coisinhas que o Miles Davis fez.
- Oh caracol! Blasfémia. Como é que podes dizer isso. Fizeram esse disco numa tarde, juntamente com outros. Não podes compará-lo com outros que ele fez e que são muito mais importantes.
- Não posso porquê? Conheces história, mas já ouviste a música. Aquilo é bom, pá. E não interessa se foi feito numa tarde, num dia, num mês ou num ano. Até podia ter sido feito fora do tempo. Não é por isso que é melhor ou pior que os outros. O que importa é o que se ouve. E isso é bom. Muito bom. Eu gosto, pelo menos.

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
2

Ele, meio a sério:
- Amo-te.
Ela, meio a brincar:
- Ganha juízo, caracol.

Mas o que é que isso interessa?
Nada.
1

Tu disseste: Quero saborear o infinito
Eu
disse: A frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis
Tu disseste: Sentir a aragem que balança os dependurados
Eu disse: É o medo que nos vem acariciar
Tu disseste: Eu também tive medo. muito medo; recusava-me a abrir a janela, a transpor o limiar da porta
Eu disse: Acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala
Tu disseste: Um dia fiquei sem nada. Um mundo inteiro por descobrir
Eu disse: O que é que isso interessa?
Tu disseste: Nada...
Tu disseste: Agora procuro o desígnio da vida; às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon; escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo.
Depois
queimo tudo e prossigo a minha busca.
Eu disse: Eu não faço nada. Fico horas a olhar para uma mancha na parede
Tu disseste: E nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?
Eu disse: Não. A mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada
Tu disseste: E no entanto a mancha alastra e toma conta de ti, liberta-te do corpo. Tu é que não vês
Eu disse: O que é que isso interessa?Tu disseste: Nada...
caracolperfumado@yahoo.co.uk